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Confeção lusa foi protagonista na Première Vision

Portugal foi o Focus Country na Première Vision Manufacturing e atraiu as atenções dos milhares de visitantes que se deslocaram a Paris. Fios, acessórios, tecidos e malhas nacionais também colheram frutos da exposição nacional no certame.

Paulo Melo, Conceição Moreno, Madalena Oliveira e Silva, Nelson de Souza, Eurico Brilhante Dias, César Aaújo, Rui Paulo Almas e Gilles Lasbordes

“Portugal: o seu parceiro de negócios de confiança” foi o posicionamento assumido pela confeção nacional na mais recente edição da Première Vision Paris. A feira, que acolheu cerca de 55.500 visitantes de 124 países – uma queda de 8,3% face à edição de setembro de 2017, atribuída pela organização à mudança dos dias da semana em que decorreu, para evitar a completa sobreposição com a festa judaica do Yom Kippur – selecionou Portugal como Focus Country e o CENIT – Centro de Inteligência Têxtil e a ASM – Associação Selectiva Moda uniram esforços para mostrar o know-how e impulsionar a imagem da indústria portuguesa.

Uma área de 100 metros quadrados, dividida em três espaços, ilustrou em plena Première Vision Manufacturing a arte e o engenho nacional no vestuário. Numa primeira exposição, os visitantes puderam apreciar artigos de 15 confecionadores. Uma segunda área mostrou a capacidade inovadora da confeção nacional, com produtos que misturam tecnologia e moda – propostos pela Ana Sousa by Flor da Moda, Damel Innovation, Dielmar, Oldtrading, Scoop e Troficolor – e, no terceiro espaço, a criatividade portuguesa esteve em evidência, com looks de designers nacionais com tecidos e malhas produzidos pelas empresas portuguesas: Mário Matos Ribeiro com a A. Sampaio & Filhos, Inês Torcato com a LMA, Luís Carvalho com a Penteadora, Nuno Baltazar com a Riopele, Alves/Gonçalves com a Somelos Tecidos e Maria Gambina com a Tintex.

Mostra Focus Country Portugal

«Esta feira é um dos eventos mais importantes do mundo para a indústria têxtil e está a assumir, de forma crescente, um papel relevante no vestuário, na confeção em private label. O destaque que foi dado ao país mostra o reconhecimento internacional do potencial e da qualidade do “made in Portugal”, ao mesmo tempo que funciona como uma alavanca de promoção para as nossas empresas», afirmou César Araújo, presidente da ANIVEC, associação que detém o CENIT, ao Jornal Têxtil.

Na Première Vision Manufacturing estiveram, nesta edição, 13 expositores nacionais, entre a estreia da Mefri e a presença já habitual de nomes como a Raith, Soeiro, Triwool, Calvelex ou António Manuel de Sousa. «Estamos sempre à procura de novos projetos, de novos desafios – é isso que nos move», justificou ao Jornal Têxtil Sérgio Rocha, comercial da Mefri, que produz em private label e para a marca própria de vestuário infantil Wolf & Rita. Apesar de já exportar 100% da produção, a empresa aventurou-se numa primeira experiência na Première Vision Manufacturing. «Queremos crescer e dar-nos a conhecer ao mundo», explicou. «A Première Vison é o local que quase todos os mercados visitam – o europeu, o americano, o asiático… Através da Wolf & Rita já estamos nesses mercados, mas queremos ter a oportunidade de nos mostrarmos mais», acrescentou Sérgio Rocha.

Fórum From Portugal

Confecionadora de acessórios de pescoço, como gravatas e lenços, a António Manuel de Sousa tem integrado a feira parisiense num programa alargado de certames profissionais onde marca presença um pouco por toda a Europa e EUA. «Aqui aparecem clientes belgas, franceses e de outras nacionalidades, por isso acabamos por trazer de tudo um pouco – tanto de verão como de inverno. Os materiais são importantes», afirmou Ana Lisa Sousa, sócia-gerente da empresa, que detém a marca própria Vandoma.

A Première Vision, de resto, começou por ser uma feira dedicada aos materiais têxteis, tendo ampliado o seu raio de ação para incluir toda a fileira, dos fios aos tecidos e malhas, passando pelos acessórios, peles, design têxtil e confeção.

