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Consumidores ditam as regras no streetwear

Mais do que calçar sapatilhas e vestir camisolas com capuz, o streetwear é o resultado de grandes mudanças culturais que abrangeram várias formas de arte. Um novo estudo aponta que a moda de rua não é apenas uma tendência fugaz, mas sim uma influência que veio para ficar.

O streetwear pode ter-se tornado uma das forças mais disruptivas do mundo da moda nos últimos anos, ainda que seja fácil olhar para a mesma como uma tendência fugaz. Acredita-se que se resume a sapatilhas e a peças com capuz que, eventualmente, os consumidores irão esquecer e seguir em frente, como acontece com muitas tendências de moda. Contudo, o streetwear é mais do que uma tendência, garante um novo relatório da Strategy&, uma divisão da consultora PwC, e da Hypebeast, uma plataforma exclusivamente dedicada ao segmento, analisado pelo Quartzy.

O streetwear poderia ser descrito como um estilo que mistura camisolas com capuz e ilustrações, blusões verde tropa, casacos com enchimento e, claro, sapatilhas. Mas desengane-se quem acredita que se resume a produtos em específico. Em vez disso, o streetwear é o resultado de grandes mudanças culturais e de uma profunda alteração no equilíbrio entre marcas e consumidores, sublinha o estudo.

Crescimento contínuo

A Strategy& e a Hypebeast questionaram 763 pessoas na indústria da moda e do retalho e 76% afirmaram que acreditam que o streetwear irá continuar a crescer ao longo dos próximos cinco anos. «O streetwear não é uma tendência dentro da moda, mas sim uma componente da mesma, que faz parte de uma mudança cultural que abrange a moda, a arte contemporânea e a música. A questão não é se as sapatilhas continuam a ser uma tendência, mas sim se a mentalidade que está a suportar o crescimento desta cultura irá persistir», pode ler-se no relatório.

O consumidor de streetwear dá uma grande importância à autenticidade e às pessoas com o mesmo tipo de pensamento, seguindo-as maioritariamente através das redes sociais, em vez de se reger pelos agentes tradicionais, como revistas de moda ou websites. O consumidor com este tipo de pensamento tende a ser jovem, ouvir hip-hop e estar disposto a gastar dinheiro em vestuário casual e exclusivo. Isso faz do streetwear «democrático», indica o estudo, porque é a comunidade que decide o que é popular. «A distinção entre o streetwear e a indústria da moda não se resume a uma sapatilha versus uma bolsa, mas sim a quem está a decidir as tendências», acrescenta o estudo.

Supreme x Nike
A Bathing Ape

Nesse sentido, o streetwear resume uma tendência mais abrangente, na qual o poder já não é das empresas, mas sim dos consumidores. A consultora A.T. Kearney descreveu-a como uma evolução de um modelo de «riqueza», onde o dinheiro comprava o acesso, para um modelo de «influência». Historicamente, a moda funcionava de cima para baixo: as marcas, e outros agentes, como editores, possuíam a maioria da informação e da influência, e gastavam montantes elevados para fazer chegar o seu poder aos consumidores. Porém, a internet e as redes sociais deram aos consumidores as suas próprias plataformas e poder de pesquisa, permitindo que se juntassem em comunidades que partilham os mesmos interesses e valores.

O streetwear faz-se desta abordagem, referem a Strategy& e a Hypebeast. A tendência emergiu como parte de uma contracultura que abraçava artistas como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring, bem como a cultura rap/negra, uma força impulsionadora do movimento. O vestuário apareceu no mundo do surf e do skate, na Califórnia, passando depois para Nova Iorque, nos primeiros tempos do rap, onde absorveu uma grande influência, antes de figuras centrais em cidades como Londres e Tóquio o terem adotado.

Compreender o público-alvo

Inicialmente, marcas pioneiras como a Stussy, a A Bathing Ape e a Supreme não procuraram os canais de retalho tradicionais, como os grandes armazéns, onde podiam vender para as massas. Focaram-se em vender diretamente a pessoas com mentalidades semelhantes e foram pioneiras a implementar um modelo, que agora é amplamente adotado, que passa pelo envio de quantidades limitadas de artigos para as lojas. E porque vinham da mesma cultura do seu público-alvo, compreendiam a quem estavam a vender.

Eventualmente, com o crescimento da internet, essa audiência tornou-se uma comunidade online, que se reunia em fóruns como a NikeTalk, BapeTalk, Strictly Supreme e Sole Collector, onde trocavam informação e compravam e vendiam artigos. Esses fóruns foram desaparecendo, contudo, as mesmas atividades estão agora a acontecer no Instagram e em websites de revenda, a uma maior escala, criando um poderoso movimento.

Takashi Murakami

O hip-hop, que ainda tem fortes laços com o streetwear, cresceu como estilo musical dominante nos EUA e continua a chegar a outros países, incluindo a China. As marcas de streetwear, como a Supreme, acabaram por se tornar influenciadoras na indústria da moda. Designers com raízes em streetwear, incluindo Virgil Abloh e Kim Jones, estão atualmente entre os nomes mais bem-sucedidos na indústria, liderando o vestuário de homem na Louis Vuitton e na Dior, respetivamente. As ligações à arte contemporânea continuam, através de artistas populares como Daniel Arsham, Kaws e Takashi Murakami. Estas são as pessoas que os consumidores de streetwear ainda procuram para se inspirarem.

O inquérito questionou cerca de 41 mil consumidores de todo o mundo, maioritariamente na Ásia, Europa e América do Norte, e descobriu que os músicos, agentes da indústria e artistas contemporâneos são os que têm maior poder influenciador no streetwear, surgindo à frente dos influenciadores das redes sociais, celebridades e atletas.

Além disso, de acordo com o estudo, os consumidores de streetwear gostam de comprar. Dos cerca de 41 mil consumidores inquiridos, 54% confessaram gastar mensalmente entre 100 dólares e 500 dólares (entre 89 euros e 447 euros) em streetwear.