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Condições de trabalho ditam competitividade

Os analistas do sector estabeleceram recentemente um elo de ligação entre as melhorias das condições de trabalho na indústria de vestuário e um incremento da competitividade nas unidades de produção. No entanto, as práticas de sourcing dos players globais continuam a ser um dos maiores entraves ao progresso.

Os resultados foram revelados por uma avaliação independente ao programa Better Work – uma iniciativa conjunta da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da International Finance Corporation –, que mostrou ganhos significativos na qualidade de vida dos trabalhadores das fábricas participantes, bem como como um aumento da produtividade e da rentabilidade nas unidades de produção. A avaliação “Progress and Potential: How Better Work is Improving Garment Workers” desenvolvida pela Tufts University, EUA, teve por base as respostas de quase 15 mil trabalhadores de vestuário e de 2.000 responsáveis de fábricas no Haiti, Indonésia, Jordânia, Nicarágua e Vietname.

De acordo com a pesquisa, o programa Better Work afasta as fábricas de práticas que promovam horas extraordinárias, salários baixos, ameaças de demissão ou abuso nos contratos de estágio. Os trabalhadores conheceram um aumento no seu salário semanal e estão cada vez menos preocupados com horas extraordinárias e salários indignos.

A pesquisa da Tufts University encontrou ainda progressos na redução da disparidade salarial entre homens e mulheres, sobretudo nas fábricas de vestuário integradas no programa Better Work no Haiti, Nicarágua e Vietname. O Better Work ajudou também a reduzir práticas coercitivas de trabalho, o assédio e o abuso verbal.

Na Jordânia, os relatos de assédio sexual caíram 18% e o número de trabalhadores com medo no local de trabalho diminuiu de forma acentuada. Os investigadores reconheceram ainda que o Supervisory Skills Training (SST) do Better Work para supervisores do sexo feminino é «um atalho para ganhos substanciais».

A análise mostrou que as linhas de produção controladas por supervisoras com a formação Supervisory Skills aumentaram a produtividade da fábrica em 22%, quando comparadas às linhas monitorizadas por supervisoras que ainda não tinham recebido tal formação. A pesquisa estabeleceu depois uma ligação direta entre melhores condições de trabalho e empresas de maior lucro.

Em todas as fábricas rastreadas no Vietname, depois de quatro anos de participação no Better Work, a rentabilidade média aumentou 25%. Outros benefícios para as empresas que progridem em questões-chave como a remuneração e o horário de trabalho incluem um aumento no volume das encomendas e menos auditorias de conformidade social.

«A evidência de um bom resultado – melhoriad as condições de trabalho e aumento das margens de lucro – tem sido, até hoje, residual. A avaliação da Tufts University deu passos significativos no estabelecimento de evidências dessa relação», explica a professora Drusilla Brown, autora principal do relatório, advertindo, todavia, para a persistência de alguns problemas, incluindo o assédio sexual e a tendência de se exigirem horas extraordinárias.

Por exemplo, metade das empresas vietnamitas persiste no não cumprimento dos limites de horas extraordinárias – algo que os investigadores acreditam ser o resultado de práticas fraudulentas de pagamento que impossibilitam os trabalhadores de compreenderem plenamente os cálculos dos seus salários e horas de trabalho, bem como de pressões das marcas e retalhistas.

Segundo a avaliação, as práticas de aprovisionamento dos clientes globais colocam as fábricas sob pressão para cumprirem prazos de entrega cada vez mais curtos, responderem a mudanças frequentes nos pedidos e operarem com altos níveis de flexibilidade, algo que tem um efeito direto na capacidade de uma fábrica cumprir critérios-chave de trabalho digno.

«As mudanças na gestão das práticas de aprovisionamento são um aspeto importante para melhorar as condições de trabalho nas fábricas», concluíram os investigadores, acrescentando que «estabelecer um plano de emprego de qualidade requer, portanto, que todas as partes interessadas – marcas, retalhistas, fábricas, ONG’s e trabalhadores e seus representantes – desenvolvam uma abordagem holística para encontrar soluções ao longo de toda a cadeia de aprovisionamento».

O programa Better Work foi criado em 2009 com o objetivo de melhorar as condições de trabalho e promover a competitividade nas cadeias de aprovisionamento globais de vestuário e atua atualmente em sete países – Bangladesh, Camboja, Indonésia, Vietname, Jordânia, Haiti e Nicarágua – envolvendo 1300 fábricas que empregam mais de 1,6 milhões de trabalhadores.