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Como surgiu a nova polémica da Zara?

O que terá motivado a medida desesperada dos trabalhadores turcos na cadeia de aprovisionamento da Zara, que decidiram deixar mensagens nas peças de roupa vendidas numa loja da retalhista em Istambul?

Na semana passada, a Associated Press revelou que os clientes de uma loja Zara em Istambul encontraram mensagens de desespero nos artigos das prateleiras, alegadamente deixadas por trabalhadores não pagos pelo seu trabalho na fábrica Bravo Tekstil, um dos muitos fornecedores da retalhista espanhola.

Entretanto, já foi avançada mais informação sobre a breve, mas polémica história contida nas mensagens.

Um porta-voz do grupo Inditex esclareceu, numa nota à Fast Company, que a empresa se aprovisionava na turca Bravo Tekstil, juntamente com outras marcas de moda rápida europeias, como a Mango e a Next.

Cerca de 155 pessoas trabalhavam na unidade fabril que, em julho de 2016, fechou portas devido «ao desaparecimento fraudulento do proprietário». Esse proprietário, explicou a Inditex, desapareceu com todo o dinheiro que as empresas de moda haviam pago e sem pagar aos trabalhadores.

De acordo com o mesmo porta-voz «a Inditex cumpriu todas as suas obrigações contratuais com a Bravo Tekstil», mas o cerne desta questão não é se a Inditex cumpriu ou não as obrigações contratuais, mas sim se respeitou o seu compromisso social com os trabalhadores.

Ao ter estabelecido relações comerciais com um empresário alegadamente antiético, em última análise, a Inditex acabou por vender artigos nas prateleiras da Zara que foram feitos recorrendo a trabalho não remunerado.

O grupo do empresário Amancio Ortega é o maior retalhista de moda do mundo em vendas, com 7.292 lojas à volta do globo. Em 2016, a Inditex registou vendas na ordem dos 23,3 mil milhões de euros e arrecadou 5 mil milhões de euros em lucros.

No relatório de 2016, pode ler-se que «a Inditex se compromete a desempenhar um papel consciente na promoção dos direitos humanos, trabalhando proativamente nessa área. O grupo compromete-se também a evitar ou amenizar as consequências negativas».

O porta-voz da Inditex salientou que a empresa espanhola, juntamente com Mango e a Next, estava a criar um fundo para ajudar os trabalhadores lesados. A IndustriALL, sindicato global de trabalhadores que representa 50 milhões de pessoas em 140 países, também está envolvida na resolução deste problema, sendo que o fundo prevê a cobertura dos salários não pagos, férias e indemnizações.

A petição

No entanto, passou mais de um ano desde que a fábrica encerrou e o fundo ainda não chegou aos trabalhadores da Bravo Tekstil – que decidiram então criar uma petição na plataforma Change.org.

Os representantes sindicais dos trabalhadores estão também em negociações com a Inditex, Mango e Next, tentando reaver o dinheiro que lhes é devido. Mas as marcas de moda têm vindo a arrastar as negociações, fazendo contrapropostas aos valores que os trabalhadores estão a exigir.

Eis o que se pode ler na petição dos trabalhadores já assinada por mais de 20 mil pessoas:

«Durante 12 meses, esperámos pela conclusão das negociações com paciência e esperança. Para evitar quaisquer interrupções nas negociações, aguentámos em silêncio. No entanto, depois de um ano, as marcas declararam que só pagarão pouco mais de um quarto da nossa reivindicação. Por outras palavras, as marcas reconheceram a sua responsabilidade, mas consideraram que não merecíamos mais».

A verdade é que, ainda que os trabalhadores considerem que o proprietário da Bravo Tekstil é o principal responsável pelo problema, a Inditex, a Mango e a Next têm o poder e a capacidade de resolvê-lo.