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Consumo em mutação

Independentemente das direções de moda ou da geração dos consumidores, há tendências de mercado que deverão influenciar a aquisição de roupa de criança, desde o orgânico ao vestuário adaptativo e às compras em segunda-mão.

[©Freepik]

O orgânico é já um tema recorrente, sobretudo no vestuário infantil, onde o algodão orgânico é uma das matérias-primas privilegiadas pelas marcas e pelos pais. De acordo com o CBI, a maior parte dos produtos orgânicos usa tecidos e malhas leves e há uma cada vez maior oferta em gamas de preço mais baixas, como no caso das retalhistas H&M e C&A. Há ainda diversas marcas mais pequenas que estão empenhadas em capitalizar este mercado, sendo que as que se dirigem a segmentos médio-alto e alto oferecem também produtos em lã merino orgânico, que complementam com outras matérias-primas sustentáveis ambientalmente, nomeadamente recicladas.

O CBI aponta igualmente para o crescimento do mercado em segunda-mão. Uma vez que as crianças crescem rapidamente, o que leva à necessidade de comprar roupa recorrentemente para as vestir, algo que se pode tornar bastante dispendioso, os pais começam a aderir às compras em lojas de segunda-mão, além de aproveitarem vestuário que já foi previamente usado por outros membros da família.

As plataformas online têm dado um novo impulso a esta tendência, com soluções como a lituana Vinted, recentemente chegada a Portugal e que tem já uma história de sucesso na Alemanha, e o eBay. Em 2020, o Selfridges começou a vender vestuário de criança em segunda-mão em Londres e a portuguesa Knot lançou o projeto re.love também no ano passado, com a venda online de peças da marca usadas.

Knot re.love [©Knot]
Segunda-mão cresce em Portugal

Em Portugal, de resto, as vendas de artigos de criança em segunda-mão parecem estar a crescer. De acordo com os dados da associação sem fins lucrativos Humana Portugal, as vendas deste tipo de produto nas suas lojas (tem 14 lojas, divididas entre Lisboa e Porto) aumentou de 34.749 em 2016 para 61.768 peças em 2020, sendo que nos primeiros oito meses de 2021, foram comprados 38.640 artigos de criança.

Humana [©Humana]
A associação revela que um inquérito da Myname Tags, concretizado pela Markup entre março e abril de 2021, aponta para que 44,75% dos pais que vivem em Portugal comprem, ocasionalmente, artigos em segunda-mão para os filhos, citando como motivo o rápido crescimento dos mais novos. Além disso, a maioria dos inquiridos doa as peças que já não servem aos seus filhos a instituições com fins sociais, oferecem-nas aos amigos ou familiares ou então enviam-nas para reciclagem.

Sendo uma das principais razões para comprar vestuário de criança o facto do mesmo rapidamente deixar de servir aos mais pequenos, os designers estão a trabalhar cada vez mais em peças que possam “crescer” juntamente com os seus portadores, usando para isso materiais específicos, botões e fechos. A marca britânica Petit Pli, que produz em Portugal, tem, por exemplo, adotado esta abordagem, com peças com dobras e pregas que aumentam automaticamente de tamanho.

Fjällräven [©Fjällräven]
O vestuário de outdoor é igualmente um segmento que está a ganhar importância crescente, com os pais a quererem que os filhos passem mais tempo na natureza e, por isso, preparados para gastar mais neste tipo de peças. A expectativa é que esses artigos sejam impermeáveis, respiráveis, fáceis de limpar e resistentes às nódoas e abrasão. A procura é superior em países da Europa do Norte e Ocidental, segundo o CBI, que refere como marcas populares as alemãs Jack Wolfskin e Vaude, assim como a sueca Fjällräven.

Uma outra tendência, que já não é nova, mas perdura, é o chamado “mini me”, isto é, vestuário coordenado entre pais e filhos, com peças semelhantes para mães e meninas ou pais e meninos.

Género neutro ganha adeptos

O mercado infantil tem ainda atraído marcas de luxo, com insígnias como Gucci, Dior, Armani e Ralph Lauren, entre outras, a não dispensarem a gama de criança na sua oferta. De acordo com o Business of Fashion, há ainda cada vez mais designers e marcas de gama alta a tentar penetrar o mercado, como demonstram os recentes lançamentos da Rejina Pyo e da Fear of God, em abril, da Self-Portrait, em maio, ou da retalhista de luxo Browns, que em julho apresentou a Browns Kids, uma categoria especial para os mais pequenos com mais de 35 marcas, incluindo Burberry Kids, Chloé Kids e Moncler Enfant.

Self-Portrait [©Self-Portrait]
Acompanhando a evolução do mundo, embora haja ainda pais que tendem a vestir os meninos de azul e as meninas de cor de rosa, há também uma corrente que prefere a neutralidade de género, optando por cores e designs mais neutros, que podem ser usados por todos. Entre as tonalidades mais populares estão o bege, o verde, o vermelho, o laranja e diferentes tons de azul e roxo, eliminando-se decorações como laços e folhos.

Ao nível do canal, o comércio eletrónico tem ganho força, sobretudo com a pandemia, que levou ao encerramento das lojas físicas. A alemã Zalando, por exemplo, aumentou o seu volume de negócios em 23,1% em 2020 face a 2019. Mas as marcas independentes mais pequenas têm igualmente beneficiado desta tendência para as compras online e o próprio canal tem impulsionado o surgimento de novas insígnias de roupa infantil.

O digital tem ainda impelido a compra de vestuário de licenças, como Patrulha Pata, Porquinha Pepa, Harry Potter, Disney, Star Wars ou personagens do universo da Marvel. «As crianças em casa [durante os confinamentos] tiveram mais tempo de ecrã e agora têm mais afinidade com diferentes personagens, seja em termos de desenhos animados para os mais novos ou filmes e estrelas das redes sociais para os mais velhos. Muitos retalhistas estão a avançar com parcerias de licenças», afirma, citada pela Drapers, Tamara Sender, analista sénior na Mintel.