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Conflitos na Etiópia adiam ambição da ITV

Para a indústria têxtil e vestuário, a nação africana conquistou o título de «fronteira brilhante» com a procura de mão de obra barata na alçada de um governo ansioso para atrair empresas através de isenções fiscais e empréstimos baratos. No entanto, os conflitos na Etiópia adiaram os planos para esta indústria, num país que estava já em dificuldades.

[©Reuters]

Quando a DBL, empresa têxtil do Bangladesh, abriu uma loja na Etiópia, há dois anos, não esperava o desfecho atual. No mês passado, com os conflitos que ocorreram na região norte de Tigré, o complexo da DBL foi afetado por uma explosão que destruiu as janelas da fábrica, o que alterou drasticamente a estratégia de negócios. «Tudo o que podíamos fazer era rezar em voz alta», conta Adbul Waseq, funcionário da empresa, que se dedica à produção de vestuário, principalmente para a gigante sueca de moda H&M, e é uma das pelo menos três confeções estrangeiras que suspenderam as operações em Tigré. «Podíamos ter morrido», afirma Adbul Waseq à Reuters.

Durante mais de uma década, a Etiópia investiu mais de mil milhões de dólares (mais de 815,73 milhões de euros) em infraestruturas como barragens hidroelétricas, ferrovias, estradas e parques industriais com a ambição de transformar a pobreza, especialmente na nação agrícola, numa superpotência de produção.

Em 2017, o país era uma das economias em crescimento mais rápido do mundo e, um ano depois, o primeiro-ministro Abiy Ahmed assumiu funções com a promessa de aliviar o controlo do Estado numa economia com mais de 100 milhões de pessoas e libertar sectores como as telecomunicações, alimentado algo como a era glasnost entre os investidores.

A Etiópia sofreu, contudo, vários desafios como confrontos étnicos, inundações, pragas de gafanhotos e confinamentos impostos pelo novo coronavírus.

Os desacatos que eclodiram a 4 de novembro entre o exército e as forças leais ao antigo partido governante de Tigré, e o receio de que isso possa representar um período prolongado de agitação, têm mostrado aos investidores uma verificação dura da realidade.

Qualquer hesitação por parte dos investidores pode ser sinónimo de problemas, uma vez que o impulso das exportações de produção do país ainda não estão a gerar moeda estrangeira suficiente para pagar todas as importações da Etiópia ou acompanhar o aumento dos custos do serviço de dívida. Já antes da pandemia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou para o facto de a Etiópia estar a correr um alto risco de sobreendividamento.

Mesmo assim, o governo de Abiy Ahmed, face às crises que enfrenta, afirma que o país africano está a avançar com reformas que serão as bases para uma economia moderna. «Apesar do choque sem precedentes do Covid e da contínua insegurança em diferentes partes do país, a economia etíope mostrou notável resiliência», refere Mamo Mihretu, conselheiro sénior de política do gabinete do primeiro-ministro.

Produção suspensa

De acordo com os dados comerciais do Banco Mundial, a Etiópia é uma produtora têxtil relativamente pequena com exportações, em 2016, de apenas 94 milhões de dólares (cerca de 76,7 milhões de euros), comparativamente com os 29 mil milhões para o Vietname e 253 mil milhões para a China registados nesse mesmo ano. Deste modo, as principais exportações do país são agrícolas como, por exemplo, o café, chá, especiarias, sementes oleaginosas, plantas e flores.

[©TODAYonline]
Não obstante, o impulso da Etiópia na indústria têxtil, nos últimos 10 anos, foi emblemático das suas ambições produtivas. À medida que os desacatos se começaram a aproximar da capital regional de Tigré, Mekelle, as empresas deste sector tiveram de fechar portas e evacuar trabalhadores.

«Parecia que o conflito se estava a aproximar da cidade e a nossa preocupação era que não podíamos ir embora», explica Cristiano Frati, um eletricista que foi evacuado de uma fábrica da retalhista italiana de meias Calzedonia.

Na sequência do sucedido, a Calzedonia revelou a 13 de novembro ter suspendido as operações na fábrica, que emprega duas mil pessoas, recusando-se ainda a tecer mais comentários.

Com este panorama, a DBL optou por mandar os colaboradores estrangeiros para fora da Etiópia. «Tudo se tornou incerto. Quando vai a guerra terminar?», questiona, M.A. Jabbar, diretor-geral da empresa do Bangladesh.

A Velocity Apparelz Companies, fornecedora da H&M e da Children’s Place, também fechou portas temporariamente, segundo as informações de um representante. Perante este cenário, a H&M revelou estar «muito preocupada» e acompanhar a situação de perto. «Temos três fornecedores em Tigré e a produção foi interrompida», addiantou a empresa à Reuters, acrescentando que vai continuar a recorrer à Etiópia, onde tem um total de cerca de 10 fornecedores.

