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Coligação ambientalista declara guerra aos descartáveis

188 grupos ambientalistas de vários pontos do globo estão a incentivar governos, líderes empresariais, instituições financeiras e investidores a apoiar uma mudança radical que ponha fim à produção de produtos de uso único poluentes.

[©Freepik]

A coligação afirma que é preciso haver uma mudança coletiva na forma como os produtos são projetados e fabricados de modo a evitar o desperdício. Muitas das soluções já existem, mas o ritmo e a escala da mudança precisam de ser acelerados, de acordo com os grupos ambientalistas.

A convocatória surgiu na véspera da reunião de representantes do governo de 193 estados-membro na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que decorreu na semana passada e esteve subordinado ao tema “Strengthening Actions for Nature to Achieve the Sustainable Development Goals”. No passado dia 17 de fevereiro, os grupos ambientalistas publicaram um documento que destaca o enorme impacto que os produtos descartáveis estão a ter no meio ambiente, na vida selvagem, na saúde humana e também nas comunidades vulneráveis.

Os produtos de utilização única, desde embalagens a recipientes para alimentos, copos e talheres descartáveis, são um dos principais contribuintes para os dois biliões de toneladas de resíduos gerados anualmente. Segundo a coligação, este valor deverá crescer 70% até 2050.

«Estamos a esgotar os próprios sistemas de suporte à vida, que todos precisamos para sobreviver, simplesmente pela suposta conveniência dos produtos descartáveis», afirma Tamara Stark, diretora de campanhas da Canopy, uma das autoras do documento coletivo. «Acabar com os descartáveis ​​não vai apenas reduzir o desperdício, vai também ajudar a lidar com as mudanças climáticas, proteger as florestas e impedir que os microplásticos envenenem a vida marinha», aponta.

O documento de ação coletiva alerta para os impactos ambientais negativos que os produtos de uso único têm do início ao fim do seu ciclo de vida, tanto para a humanidade como para o planeta, que não tem condições para suportar este tipo de práticas.

«A utilização de plástico e papel para produtos descartáveis ​​causa danos ambientais significativos e duradouros que precisamos de resolver com urgência. Das 300 milhões de toneladas de plástico produzidas por ano, metade vai para produtos e aplicações descartáveis. O plástico é derivado de combustíveis fósseis e a respetiva produção contribui para as emissões de gases de efeito estufa», refere o documento divulgado pelo just-style.com.

«O ciclo de vida dos produtos de uso único com base em papel e derivados de árvores é igualmente devastador e muitas vezes subestimado. O carbono libertado no processo de extração da madeira contribui para as emissões de gases de efeito estufa e a remoção de florestas naturais elimina a capacidade destas florestas continuarem a mitigar as mudanças climáticas. Por ano, mil milhões de árvores são cortadas para fazer embalagens de papel, o que deverá aumentar 20% nos próximos cinco anos», estima o documento da coligação, que acredita que a maior parte dos produtos descartáveis, especialmente as embalagens, podem ser eliminados rapidamente e substituídos por opções circulares que promovam conceitos como a redução e a reutilização.

Agir para mudar

Para incentivar a mudança e pôr fim à produção de produtos de uso único poluentes, a coligação apela a todos os órgãos para redirecionarem os fundos de apoio públicos ou privados ao apoio de sistemas de produtos reutilizáveis, promovendo a circularidade e aumentando taxas de impostos nos produtos poluentes.

Mango [©Mango]
Garantir que o ciclo de vida dos produtos utilizados, desde a extração, produção até ao uso final, bem como as suas matérias-primas são fruto de etapas e medidas responsáveis e conscientes são algumas das recomendações da coligação, que apela ainda ao consumo responsável e à rejeição de produtos de utilização única que possuem uma maior pegada ambiental.

Outra das medidas recomendadas é a reparação de danos através do reconhecimento e aceitação da responsabilidade pelos malefícios causados com a produção deste tipo de produtos, especialmente, nas comunidades indígenas, que são mais afetadas pelas indústrias poluentes. Nesta perspetiva, restaurar as condições destas comunidades que foram impactadas por este tipo de produção é também uma das recomendações presentes para os órgãos considerados influentes.

A VF Corporation, proprietária das marcas The North Face, Timberland e Vans, anunciou que, até 2025, pretende eliminar todas as embalagens de plástico descartáveis, incluindo os sacos de compras. Em novembro último, a retalhista espanhola Mango comprometeu-se a eliminar o uso de 160 milhões de sacos plásticos anualmente na cadeia de aprovisionamento, enquanto a Lululemon prometeu reduzir em 50% a utilização de embalagens de plástico de uso único, um dos objetivos que faz parte de um total de 12 da primeira “Impact Agenda” da marca.