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Coletes amarelos mancham Natal francês

O impacto económico dos protestos gerados pelos coletes amarelos em França é cada vez mais evidente e vai além das perdas nas receitas. As especulações feitas no período pré-natalício de que as manifestações custariam aos retalhistas milhões de euros estão a tornar-se reais.

A Fnac Darty, gigante francesa de eletrodomésticos, admite que os protestos dos coletes amarelos franceses poderão afetar as suas receitas em cerca de 45 milhões de euros. O impacto foi causado pelo encerramento de algumas lojas e menor adesão aos espaços que permaneceram abertos durante os protestos. A empresa foi a primeira retalhista francesa a divulgar o impacto do movimento nas suas receitas.

As ruas francesas continuam a ser palco de indignação, ainda que em menor dimensão. No último mês, a FCD – Fédération du Commerce et de la Distribution estimou que os protestos poderiam custar aos retalhistas franceses, durante o período natalício, cerca de 2 mil milhões de euros.

Protestos afetam desfiles

Contudo, a perda de receitas não é o único impacto. A Christian Dior decidiu antecipar o desfile masculino de outono-inverno 2019/2020 em Paris para evitar os distúrbios. Os protestos ocorrem principalmente ao sábado e o desfile da Dior, planeado precisamente para 19 de janeiro, foi antecipado para sexta-feira, 18 de janeiro. A Dior foi uma das marcas cujas lojas foram vandalizadas pelos manifestantes no início de dezembro, estando por isso a par do possível impacto dos protestos.

Dior

Ao longo nas próximas semanas serão divulgados mais resultados que irão revelar o impacto real dos potestos. Os analistas do Deutsche Bank preveem que o conglomerado de luxo Richemont registe perdas nas receitas, devido precisamente aos protestos, quando apresentar os resultados do terceiro trimestre. «A empresa terá sofrido pelo facto de ter uma forte presença em França», afirmam.

Governo francês apoia retalho

Tal como a decisão da Dior ilustra, o impacto dos coletes amarelos é extenso. O governo francês reconheceu isso mesmo, anunciando algumas medidas de apoio para o sector, permitindo, por exemplo, que as lojas abrissem ao domingo durante o período natalício até ao ano novo ou estendendo alguns prazos de pagamento.

A administração central também pressionou instituições bancárias e seguradoras a fazerem o mesmo, para compensarem os retalhistas cujos espaços foram vandalizados ou foram de algum modo prejudicados. O governo está igualmente a lançar uma operação de charme para garantir aos turistas internacionais que a França é um país seguro e um espaço agradável para visitas e compras.

Os saldos podem não compensar

As medidas governamentais foram tomadas no início do período oficial de saldos em França, com a Secretária de Estado da Economia francesa, Agnès Pannier-Runacher, a inaugurar oficialmente o período nas Galeries Lafayette, incentivando os franceses a comprar. «Se queremos ajudar os nossos comerciantes, não devemos hesitar em consumir. Este é o momento de o fazer. Eles precisam», apelou.

Galeries Lafayette

O período de saldos poderia ser uma altura de recuperação de algumas das perdas ligadas aos protestos e de libertação de algum inventário em excesso, mas há alguns fatores que podem impedir que tal aconteça este ano. Os já mencionados protestos são um deles que, apesar de não terem a dimensão do período que antecedeu o Natal, ainda estão a ocorrer em espaços com forte presença comercial. Outro são os problemas financeiros que os franceses enfrentam atualmente e que motivaram precisamente os protestos.

A adesão aos saldos de inverno tem vindo a diminuir durante esta década. Recentemente, um inquérito revelou que 56% dos consumidores não se entusiasmam com os descontos, comparado com 41% em 2010. O menor interesse no período de saldos surge à medida que as mais importantes categorias têm vindo a vender menos. Em novembro, foi revelado que as vendas de vestuário infantil diminuíram 10%, a lingerie 7,5%, o vestuário feminino 5% e o vestuário masculino 3,8%. As vendas terão sido ainda mais baixas no último mês do ano. O Institut Français de la Mode estimou, no início de dezembro, que as vendas de têxteis e vestuário iriam diminuir 2,9% em 2018, fazendo deste um dos piores anos na última década. Por decifrar fica se o impacto dos protestos irá fazer com que estes números piorem.