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Comércio mundial desaponta em 2016

O comércio mundial vai crescer abaixo do esperado em 2016, aumentando apenas 1,7%, na sequência do crescimento inferior ao expectável nas economias em desenvolvimento como a China e o Brasil, mas também de resultados menos positivos nas economias desenvolvidas. Para 2017, as previsões foram também revistas.

As estimativas, revistas em baixa pela Organização Mundial do Comércio (OMC), revelam o menor ritmo de crescimento da produção e comércio desde a crise financeira de 2009. Com uma expansão de apenas 1,7%, o crescimento do comércio mundial fica bem abaixo das previsões de 2,8% publicadas em abril. Um resultado que obrigou também à revisão das previsões para 2017, que apontam agora para um aumento do comércio entre 1,8% e 3,1%, em comparação com a previsão anterior de 3,6%.

«O abrandamento dramático do crescimento do comércio é sério e deve servir como uma chamada de atenção. É particularmente preocupante no contexto do crescente sentimento antiglobalização. Temos de ter a certeza que isso não se traduz para políticas mal informadas que podem tornar a situação muito pior, não apenas da perspetiva do comércio mas também de criação de emprego e de desenvolvimento e crescimento económico, que estão ligadas a um sistema de comércio aberto», afirma, em comunicado, Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC.

Azevêdo acrescenta ainda que «embora os benefícios do comércio sejam evidentes, é também claro que têm de ser mais partilhados. Devíamos tentar construir um sistema de comércio mais inclusivo que fosse mais além para apoiar os países mais pobres a fazerem parte e beneficiar, assim como empresários, pequenas empresas e grupos marginalizados em todas as economias». Para o diretor-geral da OMC, «este é o momento de prestar atenção às lições da história e voltar a empenharmo-nos à abertura no comércio, que pode ajudar a estimular o crescimento económico».

A OMC afirma que os números mais recentes são o desenvolvimento desapontante e sublinha o recente enfraquecimento na relação entre o comércio e o crescimento do PIB. A longo prazo, o comércio aumentou 1,5 vezes mais rápido do que o PIB. Nos últimos anos, contudo, o rácio baixou para 1:1, ambos abaixo do pico dos anos 90 e da média a longo prazo. Se as previsões se confirmarem, 2016 vai ser a primeira vez em 15 anos que o rácio entre o crescimento do comércio e o PIB mundial fica abaixo de 1:1.

Na análise aos dois primeiros trimestres, a OMC refere que, no geral, as importações mundiais estagnaram na primeira metade de 2016, resultado de uma procura débil tanto nas economias desenvolvidas como em desenvolvimento. Para o ano até à data, o comércio mundial tem-se mantido essencialmente estagnado, com a média de exportações e importações no primeiro e segundo trimestres a cair 0,3% em comparação com o ano passado.

Esta estagnação, refere a OMC, disfarça grandes mudanças ao nível regional, a mais visível das quais é o forte declínio nos últimos dois anos das importações de regiões que exportam recursos, impulsionado pela queda dos preços das commodities e declínio no volume de negócios na exportação. A América do Sul e outras regiões – incluindo a África, o Médio Oriente e a Commonwealth de Estados Independentes – conseguiram travar os declínios no segundo trimestre, enquanto as importações da América do Norte e da Europa caíram no mais recente trimestre. Já as importações asiáticas baixaram 3,4% no primeiro trimestre, num cenário de preocupação com o abrandamento do crescimento na China, antes de retomarem o crescimento de 1,3% no segundo trimestre, à medida que a inquietação foi desaparecendo. O declínio de 3,3% nas exportações asiáticas no primeiro trimestre espelharam a queda na Ásia do lado das importações, mas isso foi revertido quase na totalidade pelo aumento de 3,2% nas exportações no segundo trimestre.

Em antevisão ao segundo semestre, a OMC afirma que há indicadores de que o comércio pode recuperar, mas avisa que o ritmo de expansão deverá manter-se inalterado. Embora o tráfego nos portos de contentores tenha aumentado, as encomendas de exportação dos EUA tenham subido e os fluxos comerciais nominais em dólares estejam estabilizados, há ainda vários riscos.

A OMC aponta para várias incertezas para o resto deste ano e para 2017, incluindo a volatilidade financeira resultante de mudanças na política monetária em países desenvolvidos, a possibilidade de um aumento da retórica anticomercial, que poderá refletir-se cada vez mais na política comercial, e os possíveis efeitos do voto no Brexit no Reino Unido, que aumentou a incerteza sobre os futuros acordos comerciais na Europa, uma região onde o crescimento do comércio tem sido relativamente forte.

A análise da OMC revela ainda que as exportações dos países desenvolvidos deverão ultrapassar as das economias em desenvolvimento este ano, com um crescimento de 2,1% em comparação com 1,2%. Do lado das importações, os países em desenvolvimento deverão registar um crescimento lento de 0,4%, em comparação com 2,6% para os países desenvolvidos.

O crescimento das exportações tem baixado na maior parte das regiões, com as revisões mais fortes a serem aplicadas à Ásia (0,3% em comparação com 3,4% em abril) e à América do Norte (0,7% em comparação com 3,1%). Entretanto, o crescimento das exportações na América do Sul deverá ser mais forte do que o anteriormente previsto (4,4% em comparação com 1,9%), graças a taxas de câmbio favoráveis.

Para 2017, as estimativas de crescimento das exportações variam de 1,7% a 2,9% para os países desenvolvidos e de 1,9% a 3,4% para as economias em desenvolvimento. Do lado das importações, os países desenvolvidos podem registar um crescimento do comércio entre 1,7% e 2,9%, enquanto os países em desenvolvimento deverão expandir-se entre 1,8% e 3,1%.