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Consumo sem género

Num tempo ditado pelas novas gerações de consumidores, que fizeram do derrubar das barreiras de género uma das suas principais batalhas, o vestuário versátil e andrógino é tido como um caminho de autodescoberta e as empresas posicionadas neste segmento estão a prosperar.

À medida que a moda masculina e a feminina vão trocando ideias e roupas, as linhas que separavam as categorias têm vindo a esbater-se.

Redefinir as diferenças de género

«As pessoas já não sentem que precisam de usar um tipo de roupa só porque a sociedade dita», acredita Bobby Bonaparte, cofundador da Older Brother, marca unissexo norte-americana, em declarações ao portal de tendências WGSN.

A Older Brother é apenas uma das muitas marcas de vestuário que têm tido sucesso dentro da oferta unissexo. Bonaparte cita, a propósito, a tradução literal de “kimono”: o termo que designa a peça de outerwear japonesa significa “uma coisa para vestir”. Para homens e mulheres, a roupa é, cada vez mais, precisamente isso.

Os ideais antigos daquilo que é a moda masculina e a feminina estão obsoletos e deixaram de se aplicar a uma geração com pouca consideração pelas construções sociais preexistentes. Os últimos exemplos? Os nomes de bebés de género neutro estão em ascensão, bem como a narrativa conduzida pelo design inclusivo.

Numa altura em que a igualdade de género e os direitos LGBT começam a ser reconhecidos, a moda que aborda estas questões torna-se mais relevante e prevalente. Um estudo recente relata que 7% dos indivíduos entre os 18 e os 35 anos se identificam como LGBT, em comparação com 3,5% dos indivíduos com idade igual ou superior a 35 anos.

Entretanto, serviços como o My Kid Is Gay, por exemplo, têm procurado ajudar os pais a compreenderem melhor os filhos e o jovem americano Jamie Shupe pôde optar por não se enquadrar, legalmente, na definição binária de género, deixando de se identificar como homem ou mulher.

A moda direcional tem-se também esforçado por esbater as normas sociais e as suas mensagens abraçaram a pansexualidade (caracterizada pela atração sexual ou amorosa entre pessoas, independentemente do sexo ou identidade de género).

A este propósito, a Acne Studios apresentou uma coleção masculina com slogans como “Woman Powear” e “Radical Feminist” e a Hood by Air firmou parceria com o website pornográfico Pornhub para apresentar a sua última coleção.

Os ícones atuais

«Não sou gay, embora gostasse de ser, só para chatear os homofóbicos», escreveu Kurt Cobain – o vocalista dos Nirvana usava, frequentemente, vestidos e unhas pintadas.

Agora, uma nova safra de artistas, como Young Thug e Jaden Smith, é apontada como exemplo do estilo agender. Young Thug veste inclusivamente um vestido desenhado por Alessandro Trincone na capa do seu álbum “No, My Name Is Jeffery”. «A identidade andrógina das minhas roupas reforça a minha crença de não haver fronteiras de género entre homens e mulheres», explica o designer.

Passerelles integradas

Cada vez mais marcas estão a mudar para desfiles de moda mistos, com manequins femininos e masculinos a pisarem a passerelle, como é o caso da Gucci, Burberry, Tommy Hilfiger e da Bottega Veneta.

«Ter os designers a questionarem noções preconcebidas de género ou simplesmente a reconhecerem que as coleções de moda masculina são atraentes para o consumidor do sexo feminino é uma tendência que deverá continuar», comenta Caroline Rush, CEO do British Fashion Council.

Repensar a paleta de cores

Historicamente, o cor-de-rosa era uma cor masculina, usada sobretudo por meninos, uma vez que era considerada uma tonalidade mais suave do vermelho, o tom mais associado ao poder masculino. «Só depois dos anos 1940 e 1950 a cor ganhou uma conotação feminina, em parte devido à influência da primeira-dama norte-americana Mamie Eisenhower, bem como de musicais como “Funny Face”.

Agora, os tons suaves de rosa e salmão e as cores pastéis ganharam um novo destaque na moda masculina.

Por outro lado, os tons tradicionalmente masculinos, como o verde oliva e os azuis dominaram as coleções de mulher da Karen Walker e da The Row, refletindo a interação feminino-masculino.

Troca de guarda-roupas

Neste encadeamento, os casacos desportivos, os bombers e a alfaiataria têm tido muita apetência junto da ala feminina, especialmente considerando que as silhuetas oversized se tornaram prevalentes.

A colaboração da Adidas com Alexander Wang (ver A Adidas segundo Wang) de vestuário desportivo, gráfico e unissexo estreou na passerelle com um alinhamento misto de modelos e a J Crew fez da expressão “roubado aos rapazes” a sua assinatura marketing, usada para vender desde camisas de inspiração workwear a mocassins.

A marca Mini aliou-se aos designers da Pitti Uomo para uma coleção cápsula de sweatshirts com o objetivo de «envolver ambos os sexos» através de uma silhueta democrática e a Zara lançou uma seção unissexo de t-shirts, calças e denim (ver Zara neutra). Já no ano passado, a Selfridges lançou um conceito de loja agender (ver A segunda verão do unissexo).

Traduzindo a tendência para números, a roupa sem género tem sido incrivelmente lucrativa para o mercado de moda masculina.

Um relatório recente mostra que o mercado de moda masculina cresceu 1,9% em 2015, em comparação com um crescimento de 1,6% na moda feminina.

«O retalho como um todo precisa de evoluir constantemente e dar novidades ao consumidor», resume Sandy Silva, analista de moda no NPD Group. «E a maioria dos retalhistas pode incluir roupa unissexo na sua oferta sem muito esforço – especialmente se já vestir homens e mulheres», conclui.