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Comércio mundial cai em 2019 e 2020

O comércio mundial de bens baixou 3% em valor no ano passado, uma tendência de queda que transitou para o primeiro trimestre de 2020 e se refletiu nas exportações, que, no total, caíram 9% nos primeiros três meses. A queda foi ainda mais acentuada nos envios de vestuário, que sentiram uma retração de 12% entre janeiro e março.

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Os números da Organização Mundial de Comércio (OMC), publicados na mais recente edição da World Trade Statistic Review mostram que, em 2019, o comércio mundial de bens – que é medido como uma média de exportações e importações – registou uma redução de 0,1% em volume, que é justificada pelas «tensões políticas e a medidas protecionistas», aponta na introdução Roberto Azevêdo, que à data da publicação do estudo, em agosto, era diretor-geral da OMC.

Em termos de valor, a queda ascendeu a 3%, em comparação com um aumento de 10,2% em 2018. Entre os países menos desenvolvidos, o comércio caiu 2% no ano passado.

Os EUA foram líderes no comércio mundial de bens e serviços em 2019, seguidos da China e da Alemanha. Portugal surge na 42.ª posição.

Têxteis e vestuário mais afetados

O abrandamento económico, juntamente com uma procura mais reduzida, afetou a produção de têxteis e vestuário, cujas exportações estagnaram em 2019, indica o estudo.

O principal exportador de têxteis foi a China, que aumentou as vendas ao exterior em 1%, para 120 mil milhões de dólares (cerca de 101 mil milhões de euros), o que representa uma quota de mercado de 39,2%.

Seguiu-se a União Europeia, com um valor de 66 mil milhões de dólares (menos 6% do que em 2018) e uma quota mundial de 21,7%, e a Índia, com 17 mil milhões de dólares (-5% do que no ano anterior) e uma quota de 5,6%.

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Já ao nível das importações, a União Europeia foi quem mais importou têxteis (67 mil milhões de dólares, menos 5% do que em 2018), seguida dos EUA (31 mil milhões de dólares, menos 2%) e do Vietname (16 mil milhões de dólares, mais 1% que em 2018).

No vestuário, a China continuou a ser a principal exportadora, com um valor de 152 mil milhões de dólares, mas registou uma queda de 4% em comparação com 2018. O país tem uma quota de mercado de 30,8%. Já a União Europeia, o segundo principal exportador, manteve a quota de 27,6%, com um valor de 136 mil milhões de dólares. De referir, contudo, que a maioria destas exportações são intra-UE, com as exportações extra-UE a representarem apenas 43 mil milhões de dólares, ainda assim mais 2%, com uma quota de 8,8% do comércio mundial.

O Bangladesh assumiu-se como o terceiro principal exportador de vestuário em 2019, com uma quota de 6,8%, representando 34 mil milhões de dólares (mais 2% do que no ano anterior). O Vietname e a Índia foram, respetivamente, o quarto e quinto maiores exportadores, com uma quota de mercado de 6,2% e 3,5%, respetivamente.

Em termos de importação, a UE foi o principal mercado (180 mil milhões de dólares, sendo que destes 85 mil milhões dizem respeito a importações dentro da UE), seguido dos EUA (95 mil milhões de dólares), Japão (30 mil milhões de dólares), Reino Unido (26 mil milhões de dólares) e Hong Kong (11 mil milhões de dólares, dos quais 10 mil milhões de dólares foram importados para exportação).

2020 mantém queda

No primeiro trimestre de 2020, contudo, os dados preliminares apontam para uma contração de 9% no comércio de bens manufaturados, com as exportações de vestuário a sofrerem uma descida de 12%.

Os números revelam ainda que a procura mundial por vestuário diminuiu 37% em abril deste ano em comparação com abril de 2019. As encomendas de vestuário para exportação foram canceladas, afetando severamente os fornecedores de serviços de confeção. No Bangladesh, onde o vestuário representa 33% do total de exportações, os cancelamentos representaram uma perda de 3,18 mil milhões de dólares em abril, com as exportações a baixarem 81% em comparação com o mesmo mês do ano passado.

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«A pandemia de Covid-19 deu origem à queda económica mais profunda da nossa vida», sublinha Roberto Azevêdo. «A produção caiu e a perda de postos de trabalho está a aumentar. O comércio foi seriamente interrompido por choques na oferta e na procura. Um desafio fulcral para os governantes será criar as fundações para uma recuperação económica forte, sustentável e inclusiva, à medida que a crise de saúde recua. Para tomar as decisões certas sobre como guiar a economia mundial para a recuperação, vão necessitar de dados fiáveis», acredita. Por isso, «a OMC tem o papel crítico de compilar e analisar os dados do comércio». Os dados disponíveis no relatório «também refletem como as mudanças nas preferências dos consumidores nos últimos tempos influenciaram os padrões mundiais de comércio, com os consumidores a estarem cada vez mais interessados em reduzir a utilização e o desperdício de produtos que têm um impacto nefasto para o ambiente, como os plásticos», resume o agora ex-diretor-geral da OMC.