Embora mantenha a convicção que a Première Vision «será sempre uma feira de tecidos», Paulo Melo, presidente da ATP, que detém (juntamente com a ANIL – Associação Nacional da Indústria de Lanifícios) a ASM, acredita também que «precisamos no Manufacturing, onde temos tão boas empresas, ter empresas tão relevantes como as que existem na área das malhas e dos tecidos», assegurou ao Jornal Têxtil.

«Portugal soube posicionar-se»

Somelos Tecidos

Integrada no programa de promoção de Portugal enquanto Focus Country teve lugar uma conferência onde João Paulo Pinto Machado, vice-presidente da ANIVEC, abordou o aprovisionamento de vestuário em Portugal, Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, destacou o trabalho inovador da indústria portuguesa, em áreas como a impressão de circuitos elétricos nos têxteis, e Manuel Serrão, diretor-geral da ASM, usou a apresentação “Contra todas as probabilidades” para explicar a evolução da ITV nos últimos anos. «O sector vive um bom momento, um momento de concretização de objetivos e isso é muito importante», afirmou Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, que abriu a conferência.

«Portugal soube posicionar-se na cadeia de valor do sector têxtil e vestuário. Hoje está no mercado identificando a sua oferta com estes três pilares do design, tecnologia e serviço ao cliente. Servimos os nossos clientes com rapidez, participando no processo produtivo e no processo de design. E somos provavelmente a melhor opção de nearshore para private label», destacou. O governante elogiou ainda a colaboração entre as diferentes associações na promoção da indústria. «É uma organização onde a ATP, a ANIVEC, o CENIT, a ASM e o CITEVE estão em conjunto na mesma organização, cooperando. Percebo que o ambiente de feira propicie a troca de experiências e essa troca de experiências e de contactos pessoais fortalece o sector, faz com que seja mais resiliente. Um pavilhão português é um passo em frente. Portugal, ao ser o Focus Country, foi capaz de mostrar que tem grande capacidade de organização e que é claramente liderante no mundo», declarou.

Riopele

Também Nelson de Souza, Secretário de Estado do Desenvolvimento e Coesão, esteve presente na Première Vision, 10 anos depois da sua primeira visita e, como tal, sentiu as diferenças. «Tive o prazer de encontrar uma indústria totalmente renovada e inovadora, muito mais criativa e muito mais ajustada àquilo que são os desafios que se colocam agora», adiantou ao Jornal Têxtil, manifestando ainda a sua satisfação por ver que «os seis pavilhões [da Première Vision Paris] desta dimensão estão repletos, na sua esmagadora maioria, por stands pertencentes a Estados-membro da União Europeia e percebemos que, afinal de contas, o têxtil e o vestuário têm futuro na Europa».

Credenciais verdes

Nelson de Souza realçou ainda a resposta que as empresas portuguesas estão a dar na área da sustentabilidade. «Há uma procura muito grande relativamente a produtos reciclados, ao crescimento verde, com soluções concretas de fios, de tecidos, de produtos que correspondem a soluções concretas e já comercializáveis por parte da indústria portuguesa. Foi muito bom sentir isso, porque trata-se, mais uma vez, de fazer uma aposta naquilo que tem futuro», assegurou.

Sedacor

Este tipo de oferta esteve, efetivamente, em evidência, com 13 empresas nacionais na lista dedicada aos expositores que se destacam na produção sustentável, batizada Smart Creation, três das quais – Riopele, Sedacor e Tintex – a serem mesmo selecionadas para fazerem parte da chamada Smart Square, uma área nova (esta foi apenas a segunda edição) na Première Vision que realça a criação responsável.

«A Sedacor foi convidada a estar pela primeira vez na Première Vision», indicou o diretor comercial e de marketing Albertino Oliveira. «É um grande feito haver quase uma necessidade das pessoas de procurarem tudo o que é sustentabilidade, tudo o que é alternativa ao couro. Todos os players estão a acordar, por vontade própria ou por obrigação, para esta realidade. As grandes marcas, as marcas médias e agora as pequenas marcas já perceberam que não é uma questão de moda: ou estão no mercado da sustentabilidade ou não estão no futuro», admitiu Albertino Oliveira.

