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Consumo e ética em convergência: Parte 1

As empresas de moda estão a ser encorajadas a adoptar uma perspectiva mais abrangente em relação às suas praticas de fornecimento. Esta tendência surge após diversos retalhistas de renome terem reconhecido que a concentração excessiva nos preços baixos, na maior rapidez e na maior flexibilidade da produção, estão na base de muitos dos mais graves abusos em termos de ética e de trabalho nas cadeias de fornecimento internacionais. O gigante norte-americano Gap já reconheceu há muito tempo que as decisões a jusante afectam o que acontece ao nível das unidades de produção. A empresa está actualmente a tentar gerir a sua cadeia de fornecimento de vestuário para que os fabricantes não fiquem exacerbados com encomendas de última hora ou alterações aos planos de produção. A cadeia de retalho britânica New Look está a procurar formas de eliminar o desfasamento que existe entre as funções de aprovisionamento e o que acontece ao nível das unidades de produção. De acordo com esta empresa, as equipas de comércio ético e as equipas de aprovisionamento operam frequentemente de forma isolada uma da outra, e um diálogo mais próximo entre as duas é a chave para assegurar que os trabalhadores nos países em desenvolvimento não “pagam a factura” das exigências de moda dos mercados ocidentais. Os apelos a uma abordagem mais estratégica para as questões da ética nas actividades comerciais dominaram as discussões num evento recentemente realizado em Londres, onde retalhistas, marcas, produtores, sindicatos, organizações não governamentais e representantes governamentais, falaram abertamente sobre as suas experiências. O evento foi organizado pelo The MFA Forum, equipa de trabalho que tenta diminuir o impacto da eliminação das quotas do têxtil e vestuário sobre os trabalhadores dos países em desenvolvimento. Este órgão reconheceu que existe um custo que é pago pelos trabalhadores a montante na cadeia de fornecimento, custo este que deriva da velocidade da moda e dos baixos preços e que é necessário actuar sobre este problema. Mudança lenta A responsabilidade social das empresas está longe de ser uma novidade, pelo menos para as empresas maiores. No entanto, diversos trabalhadores do sector de vestuário estão ainda privados de salários adequados, pagamento de horas extraordinárias e o direito a constituir sindicatos. Mas porque razão as melhorias demoram tanto tempo a concretizar-se? Segundo Dan Rees, director-executivo da Ethical Trading Initiative, organização dedicada à promoção e melhoria da implementação das normas de responsabilidade social ao longo da cadeia de fornecimento, esta situação deve-se ao facto dos códigos de conduta não estarem ainda suficientemente integrados nas práticas das empresas, ficando frequentemente marginalizados no âmbito do negócio. Os prazos curtos e a débil gestão do caminho crítico por parte das marcas pode causar um vasto aumento nos tempos de trabalho extra dos trabalhadores, ou até mesmo em indemnizações pelo incumprimento das metas. O apertar dos preços e o corte nos preços do contrato também restringem os custos laborais, assim como a redução das quantidades numa encomenda. No outro extremo da cadeia de valor, a necessidade de flexibilidade, alterações repetitivas de última hora ao nível de estilo e cores, ou encomendas sazonais colocadas no último momento, podem levar a menos encomendas e a contractos de curto prazo, ou alternativamente, subcontratação ilegal quando as fábricas se esforçam por conseguir responder a um aumento inesperado das quantidades numa encomenda. Todas estas circunstâncias contribuem para minar a capacidade das empresas em responder aos padrões estabelecidos quer ao nível internacional, quer pelos clientes individuais. Na segunda parte do artigo a discussão vai centrar-se nas questões relacionadas com o salário mínimo, as decisões de aprovisionamento e algumas das soluções possíveis.