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Comércio de têxteis e vestuário em mutação

Afetados pela pandemia e pela evolução das estratégias de produção e sourcing das empresas, os padrões de comércio de têxteis e vestuário em 2020 incluem alguma continuidade mas também novas tendências, segundo as estatísticas da Organização Mundial do Comércio.

[©Pixabay/Markus Spiske]

O World Trade Statistical Review 2021, publicado no final de julho, mostra que o covid-19 afetou o comércio de têxteis e vestuário em volume, resultando num aumento significativo das exportações de têxteis e num declínio na procura de vestuário.

Impulsionadas por um aumento da produção de equipamentos de proteção individual, as exportações mundiais de têxteis subiram 16,1% em 2020, tendo atingido 353 mil milhões de dólares (cerca de 301,3 mil milhões de euros) em 2020.

Em comparação, afetadas pelas medidas de confinamento, agravamento das condições económicas e orçamentos mais apertados para consumo discricionário, as exportações de vestuário caíram cerca de 9% no ano passado, para 448 mil milhões de dólares, «a pior performance em décadas», realça Sheng Lu, professor associado de moda e estudos do vestuário na Universidade do Delaware, num artigo publicado no just-style.com.

Contudo, com a retoma das atividades económicas no segundo semestre de 2020, as exportações de vestuário rapidamente voltaram a subir, ficando em cerca de 95% dos níveis pré-covid. A incerteza, refere o professor, continua, alimentada pelo ressurgimento de novos casos este verão, pelo que a recuperação do comércio mundial de têxteis e vestuário «irá ser diferente das nossas experiências durante a crise financeira mundial de 2008. É a pandemia que “estabelece a agenda”».

Sourcing sem mudanças

A China, a União Europeia e a Índia mantiveram-se como os três principais exportadores de têxteis em 2020, representando, em conjunto, 65,8% das exportações mundiais deste tipo de produto, uma quota semelhante à registada no ano antes da pandemia, de 66,9%.

A China e o Vietname sentiram um forte aumento nas exportações de têxteis, de 28,9% e 10,7%, respetivamente, em comparação com 2019. O facto de terem uma cadeia de aprovisionamento completa e uma considerável capacidade produtiva permitiu que os dois países mudassem rapidamente da confeção de vestuário para a produção de equipamentos de proteção individual.

[©Pixabay/Andy Graf]
O Vietname, em particular, ultrapassou a Coreia do Sul e tornou-se, pela primeira vez na história, no sexto maior exportador de têxteis no ano passado. «A mudança também mostra que os esforços contínuos do Vietname para reforçar a capacidade de produção têxtil local e atualizar a indústria têxtil e vestuário está a compensar. Se mantiver o dinamismo, o Vietname vai provavelmente ultrapassar os EUA e tornar-se o quinto maior exportador de têxteis em 2021 ou 2022», antecipa Sheng Lu.

Ao nível do vestuário, a China, a União Europeia, o Vietname e os EUA continuaram a ser os maiores exportadores em 2020, com uma quota de 72,2%, ainda mais elevada que os 71,4% de 2019.

A China conseguiu mesmo aumentar a sua quota de mercado pela primeira vez desde 2015, representando 31,6% das exportações em 2020, em comparação com 30,7% em 2019.

Entre os fatores que podem explicar esta subida, o professor da Universidade do Delaware aponta a competitividade da cadeia de aprovisionamento chinesa durante a pandemia, correspondente aos desejos de marcas e retalhistas, assim como a sua integração vertical. «Ao contrário de muitos dos seus concorrentes na Ásia, as fábricas de vestuário na China ficaram menos vulneráveis a interrupções de envios durante a pandemia graças à opção de aprovisionar localmente matérias-primas têxteis», salienta Sheng Lu. O país beneficiou ainda de períodos de confinamento mais curtos que outros concorrentes, como o Bangladesh.

No entanto, as empresas de moda não recuaram na intenção de, a longo prazo, reduzirem a sua exposição à China para o aprovisionamento de vestuário. «Fatores não económicos, sobretudo as preocupações com trabalho forçado na região de Xinjiang, levaram mais marcas e retalhistas de moda ocidentais a desenvolveram capacidades de sourcing de vestuário além da China», indica o professor, que ressalva, todavia, que nenhum país conseguiu individualmente posicionar-se como “a próxima China” devido a limites de capacidade.

UE importa menos

Tendo em conta o poder de compra dos consumidores e o tamanho da população, a União Europeia, os EUA e o Japão continuaram a ser os três principais importadores de vestuário em 2020, uma tendência estável que dura há décadas.

Embora estes três mercados tenham tido, em conjunto, uma quota de 56,2% das importações mundiais de vestuário em 2020, essa quota foi a mais baixa dos últimos 10 anos – em 2019 foi 58,1%, em 2018 foi 61,5% e, em 2005, era de 84%. No caso da UE, as importações de vestuário baixaram 6,9% em 2020 em comparação com o ano anterior.

«Por detrás dos números dos padrões de comércio mundial de têxteis e vestuário no Statistical Review 2021 não está o facto dos consumidores na UE, nos EUA e no Japão terem necessariamente comprado menos vestuário ao longo dos anos. Em vez disso, várias economias emergentes tornaram-se mercados de consumo de vestuário em rápido crescimento com uma forte procura por importações», sublinha Sheng Lu, que cita o caso da China, que aumentou as importações de vestuário em 6,5% em 2020 face a 2019. «À medida que o poder de compra dos consumidores nestas economias emergentes populosas continua a aumentar, podemos esperar que estes países tenham um papel muito mais significativo a impulsionar o crescimento da produção e comércio de vestuário no mundo pós-covid», conclui.