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Contar connosco!

A visita do Comité 133 a Portugal, integrado na Presidência portuguesa da União Europeia, serviu de algum modo para confirmar um sentimento que já existia, mas que alguma ilusão e ingenuidade ainda teimava em negar. Não por sua vontade, já que concedo a alguns dos membros o estatuto de honestidade mental e acredito sinceramente no seu esforço, mesmo quando inglório, a começar pelos representantes portugueses no Comité; mas, as coisas são o que são e os resultados estão à vista. A Comissão Europeia não quer saber da Indústria Têxtil e do Vestuário, pelo menos aquela que ainda tem localização nos países da União, já que, estranhamente, toda a outra, fora dessas fronteiras, merece pelo menos a sua magnânimidade, a liberalidade do espaço mais livre e aberto do mundo. A Euratex, organização representativa da Indústria europeia, andou um ano para ser recebida pelo Comissário Lamy, tendo este acedido a responder às suas perguntas com um discurso enfadado e evasivo, obviamente sem se comprometer com coisa alguma. A importância do encontro (ou a sua ausência) é elucidativa – a não ser alguns jornais portugueses, ainda deslumbrados com o que Bruxelas pode produzir, mais ninguém deu espaço noticioso a tal encontro. A Euratex, leia-se a ITV, vale praticamente nada para a Comissão Europeia, já para não falar que Portugal, dentro da Euratex, vale ainda menos do que isso, uma vez que aquela organização se acha manietada pela influência dos “lobbies” dos distribuidores, dos importadores e de países terceiros, o que redunda numa estranha salada e num discurso errático e esfumado. Ora, a soma de nulos nula é. Resta-nos pois contar connosco, saber influir nas condições de competitividade global do país, de forma a termos uma indústria preparada para enfrentar a concorrência internacional, venha ela de Itália ou da China. Deixemo-nos de sofismas – é mais importante para a ITV que o Governo modifique a legislação laboral que ainda suportamos e que impede uma real produtividade da mão-de-obra do que a possibilidade de importação de mais 50.000 camisolas do Paquistão, é mais determinante para a ITV que se façam as reformas estruturais na Educação, na Segurança Social, no Fisco ou na Justiça do que a entrada da China na OMC. Acabemos com as fantasias e centremo-nos no essencial, pois é evidente que só podemos contar connosco e com ninguém mais!

Paulo Vaz secretário-geral da APIM