Início Notícias Mercados

Comércio internacional em mutação

As exportações mundiais de têxteis e vestuário regressaram ao crescimento em 2017 pela primeira vez em dois anos, com as tendências mais notórias a incluírem um novo recorde no envio de têxteis chineses e a ascensão do Vietname como um dos principais exportadores.

As mudanças estão, de acordo com Sheng Lu, professor associado no Departamento de Estudos da Moda e Vestuário da Universidade do Delaware, nos EUA, a ser provocadas por uma alteração dos padrões na produção mundial de vestuário.

De acordo com os números mais recentes publicados pela Organização Mundial do Comércio (OMC) no relatório World Trade Statistical Review 2018, em valor, as exportações mundiais de têxteis e de vestuário atingiram 296,1 mil milhões de dólares (cerca de 251,6 mil milhões de euros) e 454,5 mil milhões de dólares, respetivamente, em 2017, representando aumentos de 4,2% e 2,8% em comparação com o ano anterior. Esta é a primeira vez desde 2015 que o valor das exportações mundiais de têxteis e vestuário registam crescimento.

Mas os têxteis e o vestuário não estão sozinhos. Impulsionado por uma crescente procura por importações, o atual valor em dólares das exportações mundiais de mercadorias também subiu 4,7% em 2017 – o crescimento mais robusto em seis anos, para atingir 17,43 biliões de dólares. O rácio de crescimento do comércio para o crescimento do PIB finalmente regressou à sua média histórica de 1,5, em comparação com o rácio de 1,0 que se registou nos anos após a crise financeira de 2008.

Por outro lado, refletindo uma estrutura de produto mais diversificada do comércio, os têxteis e vestuário representaram no ano passado cerca de 4% do comércio mundial, uma diminuição face aos 5% de 2016.

Os líderes das exportações

A China, a União Europeia e a Índia mantiveram-se como os três principais exportadores de têxteis em 2017. Em conjunto, representaram 66,3% das exportações mundiais de têxteis, em comparação com 65,9% em 2016. Tiveram ainda um crescimento acima da média em 2017 – +5% para a China, +5,8% para a UE28 e 5,9% para a Índia.

Os EUA permaneceram como o quarto maior exportador têxtil, representando 4,6% do total, o mesmo que no ano anterior.

Já o Vietname destacou-se por, pelo segundo ano consecutivo, ser o 10.º maior exportador têxtil, com um crescimento de 17,7% face ao ano anterior, para 7,4 mil milhões de dólares. Se mantiver este dinamismo, o Vietname deverá ultrapassar o Paquistão e Hong Kong e tornar-se o oitavo maior exportador já em 2018 ou 2019.

No que diz respeito ao vestuário, a China, a União Europeia, o Bangladesh e o Vietname foram os quatro maiores exportadores em 2017, representando em conjunto uma quota de mercado de 75,8%. Este valor subiu face ao ano anterior (74,3%) e representa um aumento substancial em comparação com 2007, altura em que a quota era de 68,3%. As exportações de vestuário dos membros da UE aumentaram a um ritmo particularmente elevado no ano passado, com um crescimento de 10,7% em comparação com a média mundial de 2,8%. As exportações do Vietname e do Bangladesh também conseguiram um aumento de 9,3% e 2,3%, respetivamente.

Continuando a tendência sentida nos últimos anos, a China está a exportar menos vestuário e mais têxteis para o mundo. A quota do chamado Império do Meio no mercado mundial de vestuário caiu para um valor baixo recorde de 34,9%, em comparação com o pico de 38,8% registado em 2014, enquanto nos têxteis atingiu um novo recorde de 37,1%.

Segundo a análise do just-style.com, «é importante reconhecer que a China tem tido um papel cada vez mais importante como fornecedor de têxteis para muitos países exportadores de vestuário na Ásia. Em valor, 47% das importações têxteis do Bangladesh vieram da China em 2017, em comparação com 39% em 2005. Tendências semelhantes estão a ser registadas no Camboja (de 30%, em 2005, para 65%, em 2017), no Vietname (de 23% para 50%), no Paquistão (de 32% para 71%), na Malásia (de 25% para 54%), na Indonésia (de 28% para 46%), nas Filipinas (de 19% para 41%) e no Sri Lanka (de 15% para 39%).

UE no 1.º lugar dos importadores

Em valor, a União Europeia foi a maior importadora de têxteis em 2017, seguida dos EUA e da China – em conjunto, representaram 37,7% do total mundial. Embora esta quota de mercado esteja mais ou menos estabilizada face ao ano anterior, é bastante mais baixa do que os quase 50% que representavam no início dos anos 2000.

De acordo com o just-style.com, «a crescente diversificação das importações têxteis está muito ligada à mudança de padrões da produção mundial de vestuário. Na última década, a produção de vestuário moveu-se dos países desenvolvidos para os países em vias de desenvolvimento. Enquanto isso, os países mais desenvolvidos apoiaram-se fortemente na importação de têxteis devido à falta de capacidade de produção local, o que explica o motivo pelo qual a procura nestes países exportadores de vestuário tem crescido particularmente rápido».

Por outro lado, adianta o just-style.com, o forte poder de compra dos consumidores (medido em PIB per capita) e o tamanho da população significa que a UE, os EUA e o Japão continuaram no top três dos importadores de vestuário no ano passado, importando, em conjunto, 62,3% do vestuário mundial, uma ligeira descida em comparação com os 62,9% do ano passado.

A China, contudo, está a tornar-se rapidamente uma das maiores importadoras de vestuário. Em 2017, as importações do país totalizaram 7,2 mil milhões de dólares, um aumento de 11,4% em comparação com o ano anterior. Entre 2010 e 2017, as importações de vestuário da China registaram um crescimento anual próximo dos 17%, em comparação com apenas 1,09% no tradicional top três.