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Combate ao desperdício

A indústria da moda prospera com o lançamento constante de novidades, que traz como efeito colateral o desperdício de vestuário. A empresa alemã I:CO está, contudo, empenhada em combater este problema e tem já parcerias no terreno com algumas das principais marcas e retalhistas mundiais.

Só os americanos deitam ao lixo mais de 9,5 milhões de toneladas de vestuário e calçado todos os anos. Procurando combater esta tendência surge a I:CO, uma empresa empenhada em combater este problema. A I:CO estabeleceu uma parceria com diversas marcas, entre as quais a H&M, American Eagle, Levi’s, The North Face e Puma, que pretende suprimir a dependência de recursos naturais dessas entidades, substituindo-os por materiais reciclados no decorrer dos próximos cinco anos.

«A infraestrutura da I:CO fornece a base para a solução sustentável e económica do futuro – a economia circular», acredita Nicole Kösegi, diretora-geral da I:CO. «Num mundo ideal, os materiais serão capazes de fluir continuamente, o que significa que os materiais usados nos produtos, após o ciclo de vida normal, poderão ser utilizados repetidamente no fabrico de novos produtos», acrescenta.

A empresa foi fundada em 2009 para resolver o problema dos resíduos têxteis. Ao invés de direcionar as peças de vestuário para um aterro sanitário, a I:CO fornece uma alternativa, segundo a qual os consumidores podem doar itens indesejados aos retalhistas locais. As peças de vestuário são, então, depositadas numa unidade I:CO, na qual são entregues a uma equipa de triagem. Idealmente, as peças estarão em condições de ser utilizadas novamente – aquelas que cumprem esses padrões são revendidas para serem compradas e usadas por alguém. As restantes são organizadas tendo por base cerca de 400 critérios e enviadas para diferentes pontos, com base na sua qualidade. Os tecidos absorventes são colocados numa trituradora para serem convertidos em limpa para-brisas. Outros são puxados através de rolos de grandes dimensões, e materiais duros, como botões, são retirados antes dos tecidos serem prensados e são usados em peluches ou no isolamento de casas.

Um dos principais beneficiários da iniciativa da I:CO é a H&M, que lançou uma coleção própria confecionada a partir de itens recolhidos nas suas lojas. A coleção “Close the Loop” (fechar o ciclo) é uma das iniciativas adotadas pela retalhista sueca, que pretende contrariar os efeitos nocivos da sua atividade sobre o meio ambiente. As peças têm por base 20% de materiais reutilizáveis e a marca pretende alcançar os 100% num futuro próximo. Os tecidos reciclados não são, ainda, resistentes o suficiente para constituírem o único material de fabrico das peças, pelo que as empresas têm de misturar materiais recicláveis com algodão natural – um método que produz um produto indiscernível daqueles fabricados inteiramente com recurso a matérias-primas virgens.

A I:CO assegura que não existe qualquer perda de qualidade na utilização de materiais recicláveis. «Não existe nenhuma diferença em relação à aparência e toque dos produtos em loja que utilizam algodão reciclado e os que usam algodão virgem, mas diferem em relação à pegada ecológica. É muito mais ecológico usar algodão reciclado», sublinha Kösegi.

O programa da The North Face, denominado Clothes the Loop, encoraja os consumidores a doarem peças de vestuário, em qualquer estado de conservação, para que estas sejam recicladas. A marca implementou o programa em 10 lojas em 2013, antes de o aplicar a todas as suas lojas em 2015. A Levi’s também incentiva – ou suborna – os clientes a doarem roupas, presenteando-os com um voucher de dez dólares por doação. Por sua vez, a coleção InCycle da Puma foi concebida especificamente para ser biodegradável e totalmente reciclável. Os clientes podem ainda depositar as peças que já não usam num contentor disponível nas lojas da marca. A American Eagle também recolhe roupas e oferece um desconto de 20% aos clientes que fazem doações.

A sustentabilidade é uma tendência que terá vindo para ficar, em consequência da necessidade. «Se os custos das matérias-primas continuarem a subir, o material reciclado será uma alternativa economicamente relevante», aponta a diretora-geral da I:CO.

Tod Foulk, fundador da Semana da Moda de Portland, que é dedicada à apresentação de moda sustentável, é pragmático sobre o movimento sustentável. «Efetivamente, creio que as grandes empresas aderiram à iniciativa porque tiveram de o fazer», afirma. «As pessoas começam agora a perceber que o mundo tem recursos finitos e quanto mais tempo os conseguirmos manter, melhor. Não é uma moda passageira. É uma tendência com uma missão e na próxima década testemunharemos muito mais iniciativas no que à sustentabilidade diz respeito. Isto é apenas o princípio», acrescenta.

A ação da I:CO veio facilitar a integração das marcas neste emergente movimento ecológico. As lojas devem apenas recolher e, em seguida, enviar a roupa para uma das instalações de triagem da empresa alemã. A H&M já acumulou 20.000 toneladas de roupas destinadas à I:CO e, em parceria, poderão «mudar a forma como a moda é feita», refere a especialista de sustentabilidade de marca, Cecilia Brännsten. Um porta-voz da Levi’s partilha um sentimento semelhante: «escolhemos trabalhar com a I:CO, em parte, porque nos auxiliam no estabelecimento da infraestrutura necessária para produtos de ciclo fechado até 2020». De acordo com a I:CO, 95% das peças de vestuário podem ser recicladas, o que significa que o único entrave reside numa simples mudança de comportamento.