Início Notícias Mercados

Confinamento custa €2,2 biliões ao comércio

As medidas de contenção do novo coronavírus em todo o mundo estão a significar uma regressão do comércio internacional ao nível das taxas de importação de 1994. A conclusão é de um estudo da Euler Hermes, que coloca o têxtil entre as indústrias que enfrentam mais riscos de disrupção da cadeia de aprovisionamento.

O estudo COVID-19 losses equivalent to a return of 1994 tariffs realizado pela consultora, que é acionista da Cosec – Companhia de Seguros de Crédito, revela que as medidas de confinamento implementadas por todo o mundo para combater a propagação do novo coronavírus, e a consequente retoma da atividade de forma desfasada entre países, poderão custar 2,2 biliões de euros ao comércio internacional de mercadorias, o equivalente a se todos os países subissem as suas taxas de importação para 17%, ou seja, próximo dos níveis registados em 1994.

«Mesmo após o fim do confinamento, o facto de haver regras diferentes entre Estados sobre a circulação de bens, serviços e pessoas pode gerar incerteza, assimetria de informação e uma sobrecarga regulatória sobre as empresas, impedindo o comércio global de voltar ao normal», aponta o comunicado da Cosec.

Os dados mostram que, depois de um choque de 22,5% em valor, o comércio internacional poderá manter-se abaixo de 90% do que se registava antes da crise, mesmo após o fim do confinamento.

Apesar do cenário considerado mais provável ser o cenário de recuperação em forma de “U”, os analistas alertam para o facto de alguns sectores, nomeadamente os que exportam produtos de alto valor acrescentado e são mais sensíveis a interrupções na cadeia de fornecimento, correrem o risco de sofrer aumento de preços. É o caso dos têxteis, assim como da informática, eletrónica, metais, indústria mineira, transportes e equipamento elétrico.

Em termos geográficos, correm maior risco as empresas que operam na China, EUA, Alemanha, França, Irlanda, Bélgica, Holanda e Luxemburgo.

Protecionismo em crescendo

Os economistas da Euler Hermes alertam ainda para o regresso de um risco que o comércio internacional enfrentava antes do surgimento da pandemia: o aumento do protecionismo.

«A adoção destas políticas por parte dos Estados pode recriar a incerteza vivida em 2019 e prejudicar a recuperação do investimento, intensificando-se à medida que se agravam tensões entre os EUA e a China», afirmam, acrescentando que «o protecionismo tem sido evidente, por exemplo, nos produtos relacionados com a Covid-19. Os dados revelam um nível recorde de novas restrições à exportação de produtos médicos, farmacêuticos e de equipamento de proteção por parte de muitos países».

No total, referem, «foram aplicadas mais de 80 novas medidas protecionistas a estes produtos em 2020 em todo o mundo – um recorde, e que equivale a 2,5 vezes o total de medidas implementadas em todo o ano de 2019».

O estudo estima que, só em 2020, os bloqueios às exportações possam reduzir em 27 mil milhões de euros o comércio de produtos relacionados com o Covid-19.

O protecionismo poderá ainda levar ao agravamento da crise sanitária em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, Argentina e Argélia, assim como África do Sul, Marrocos, Indonésia, Colômbia, Malásia, México e Chile, cujas importações deste tipo de produtos estão concentradas essencialmente nos seus três principais parceiros comerciais.