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Contra-ataque falhado

Em intervenções recentes, o Presidente dos EUA, Barack Obama, deixou poucas dúvidas sobre a sua determinação em aprovar um pacto de comércio vital às relações domésticas com a Ásia-Pacífico, que tem como objetivo combater a crescente influência de Pequim na região. Porém, desafios avizinham-se.

A China quer escrever as regras… Porque iríamos deixar isso acontecer?», perguntou Obama. No entanto, obteve agora a resposta que não queria ouvir: a rejeição por parte do Congresso da agenda comercial proposta, pondo em causa a posição dos EUA juntos dos aliados da região Ásia-Pacífico, que facilitará a expansão da influência chinesa na região. A votação negativa de um projeto-lei vital à aceitação da proposta de Parceria Trans-Pacífica (TPP), que poderá abranger 12 nações da região, ameaça destruir a peça económica central do plano de intervenção americano, que pretende combater a crescente ameaça competitiva da China.

As tensões aumentam, num momento em que Pequim expande a sua presença no Mar do Sul da China e amplia a sua influência económica em toda a orla do Pacífico, às quais acrescem dúvidas dos aliados regionais sobre a liderança dos EUA. «A história do Leste da Ásia e da [região] Ásia-Pacífico está a ser reescrita», afirmou K. Shanmugam, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura, a uma plateia americana em Washington. «Vocês já não estão no assento do motorista neste momento».

Shanmugam encontrou-se com a assessora de Segurança Nacional americana, Susan Rice, sinalizando que a Casa Branca está a tentar aliviar as preocupações dos aliados, enquanto luta para salvar a assinatura da sua iniciativa de comércio. Isto poderá ser difícil, com Obama a enfrentar uma luta desafiadora para convencer dezenas de legisladores democratas a mudar de ideias.

Bates Gill, diretor executivo do Centro de Estudos dos EUA na Universidade de Sydney, considera que o fracasso do TPP irá «afetar negativamente a visão sobre os Estados Unidos nesta parte do mundo». A ameaça de colapso do TPP, que poderá cobrir 40% da economia global, também estimula a proposta alternativa da China, denominada Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico. As autoridades americanas têm insistido que o TPP não se destina a isolar a China, principal rival económico dos EUA. Mas a unidade para o pacto de comércio de grande alcance é amplamente vista como uma tentativa de reafirmar a influência americana, e de aliados-chave como o Japão, num momento em que a China investe na solidificação de acordos e incursões de investimento em toda a Ásia. «O resto do mundo não está parado, eles seguem em frente», sustenta Michael Froman, representante comercial americano, apontando para as negociações sobre acordos comerciais entre a China e a Austrália, bem como entre a China, o Japão e a Coreia do Sul. Este último desacordo em Washington poderá ser visto por Pequim como um sinal de fraqueza, o que limitará as cedências feitas pelos chineses nas questões que dividem as duas maiores potências económicas mundiais, refere uma autoridade americana.

Afastado da liderança
Barack Obama – que tem insistido, repetidamente, em permanecer uma potência no Pacífico – não está disposto a abandonar esta região economicamente dinâmica. Apesar do foco militar colocado no volátil Médio Oriente, a governação Obama está a cumprir a promessa de aumentar gradualmente a presença militar na região Ásia-Pacífico. Mas alguns aliados exigem mais ação.

Este ano, Pequim acelerou a recuperação em grande escala de pequenas ilhas e recifes nas águas contestadas do Mar do Sul da China, deixando Washington a debater-se com a tentativa de obtenção de uma resposta, sem, contudo, provocar um confronto militar. A rejeição de Obama por colegas democratas na Câmara dos Representantes mostrou as deficiências da estratégia utilizada, que pretendia convencê-los dos perigos inerentes à ascensão da China, mais do que a coalizão liderada pelos sindicatos nacionais, que pretendem bloquear o acordo comercial da Casa Branca.

Os legisladores prorrogaram o prazo para uma segunda votação relativa a uma parte fundamental da autoridade de negociação concedida ao Presidente dos Estados Unidos, acordando mais tempo aos apoiantes, essencial ao resgate do projeto-lei. Embora as autoridades dos EUA afirmem que, por enquanto, o acordo de comércio é demasiado importante para que os parceiros asiáticos ponderem ignorar Washington, os especialistas acreditam que esta situação é benéfica a Pequim. Os países asiáticos inseguros poderão aproximar-se da China, fomentando um novo impulso a projetos como o novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, coordenado por Pequim, que muitos aliados dos americanos, incluindo os europeus, decidiram apoiar, apesar das objeções dos Estados Unidos. «Os chineses estão encantados porque os problemas de Obama evidenciam que a América é imprevisível», conclui Dean Cheng, especialista da conservadora Heritage Foundation, em Washington.