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Cluster Têxtil aponta ao futuro

Talentos, formação e educação, investigação, desenvolvimento e inovação tecnológica, sustentabilidade e economia circular, transformação digital e competitividade e a promoção internacional são os pilares da atuação do Cluster Têxtil para ajudar a ITV a enfrentar o futuro.

Os cinco pilares foram apresentados no webinar Des(a)fiando o Futuro, que no dia 18 de novembro juntou os representantes do Grupo de Alto Nível do Cluster Têxtil: Tecnologia e Moda. Manuel Gonçalves, administrador da TMG e presidente deste grupo, Isabel Furtado, vice-presidente ATP e CEO do Grupo TMG, Clementina Freitas, CEO do Grupo Latino, Miguel Pedrosa Rodrigues, administrador da Pedrosa & Rodrigues, Paulo Melo, presidente do conselho de administração da Somelos, João Brandão, CEO da ERT e António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE revelaram os eixos estratégicos e algumas das iniciativas do cluster, um projeto enquadrado no CITEVE mas que, como salientou António Braz Costa, «não está cá dentro – o cluster está lá fora, o cluster são as empresas».

A estratégia deste cluster assenta em cinco eixos, que «foram posteriormente vertidos no pacto sectorial assinado pelo governo a 11 de setembro de 2019» e têm como objetivo «aumentar a competitividade do cluster e consequentemente aumentar as exportações no desenvolvimento económico do país», explicou Manuel Gonçalves, acrescentando que «a dinâmica implementada nos grupos de interesse especial foram absolutamente fundamentais no processo de reflexão para chegarmos aos eixos estratégicos».

António Braz Costa

Talentos, formação e educação; investigação, desenvolvimento e inovação tecnológica; sustentabilidade e economia circular; transformação digital; e competitividade e a promoção internacional são cinco os eixos delineados pelo Cluster Têxtil.

Atrair e reter talentos

O primeiro, acredita Manuel Gonçalves, «é talvez o mais importante, pois todos os demais dependem do talento e do conhecimento dos nossos colaboradores».

Neste âmbito, há dois desafios. «O primeiro é o desafio da escassez e depois é o desafio da qualificação, na medida em que temos que ser capazes de promover a atração de capital humano com base no sistema mas também temos que ser capazes de promover a evolução contínua e evolução significativa dessas competências por via da implementação de sistemas reais e eficazes e da captação e potencialização de talento dentro de cada uma das nossas empresas», indicou Miguel Pedrosa Rodrigues. «Não é suficiente ter algumas empresas que são autênticos Cristianos Ronaldos em termos da classificação dos colaboradores. O que é necessário é melhorar de uma forma sistémica e o mais transversal possível, elevando o nível médio da qualificação dos nossos trabalhadores todos em todas as empresas. seremos tão bons quanto mais alto for o nível médio das nossas empresas e dos nossos colaboradores», acrescentou.

Manuel Gonçalves

Para isso, o cluster pretende trabalhar no mapeamento das necessidades de recursos humanos, estabelecendo a tipificação de novos perfis profissionais, alinhados com a indústria 4.0, a sustentabilidade e a economia circular; atrair e sensibilizar os mais jovens para o sector; promover equipas intergeracionais para transmitir o know-how, atrair e integrar de doutorandos e criar condições de desenvolvimento dentro das empresas de novas competências.

Segundo João Brandão, CEO da ERT, «a ITV a par com as restantes indústrias tradicionais, incorpora cada vez mais tecnologia em toda a sua cadeia produtiva e de gestão. Este, de facto, é o fator catalisador para esse interesse dos jovens, mas por si só não chega. É importante haver um reforço das empresas na área de recrutamento desses talentos, pois a ITV, como as restantes indústrias mais transformadoras, sofrem uma concorrência bastante grande de todas as empresas tradicionalmente mais tecnológicas, seja a banca, os seguros, empresas de auditoria, consultoria, farmacêuticas, empresas puramente de base tecnológica».