A empresa esteve na Smart Square a apresentar os seus tecidos de cortiça e a procura superou as expectativas. «Pediram-nos para falar nas conferências paralelas sobre esta temática e fomos apresentar uma nova especiaria para a economia circular chamada cortiça. E teve impacto. Eu e outro colega estávamos a embrulhar as caixas para irmos embora e ainda havia pessoas a pedir uma amostra ou um cartão. Obviamente que as coisas não são automáticas. As pessoas primeiro querem perceber como é que funciona, se dá, se não dá. Mas é o caminho», garantiu o diretor de marketing e sustentabilidade da Sedacor.

NGS Malhas

Boas malhas

As opiniões em relação à feira são igualmente positivas por parte dos expositores nacionais que estiveram presentes nas diversas áreas. Na Première Vision Fabrics, dedicada às malhas e tecidos, a NGS Malhas teve «uma edição fantástica», confirmou Nuno Cunha e Silva, CEO da empresa. De igual forma, a RDD regressou de Paris animada com os resultados. «Para uma primeira edição correu muito bem, superou as expectativas, que não eram baixas, uma vez que já tínhamos clientes que nos pediam para estarmos presentes», confessou a diretora-geral Elsa Parente.

RDD

O sucesso das empresas nesta área tem, de resto, vindo a atrair novos expositores lusos para a Première Vision Fabrics. Nesta edição, além da RDD estreou-se também a Avelana, a Etexba e a Trendburel, aumentando o número de expositores de 31 em fevereiro de 2018 – altura em que se estreou a Tabel – para 34 em setembro. Um número que deverá continuar a aumentar, uma vez que várias empresas de malhas avançaram ao Jornal Têxtil que estão a fazer diligências para expor na feira já no próximo ano, como é o caso da João António Lima Malhas ou da Malhancide.

Fios em alta

Os resultados positivos estendem-se a montante da cadeia produtiva, onde a Première Vision Yarns é uma referência. Tal como na Première Vision Fabrics, a presença portuguesa aumentou nesta área, tendo duplicado em ano e meio – de apenas três expositores em fevereiro de 2017 para sete em setembro deste ano, entre os quais a JF Almeida, a Inovafil e a Lipaco. «Foi uma feira agradável», classificou Pedro Martins, responsável de mercado externo da Inovafil. «Tivemos visitas dos clientes mais importantes com os quais estamos a trabalhar, sobretudo do mercado francês. Temos feito uma aposta em materiais ecológicos, numa linha de preocupação com o futuro, com a parte ambiental, e os clientes têm percecionado isso bem. Vai em linha com o que eles procuram. [A Première Vision Yarns] é uma feira interessante», referiu.

Calvelex
Vandoma

A Lipaco, por seu lado, sentiu alguma quebra de visitantes, mas no geral a feira «ficou em linha com aquilo que já conhecíamos e esperávamos, que é muito mais o acompanhar dos clientes», assume o CEO Jorge Pereira. Ainda assim, «apareceram clientes novos» e «logo no primeiro dia de manhã recebemos uma encomenda bastante grande aqui de França».

Com mais de três dezenas de edições no currículo, a Tearfil – a produtora portuguesa de fios que há mais tempo está na Première Vision, desde 2001 – propôs também artigos sustentáveis, incluindo a coleção de fios Infini, com uma fibra sintética 100% biodegradável que resultou de um desafio lançado pela empresa de confeção de vestuário em malha circular Triwool para resolver a problemática da contaminação por plásticos dos oceanos. «No primeiro dia da feira tivemos o equivalente a dois dias das edições anteriores», revelou Marla Gonçalves, diretora da Tearfil. O balanço é, por isso, positivo. «Recebemos quem queríamos receber e fizemos as reuniões que tínhamos agendadas. Estivemos com uma empresa de Israel com a qual tínhamos descontinuado as relações comerciais e agora vamos retomar. Portanto, aconteceu o que queríamos que acontecesse aqui na feira», concluiu Marla Gonçalves.

J. Caetano