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Clima afeta produtividade

Os centros de produção globais no sudeste asiático poderão testemunhar quedas acentuadas da produtividade laboral ao longo dos próximos 30 anos, devido ao impacto do aumento das temperaturas e stress decorrente do calor extremo, revela um novo relatório.

Este novo relatório, divulgado no dia 28 de outubro, adverte que os investidores em países de risco extremo poderão enfrentar um aumento dos custos destinados à produção e cuidados de saúde dos trabalhadores, a par da eventual interrupção das suas cadeias de fornecimento.

O Índice de Stress Térmico sugere que em apenas uma geração, economias como Singapura, Malásia e Indonésia, poderão sofrer uma queda de até 25% da sua produtividade, face a valores atuais. O Camboja e as Filipinas esperam, também, reduções de 16% ao nível da produtividade do trabalho, enquanto a Tailândia e o Vietname antecipam uma diminuição de 12%, em 2045.

A Tailândia, o Camboja e o Vietname são os países do sudeste asiático mais expostos ao stress térmico, figurando em sétimo, décimo primeiro e décimo sétimo lugar, respetivamente, no Índice de Stress Térmico. O Camboja, em particular, é destacado por apresentar um dos aumentos de risco mais significativos.

A ocorrência de situações de desmaios massivos em fábricas é já uma preocupação na indústria de vestuário e calçado do Camboja, com até 300 trabalhadores a entrarem em colapso em simultâneo, devido a uma combinação de fatores, incluindo a desnutrição e stress por calor. Os incidentes receberam a atenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

No entanto, «sem a implementação de métodos de adaptação, as condições de stress térmico em locais de trabalho como estes, tenderão tornar-se mais prevalentes no âmbito das alterações climáticas», revelou a empresa de consultoria Verisk Maplecroft, autora da nova pesquisa.

O estudo, divulgado no âmbito do relatório “2016 Alterações Climáticas e Análise de Risco Ambiental”, recorreu às últimas projeções climáticas para calcular a diminuição da capacidade de trabalho de cada país, tendo por base o aumento da ocorrência de condições que estimulam o stress por calor e reduzem a capacidade de realização de atividades físicas pela força de trabalho.

Os resultados surgem no seguimento das previsões emitidas pelos cientistas do clima, que indicam que o ano de 2015 será o ano mais quente alguma vez assinalado. Nove dos dez anos mais quentes ocorreram no século XXI e a Verisk Maplecroft prevê que até 2045 quase metade da população mundial (47%) viverá em países classificados como de “risco extremo” no Índice de Stress Térmico .

Sudeste asiático mais vulnerável

O aumento da temperatura e humidade global, em consequência de alterações climáticas, poderá aumentar o número de dias de trabalho que excedem os níveis seguros de stresse térmico, podendo causar absentismo decorrente de tonturas, fadiga e náuseas, e até mesmo a morte em casos extremos.

As colheitas e o gado são, também, altamente suscetíveis ao stress térmico, conduzindo à escassez de alimentos, pobreza e migração – fatores que podem aumentar o risco de conflito e instabilidade. Os riscos são ampliados em países dependentes de manufatura, construção e agricultura.

A Verisk Maplecroft estima que o sudeste asiático poderá perder 16% da sua força de trabalho atual devido ao aumento do stress térmico, ao longo das próximas três décadas – quase o dobro do défice das duas regiões subsequentes mais afetadas, o Caribe e África Ocidental.

No entanto, o potencial impacto do stress térmico sobre os trabalhadores da região tem sido largamente ignorado pela modelagem financeira. Da mesma forma, os desafios inerentes ao stress térmico nas forças de trabalho nacionais destes países terão de ser adereçados de forma a que o crescimento económico projetado possa ser atingido. Nas próximas décadas, o PIB do sudeste asiático deverá aumentar 50%, fixando-se em 9 biliões de dólares, representando 13% do aumento previsto do PIB global.

A empresa de análise de risco considera que as organizações que optem por incorporar as ameaças climáticas em análises de risco, decisões de investimento e nas orientações de saúde estarão melhor preparadas para o ambiente de negócios futuro.

«A mudança climática irá conduzir os impactos do stress a níveis de calor elevados, com implicações significativas para as economias nacionais e saúde dos trabalhadores mais vulneráveis», explicou James Allan, diretor do segmento de meio ambiente da Verisk Maplecroft. «os governos e empresas devem identificar quais os ativos, sectores de bens e grupos estão em maior risco e que medidas de proteção devem ser postas em prática».

A pesquisa calculou a produtividade do trabalho, avaliando a forma como uma combinação de temperaturas e humidade elevadas podem limitar a capacidade do ser humano de realizar uma atividade física.

Os índices são baseados na métrica Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), que é calculada através de uma combinação de temperatura e humidade. Quando o WBGT é superior a 25ºC a capacidade do corpo humano de realizar atividades físicas, sem sofrer de stress devido ao calor, cai em cerca de 25%. À medida que o WBGT aumenta, essa capacidade diminui progressivamente, até atingir a temperatura de 32ºC, momento a partir do qual o stress induzido pelo calor irá ocorrer, em momentos de atividade extenuante.