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Cinco visões do futuro

Na exposição patente no MoMA “Items: Is Fashion Modern?”, o passado e o futuro encontram-se de forma peculiar. Embora muitas das 111 peças em exibição sejam bem conhecidas do público, há novos designs que apontam para o que se pode esperar da moda nos próximos anos.

Estes novos designs foram solicitados pela curadora Paola Antonelli especificamente para a exposição, patente até ao dia 28 de janeiro no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova Iorque, e estão lado a lado com peças conhecidas que já fazem parte do quotidiano, como os Levi’s 501.

«Ao fazer a pesquisa para a exposição, destacámos algumas tipologias que percebemos serem adequadas para reinterpretação – quer em termos tecnológicos, formais ou culturais – e fizemos corresponder cada uma com designers e cientistas para termos um novo protótipo», explicou Paola Antonelli, por email, à Fast Company.

«Noutros casos, queríamos envolver-nos com alguns designers e empresas que sabíamos estarem já a trabalhar em tipologias ou tecnologias altamente inovadoras – como a Bolt Threads e a Modern Meadow – e com designers cujo trabalho idiossincrático admiramos, como Lucy Jones, Ambush, Richard Malone, Kerby Jean-Raymond e Pia Interlandi, entre outros. Por outras palavras, o briefing foi “por favor levem este item do presente para o futuro”», acrescentou.

Couro sem culpas

As peles falsas não são propriamente novas, mas couro artificial de origem biológica é. A startup americana Modern Meadow (ver I&D traz novo couro para o mercado) desenvolveu um processo que permite cultivar colagénio – a principal proteína na pele animal – a partir de levedura. A empresa transforma o resultado num produto muito semelhante em termos de toque e visual ao couro, que batizou de Zoa. O produto pode assumir a forma de uma tela, moldado em diferentes formas ou até revestir têxteis. Para a exposição no MoMA, a empresa criou uma camisa em algodão e couro. No próximo ano planeia lançar uma linha completa de artigos para o consumidor.

Seda de aranha com cunho de McCartney

A empresa de biotecnologia Bolt Threads tem vindo a fazer experiências com seda de aranha não-natural há vários anos (ver O planeta das aranhas). Primeiro, a empresa modifica o ADN da levedura. Depois, à medida que esta fermenta e cresce, cria proteínas que mimetizam a estrutura da seda. A Bolt Threads transforma então o resultado em fibras. Na primavera passada, a empresa revelou o primeiro produto feito com seda de aranha não-natural, uma gravata no valor de 300 dólares, e para o MoMA colaborou com a designer britânica Stella McCartney num vestido (ver Tecnologia escreve futuro da moda).

«Embora a tecnologia tenha tido impacto em diversas áreas da nossa vida nas últimas décadas, o vestuário manteve-se relativamente inalterado», reconheceu Dan Widmaier, CEO da Bolt Threads, à Fast Company. «Os designers de moda têm-se apoiado nos mesmos têxteis há anos, por isso estão desejosos de usar os nossos novos materiais. Estamos muito otimistas sobre o poder da tecnologia para criar novas propriedades de performance e tornar a moda mais sustentável», admitiu.

Vestuário para as alterações climáticas

Quando o MoMA pediu a Kerby Jean-Raymond, fundador da marca Pyer Moss, para reinterpretar algo para a exposição, o designer imediatamente pensou na coleção Cosmos de Pierre Cardin – uma série de peças futuristas apresentadas nos anos 60. Embora as peças de Cardin antecipassem um futuro glamouroso, Jean-Raymond vê uma potencial distopia moldada pelas alterações climáticas. O seu fato unissexo Aquos – desenvolvido com a ajuda de Silvia Heisel e Camila Huey – foi pensado para esse ambiente.

«Queria falar das alterações climáticas de uma forma que não fosse um sermão – é evidente que está a acontecer», afirma o designer. «Queria realmente assustar as pessoas sobre como vai ser o futuro se não mudarmos a nossa forma de estar, por isso tinha de parecer roupa verdadeira», confessou.

Kerby Jean-Raymond imagina uma altura em que as pessoas estão constantemente ameaças por condições meteorológicas extremas, como a chuva e inundações. O Aquos inclui um fato completo em lã, respirável e impermeável, e um dispositivo flutuante feito a partir das câmaras de ar de pneus de bicicleta. Prestando homenagem aos vestidos de Pierre Cardin, o designer criou uma espécie de máscara em 3D para o dispositivo de flutuação que parece uma armadura. Jean-Raymond comparou a sua abordagem aos efeitos prejudiciais das alterações climáticas à forma como os construtores de veículos nos anos 70 responderam ao impacto mortal dos automóveis. «Quando as pessoas começaram a morrer em acidentes de viação, o governo não nos impediu de conduzir carros, introduziu os cintos de segurança», sublinhou. «Eu quis introduzir o cinto de segurança [da moda para as mudanças climáticas]. Não podemos parar [as alterações do clima], mas podemos controlá-las», resumiu.

Acessórios que crescem

Inspirado pela aterragem lunar em 1969, o designer Giancarlo Zanatta criou a Moon Boot (bota lunar) em 1971, que se inspirava nos fatos dos astronautas. Nascidas na era do plástico, as Moon Boots eram feitas de espuma de poliuretano e poliamida. Quando o MoMA convidou Liz Ciokajlo and Maurizio Montalti a criar algo para a exposição, os designers pensaram numa forma de reinterpretar este ícone do futuro para o nosso tempo e traduzir a forma como as viagens no espaço evoluíram.

Ciokajlo e Montalti foram influenciados pela habitual escassez de recursos no espaço e pelos impactos de introduzir uma nova matéria-prima num ambiente estranho, como Marte. Como tal, as suas Grown Mars Boots são feitas de micélio, um fungo tipo cogumelo, e crescem à medida que alguém as usa. Os designers imaginaram levar uma pequena quantidade de micélio numa viagem para Marte e, ao longo do tempo, usá-lo para “cultivar” objetos como sapatos. À medida que uma pessoa usa a bota, o suor dos pés permite que o micélio cresça – por isso, os sapatos nunca se degradam e nunca se transformam em resíduos.

A dupla criativa espera que este seja o primeiro passo para «debater como os nossos próprios corpos podem ser usados como fonte de matéria-prima para produzir artigos de moda no espaço e em Marte», escreveu Maurizio Montalti no seu website.

Customização em massa

A Unmade – uma startup britânica conhecida anteriormente como Knyttan – quer transformar os consumidores de moda em designers. Desenvolveu software e ferramentas que permitem que os indivíduos customizem designs a um preço inferior ao do vestuário por medida. Para o MoMA, a Unmade criou um programa que permite que as pessoas distorçam o padrão numa camisola clássica às riscas usando apenas um ecrã tátil. O programa cria então um ficheiro de design que uma máquina de impressão 3D de malha consegue produzir.