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Consumir com responsabilidade – Parte 1

Com a sustentabilidade no topo da agenda, o Institut Français de la Mode (IFM) inquiriu os franceses sobre temas como vestuário de comércio justo ou ecológico. Os resultados mostram um maior nível de conhecimento e de consumo destes artigos, embora muitos ainda não estejam plenamente confiantes no que lêem nos rótulos. Actualmente, depois dos diversos escândalos durante os anos 90 e as inquietudes ligadas ao aumento fulgurante no preço dos géneros alimentares e da energia no primeiro semestre de 2008, todas as categorias de consumidores inquiridas pelo IFM exprimem uma consciência crescente quanto à limitação dos recursos à sua disposição: água, energia, embalagens, papel e também vestuário Mas na prática, os grupos qualitativos que o instituto francês reuniu e a sondagem realizada em Novembro de 2008 mostram que a reacção da grande maioria dos indivíduos consiste em fazer baixar o seu nível de culpabilização através de pequenos gestos (separação do lixo, fechar as torneiras). Estes actos comportam um benefício directo (diminuição da factura) e/ou são iniciados e tomados em mãos pelas colectividades (separação do lixo, contentores para o vestuário), agindo como valorizadores, desculpabilizantes, gratuitos. A pouco e pouco, contudo, a noção de “consumo responsável” está a instalar-se progressivamente nos comportamentos, tocando áreas como a alimentação, a habitação ou os transportes. Mas para a maioria dos indivíduos, segundo o IFM, a moda fica à parte dos debates, mantendo-se como sinónimo de prazer, de escolha, de cores, de mudança Moda e desenvolvimento sustentável parecem ser, de facto, um oximoro: que outro sector além da moda possui o poder de criação de desejo para novos produtos que a necessidade não impõe, se tornou mestre na criação de imaginários para as marcas e se afirmou precursor da globalização? Na prática, e em parte devido a esta “tensão” entre moda e desenvolvimento sustentável, poucas marcas de vestuário desenvolveram até à data uma oferta significativa e uma comunicação efectiva sobre esta temática. A oferta de vestuário e têxteis-lar que se aproxima do conceito de “consumo responsável” nas dimensões ambiental e social é, de acordo com o IFM, praticamente confidencial, pouco valorizada, pouco explicada, difusa: do vestuário em algodão orgânico ao comércio justo, passando pelo comércio ético ou pelos produtos em que parte dos lucros reverte para uma causa social, esta oferta cobre universos variados, suscitando a confusão junto dos consumidores. Além disso, a sua distribuição limita-se a algumas lojas especializadas, muitas vezes pouco visíveis, ou a uma pequena colecção de t-shirts misturada na diversidade de oferta das grandes marcas de distribuição, talvez com o desejo de aproveitar a vaga ecológica. Com o desenvolvimento bem real da oferta desde 2007, há cada vez mais franceses a comprar uma peça de vestuário biológica ou justa: em Novembro de 2008, 28% dos consumidores declararam já ter comprado pelo menos um destes produtos, mais 7% do que em 2007, enquanto que 37% conhecem este tipo de produtos sem todavia ter comprado algum. Para estes últimos, o facto de não saber onde se pode encontrar esta moda “responsável” e, muitas vezes, não dispor na proximidade de um ponto de venda que a disponibilize, constitui a razão mais frequente de não compra (39% dos entrevistados). Também uma grande maioria dos indivíduos (85%) gostaria de encontrar vestuário da fileira ética nas suas lojas habituais, embora o estudo do IFM tenha demonstrado que a loja especializada em produtos biológicos ou éticos se afirma aos olhos dos consumidores como o circuito mais credível para difundir uma “moda responsável”. Os outros circuitos, quer se trate de cadeias, grandes superfícies ou Internet, são, com efeito, considerados “razoavelmente” dignos de confiança. A prazo, segundo o IFM, é provável que o crescimento deste tipo de oferta seja acompanhado pelo desenvolvimento de novas marcas e de novas cadeias especializadas, inovando nos seus modelos de negócios. Por fim, 35% dos consumidores franceses não reconhecem a existência de uma oferta “ética/responsável” o que, por um lado, é muito, mas, por outro, é pouco, se tivermos em conta que esta oferta é actualmente reduzida e pouco difundida. Na segunda parte deste artigo, revelamos como é que os consumidores vêm a ITV em termos éticos e que exigências fazem aos produtores de vestuário.