Nesse sentido surgiu o projeto Pense Indústria i4.0, que, segundo o CEO da ERT, «é estratégico para a captação desses jovens e depois permite-nos, de uma forma geral, demonstrar as oportunidades de desenvolvimento pessoal, dando-lhe acesso a experiências motivadoras, proporcionando também uma imagem mais real do sector industrial e é uma forma também de podermos criar uma certa consciencialização industrial nesses mesmos jovens»

Miguel Pedrosa Rodrigues

Além de captar, João Brandão focou igualmente a necessidade de reter os novos talentos. «As novas gerações já não se movem só pela questão do salário – o salário não é um fator decisivo para se aceitar ou não um emprego. Hoje em dia, os jovens têm uma muito maior mobilidade nas funções, procuram uma flexibilidade horária, procuram novas formas de integração pessoal e profissional e é importante que as empresas consigam responder a esses propósitos», sublinhou.

Reforçar a inovação

O segundo eixo prevê o reforço da capacidade de investigação, desenvolvimento e inovação tecnológica. «Queremos ser um elemento, como cluster têxtil, agregador de empresas têxteis e não têxteis, universidades e centros tecnológicos para detetar as tendências e, em conjunto com as empresas, potenciar o desenvolvimento de tecnologias capazes de responder aos desafios», apresentou Manuel Gonçalves.

«É o eixo que tem como objetivo reforçar a capacidade de inovação nas empresas, criar melhores condições para incorporar conhecimento e para transformar esse mesmo conhecimento», resumiu Isabel Furtado. «Só assim conseguimos subir na cadeia de valor», acrescentou.

João Brandão

Neste âmbito, o cluster tem quatro áreas de atividade, incluindo uma dedicada ao desenvolvimento sustentável de novos materiais naturais, reciclados, recicláveis ou biodegradáveis e a processos de fabrico inovadores; outra a produtos técnicos para serem usados em sectores como a proteção e militar; uma terceira para têxteis técnicos com compósitos avançados; e, por último, um maior enfoque no design. «A área de inovação é uma área que nos vai fazer seguramente saltar para uma indústria mais eficiente, melhor, baseada no conhecimento, baseada no saber-fazer e na parte toda que tem a ver com diferenciação, mesmo com a moda, áreas de intervenção extremamente interessantes e desafiantes para a nossa indústria. Portanto, a inovação está, não só, nos produtos, mas também na nossa atitude», justificou Isabel Furtado.

Sustentabilidade desde a raiz

O terceiro eixo de atuação centra-se na sustentabilidade e na economia circular. Como referiu Isabel Furtado, «não há indústria do futuro sem ser sustentável» e essa sustentabilidade começa logo na conceção do produto, na seleção dos materiais, até ao fim de vida do produto. «Aqui pretende-se que os nossos produtos do têxtil sejam renováveis, sejam passíveis de reciclagem e possam ser incorporados de uma forma circular novamente na cadeia de valor, trazendo a circularidade para a indústria mas também com uma poupança económica», apontou. Para a vice-presidente da ATP, «no têxtil temos uma grande vantagem se calhar em relação à maioria das indústrias, é que nós usamos muitos produtos naturais. E o facto de usarmos produtos naturais também, de certa forma, nos torna não só mais fácil, mas atrativa uma indústria que possa reprocessar o vestuário depois dele ter sido utilizado».

Isabel Furtado

Importante é ainda «o controlo sobre o desenvolvimento e as técnicas que permitem a rastreabilidade do produto, a rotulagem, a certificação», acrescentou Clementina Freitas. «Se o público utilizador tiver conhecimento de todo o processo naturalmente também vai poder contribuir», lembrou a CEO da Latino.

Em termos de economia circular, o cluster identificou três eixos de atuação: desenvolvimento de metodologias para otimização e troca de recursos entre as indústrias dos diversos fatores de atividade, o mapeamento de fluxo de resíduos e dos subprodutos de maneira a promover a implementação de circuitos de otimização e valorização dos respetivos recursos.

