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Como o digital está a mudar o sourcing

Muitas vezes associado ao consumidor final e às chamadas skins para jogos, o conceito de moda virtual está a ter um forte impacto na produção e no aprovisionamento, com a tecnologia 3D a mudar o desenvolvimento do produto e a forma como as empresas produtoras se relacionam com marcas e retalhistas.

[©UNIFi3D]

Uma coleção de ténis e amuletos digitais vendidos por milhões como tokens não fungíveis ou NFTs, como são conhecidos, as colaborações da Valentino, Louis Vuitton e Gucci com os jogos Animal Crossing, League of Legens e Sims, ou o desfile da coleção de outono 2021 da Balenciaga, que se transformou num jogo de vídeo, são exemplos de moda virtual, mas o conceito está a mudar também o processo de design, onde substituir as amostras físicas por modelos virtuais pode significar reduzir o desperdício, os tempos e o uso de mão de obra.

O tema, revela o Sourcing Journal, foi debatido na Cimeira de Sourcing de Hong Kong, que teve lugar no passado dia 13 de maio, e que contou com representantes da UNIFi3D, TAL Apparel, High Fashion International e Cotton Incorporated.

A crescente importância dos materiais digitais na indústria têxtil e de moda levou a Cotton Incorporated, uma organização sem fins lucrativos dedicada à investigação e informação para os produtores de algodão, a integrar tecnologia 3D nos seus recursos atuais.

«Depois de um produto ser desenvolvido em 3D, esse mesmo ativo em 3D pode ser usado para o planeamento interno mostrar aos compradores, para criar imagens de marketing nas redes sociais e depois carregado num website para ser visto em 3D», explicou Katherine Absher, diretora de moda e design digital da Cotton Incorporated.

Além da cadeia de aprovisionamento, acrescentou, os ativos digitais podem criar novas experiências digitais para os consumidores, que podem configurar e customizar produtos dessa forma, interagir com os mesmos em realidade aumentada e visualizá-los no seu próprio ambiente.

«Estes modelos 3D podem ajudar os consumidores a perceber melhor os produtos e as empresas que usam 3D no marketing estão a sentir um maior envolvimento online dos seus clientes e isso traduz-se num aumento das conversões e numa redução das devoluções», salientou Katherine Absher.

Pandemia acelera 3D

A TAL Apparel, uma produtora de vestuário sediada em Hong Kong que tem 10 unidades fabris em quatro países, cria seis tipos de produtos, nomeadamente camisas, com uma capacidade total de cerca de 15 milhões de peças. Ambrish Jain, a diretora de clientes da empresa, afirmou que a TAL Apparel está a investir em tecnologia de amostras virtuais «há já algum tempo», mas que só nos últimos anos os clientes começaram a pedir este serviço.

«A capacidade de prototipagem 3D aumentou significativamente, várias vezes em comparação com o que era e hoje há muito poucas razões para os clientes não a usarem, exceto se o seu modelo de negócio seja um em que precisam das amostras físicas para vender, sobretudo para o canal de vendas por grosso», assegurou a diretora de clientes da TAL Apparel.

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Mas para os consumidores particulares, comprar virtualmente já não é novo. «Não estão a tocar nem a sentir o produto, estão a comprar com base numa imagem digital, que pode ser a fotografia de um produto real ou uma renderização de um 3D», indicou Ambrish Jain.

O interesse na prototipagem 3D aumentou durante a pandemia. Na TAL Apparel, o número de amostras virtuais realizadas por pedido subiu para quase 2.500, um aumento de quase 175% em comparação com o ano anterior.

Well Lam, diretor-geral para a China da High Fashion International, destacou que a pandemia acelerou a procura por tecnologia de virtualização em várias frentes. Por um lado, as restrições de viagens limitaram as oportunidades para encontrar os compradores cara a cara. Do lado da procura, por outro lado, os consumidores preocuparam-se mais do que nunca com o bem-estar mundial e a sustentabilidade durante a pandemia, referiu.

Desenvolvimentos mais rápidos

Na High Fashion International, usar tecnologia 3D permite à empresa mostrar aos clientes o caimento e a textura dos materiais, assim como oferecer recomendações de estilo. Se uma empresa quer ver como um material fica nos seus designs, pode simplesmente fazer o download dos ficheiros digitais e imediatamente transpô-los para o seu próprio software de design 3D.

«Esta é a parte mais interessante, porque realmente poupa muito tempo, muito esforço, muitas amostras [a serem enviadas] e podemos ver imediatamente os resultados do tecido no design», elucidou Well Lam.

A LFX, uma spin-off da Li & Fung, lançou recentemente o seu Centro de Excelência de Desenvolvimento de Produto Digital como uma empresa de serviços 3D. Batizada UNIFi3D, trabalha agora com mais de 100 marcas, de acordo com a diretora de serviços, Idy Lee.

[©UNIFi3D]
«Queremos empoderar a indústria de moda para promover ativamente o consumo sustentável e a nossa missão é ajudar a acelerar a transição do retalho de moda criando e vendendo digitalmente produtos a grande escala», sustentou Idy Lee.

A UNIFi3D ajuda os clientes ao longo do ciclo de criação e comercialização digital de produto, desde a organização de workshops de formação à ajuda a criar bens passíveis de serem produzidos e comercializados, esclareceu Lee.

«Os nossos principais objetivos são ajudar a acelerar a adoção, fazer a ponte para todas as faltas de capacidades técnicas que existam, para otimizar os fluxos digitais e impulsionar a agilidade para que [os clientes] sejam capazes de repetir à escala com todos os produtos digitalmente», admitiu. «Quando aceleramos a chegada ao mercado, estamos a ajudar a eliminar muitos eventos físicos analógicos na fase de desenvolvimento de produto», reconheceu a diretora de serviços da UNIFi3D.