Pelo contrário, a Indochine Apparel, uma empresa chinesa fornecedora da Levi Strauss & Co, disse que as respetivas operações no parque industrial de Hawassa, no sul do país, não foram afetadas. Até ao momento, a Levi Strauss & Co garante que não houve impacto na cadeia de aprovisionamento, visto que está a monitorizar a situação.

Dificuldades prévias

Mesmo antes dos conflitos em Tigré, a indústria de vestuário da Etiópia estava já a lutar contra as dificuldades por causa das consequências económicas provocadas pela pandemia. Prova disso é que algumas empresas não sobreviveram à queda de encomendas, enquanto outras se viram forçadas a reduzir salários e a demitir funcionários.

No entanto, os problemas não se circungiram apenas à indústria de vestuário. As empresas seguradoras que subscreverem os riscos políticos pararam de dar cobertura além da região de Amhara, no norte da Etiópia, e da capital federal Adis Abeba, destaca um consultor de risco que assessora clientes corporativos. «A Etiópia não é uma imagem bonita agora», assume o consultor de risco que, como a maioria das fontes contactadas pela Reuters, pediu para não ser identificado, com medo de retaliações por parte das autoridades governamentais.

Abiy Ahmed [©investing.com]
Os esforços do primeiro-ministro Abiy Ahmed para aliviar o clima político repressivo tinham já desencadeado confrontos étnicos antes da guerra em Tigré. A violência vivida noutras partes do país intensificou-se em 2019 e interrompeu projetos, nomeadamente na agricultura. «A luta teve início na época em que íamos começar a plantar», esclarece o chefe de um projeto agroindustrial que foi obrigado a adiar o investimento no ano passado.

Também a gigante sueca de móveis Ikea abriu um escritório de compras na Etiópia no ano passado, porém, fechou em setembro, depois de ter suspendido os planos de compra do país por causa da situação política e social, do Covid-19 e das alterações no mercado de algodão na África.

A Coca-Cola Beverages Africa, parceira de engarrafamento da Coca-Cola Company, assegurou à Reuters que os combates em Tigré, que representa cerca de 20% do volume de vendas na Etópia, interromperem as negociações, dado que atrasaram a construção de duas novas fábricas de engarrafamento, como parte de um plano de investimento de 300 milhões de dólares a cinco anos. Além dos planos de construção adiados, o aumento do imposto ao consumo devido à pandemia foi também um fator que pesou na decisão de interromper as ligações comerciais.

Formas de subsistir

Com a queda de Mekelle no final do mês passado, Abiy Ahmed declarou vitória perante o antigo partido de Tigré no poder, TPLF – Tigré People’s Liberation Front.

«A conclusão rápida, decisiva e determinada da fase ativa da operação militar significa que quaisquer preocupações remanescentes sobre a incerteza política por parte da comunidade de investimentos serão efetivamente resolvidas», assevera o conselheiro sénior de política do gabinete do primeiro-ministro.

Para o governo, a margem de erro é pequena. A dívida externa da Etiópia aumentou cinco vezes na última década, à medida que o governo fez muitos empréstimos, principalmente da China, para pagar infraestruturas e parques industriais.

Já os fluxos de investimento direto estrangeiro diminuíram continuamente desde o pico de 2016, de mais de quatro mil milhões para cerca de 500 milhões de dólares no primeiro trimestre do corrente ano fiscal.

A inflação está, de resto, em cerca de 20%. «Existem muito poucas formas de sair disto. Eles não vão receber mais dinheiro do FMI. Eles não podem ir aos mercados. A melhor aposta é uma recuperação económica global no próximo ano», acredita Menzi Ndhlovu, analista sénior de risco político do país da Signal Risk, uma consultoria de negócios com foco na África.

[©U.S. News & World Report]
Embora a situação esteja difícil, a Etiópia aprovou, no início do ano, uma lei de investimento histórica, com a implementação das reformas monetárias. O governo está também a prosseguir com os planos para o sector de telecomunicações, com a abertura de licitações para duas novas licenças de telecomunicações no final de novembro, planeando ainda vender uma participação minoritária na empresa estatal Ethio Telecom.

Fontes que acompanharam este processo, que deverá ser uma forte injeção na economia, confirmam que as empresas interessadas no projeto não se sentiram refreadas pela agitação que o país enfrenta.

Para já, as ambições para a indústria produtora da Etiópia ficam adiadas. «Quem vai lá nesta situação? Ninguém», assume Adbul Waseq da DBL, que regressou ao Bangladesh.