«Outra das atividades que está também identificada são ações de demonstração, de modo a que seja analisa a viabilidade da valorização dos recursos, e a identificação de oportunidades intersectoriais de colaboração, porque nós estamos sozinhos no eixo da sustentabilidade», adiantou Clementina Freitas.

Indústria 4.0

A transformação digital assume-se como o quarto pilar da atividade do cluster, no que será o desafio de «criar, através da automatização de sistemas e tecnologias, redes que controlam a cadeia de valor e tornar os processos produtivos mais eficientes. Todo este processo será com certeza um processo de crescimento e evolução do sector, com o objetivo de em 2030 podermos falar de ecossistemas digitais com cadeias de valor flexíveis e claramente integradas com processos totalmente digitalizados, onde as interações de clientes e fornecedores são virtuais e transparentes e onde a recuperação e cooperação será o fator que dita o sucesso dos novos negócios», afirmou Manuel Gonçalves.

Para Paulo Melo, presidente do conselho executivo da Somelos, que lembrou João Vasconcelos como o «grande impulsionador da indústria 4.0», a digitalização «é um desafio muito grande porque hoje em dia quando montamos fábricas ou quando ajustamos aquelas que temos, nós é que temos que fazer a análise de todos estes procedimentos, temos que voltar quase um pouco à estaca zero. O redimensionar o nosso layout e estarmos bem preparados, análise dos procedimentos, integração entre os vários departamentos, é um facto fundamental para não perdermos aquilo que já foi falado: a tal agilidade e flexibilidade do serviço ao cliente, que é fundamental». A indústria 4.0 exige ainda «uma mudança de cultura e é por isso também que acompanhar a formação dessa transformação é fundamental». O tema assumiu maior relevância com a pandemia. «Conseguimos antecipar algumas dessas questões que tínhamos mais para médio/longo prazo», sublinhou Paulo Melo. «A forma de promoção, a forma de vender é cada vez mais digital, e isso é um desafio que as empresas têm em cima da mesa: temos que andar muito mais rápido do que pensávamos», assumiu.

Clementina Freitas

A digitalização reflete-se ainda na customização no private label, que era já uma realidade no B2B mas que agora está a ligar a fábrica ao consumidor, como abordou Miguel Pedrosa Rodrigues. «O que vem agora mudar é a customização controlada pelo consumidor, com input direto desse consumidor naquilo que a fábrica irá produzir e, portanto, de certa forma, estamos perante uma aproximação do consumidor à fábrica, em que o papel dos intermediários físicos desaparece, não só na ótica do buyer e do merchandising, mas também na ótica do designer e, portanto, formalmente o papel do intermediário físico neste processo tenderá a ser substituído por um modelo de intermediação digital», explicou o administrador da Pedrosa & Rodrigues.

Capitalizar lá fora

O último eixo «tem como objetivo aumentar a competitividade e a promoção internacional, aumentar as exportações em mercados maduros, capitalizando sobre as tendências de reshoring, aumentando a nossa quota de sourcing em Portugal e promovendo uma maior representatividade da oferta portuguesa nos mercados públicos nacionais e internacionais», resumiu Manuel Gonçalves.

Paulo Melo

Neste âmbito estão previstas missões de prospeção a mercados como Canadá, Coreia do Sul e Austrália, revelou Paulo Melo. «Há um segundo ponto que é a formação de acesso a mercados públicos e isso aí vem muito de promover junto dos membros do cluster oportunidades em processos de compra pública», desvendou. Um terceiro vetor prende-se com montras coletivas de criatividade, inovação e sustentabilidade e um quarto com missões de negócios, «missões mais cirúrgicas dirigida totalmente a clientes internacionais estratégicos em articulação também com as representações locais da Aicep e com as embaixadas», referiu Paulo Melo. A comunicação e o marketing terão igualmente um papel fundamental.