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Cooperação é a chave

Apesar da enorme mudança nos últimos 15 anos na forma como as empresas de produção de vestuário, marcas e a indústria em geral lidam com questões laborais e de sustentabilidade, várias problemas sociais e ambientais continuam a afetar a indústria têxtil e vestuário, como revelaram diversos especialistas da indústria presentes no fórum anual da organização não-governamental Made-By. Numa intervenção no âmbito da sustentabilidade, Martin Buttle, consultor sénior da Made-By, assumiu que tem havido uma mudança no comportamento das retalhistas e marcas, que de um posicionamento de «evitar a culpa» quando as coisas correm mal passaram a ter um papel muito mais colaborativo – incluindo ajudar a redesenhar as fábricas e colaborar na formação dos trabalhadores. O diretor da Ethical Trading Initiative, Peter McAllister, concorda que a colaboração é essencial, sublinhando que «os problemas crónicos no Bangladesh exigem colaboração» e que tratar as melhorias lá como «pré-competitivas» é bom tanto para a indústria como para o negócio. Descrevendo como as empresas devem interagir com a sua base de fornecedores, McAllister indicou que «policiar apenas não funciona, tem de ser uma parceria – perceber as suas pressões», que podem incluir corrupção, problemas laborais, de preço ou uma gestão deficiente. Da mesma forma, as melhores diretrizes têm pouca importância se as marcas e retalhistas não conhecerem a sua base de produção, já que quaisquer medidas desses padrões não providenciam uma imagem completa. McAllister afirmou que quando as empresas fazem auditorias, procuram a «ausência de coisas más» – como trabalho infantil ou exploração –, mas é difícil encontrar algo «que não está lá». Os impactos sociais são mais difíceis de quantificar e medir, concorda a diretora da Ethical Expert, Abi Rushton, que acredita que é por isso que tem sido mais fácil para muitas empresas melhorar em vez disso as suas credenciais ambientais. Segundo Rushton, embora algumas empresas estejam dispostas a fazerem a coisa certa, outras precisam de encontrar uma questão de negócio para mudar a forma como trabalham. A chave para isso é «compreender a força de trabalho como um bem capital. Se for bem tratada, traz valor à empresa», explicou Rushton. Gerir a utilização de químicos perigosos A colaboração é igualmente crucial na remoção dos químicos perigosos da cadeia de aprovisionamento, referiu Sandra Meijer, diretora de serviços da cadeia de aprovisionamento no Centro Reach, uma consultora que ajuda as empresas a cumprirem as suas obrigações sob a regulamentação de químicos da UE, o Reach. O atual foco tem estado em grande parte no lado do consumidor e em assegurar que as empresas cumprem a legislação, mas não é suficiente, já que os trabalhadores a montante da cadeia de aprovisionamento continuam a ser expostos a estes químicos perigosos. Embora os ftalatos, que são usados no vestuário de outdoor, sejam proibidos na UE, são usados internacionalmente, e não há muitas iniciativas, excluindo a campanha Detox da Greenpeace, para mudar isso, explicou Meijer. «Esta é uma situação de justiça ambiental, onde é necessário controlar o risco através do controlo da exposição», sustentou. No entanto, referiu, é difícil para as marcas assegurarem que não são usados químicos e é difícil para as marcas individualmente terem a influência necessária para fazer passar o seu ponto de vista. «Quando a indústria trabalha em conjunto, é possível ter um impacto», sublinhou. Embora a cooperação tenha o seu lugar, há alturas em que não interessa quão boas são as intenções de uma empresa – as coisas más acontecem e os governos locais têm de intervir. Em relação ao recente colapso do edifício de fábricas Rana Plaza, em Daca, o diretor de responsabilidade corporativa da G-Star, Frouke Bruinsma, afirmou que «pode ter-se todas as iniciativas do mundo, mas se um edifício cai, o governo tem de intervir». Frida Hok, coordenadora de projeto na ChemSec, um grupo de pressão que trabalha para acabar gradualmente com os químicos perigosos, considera que a lista SIN (sigla em inglês de “substituir agora”) de químicos perigosos tem de ser simplificada para ser mais fácil de utilizar pela indústria têxtil, já que atualmente contém mais de 600 químicos. E enfatizou o papel que os investidores podem ter no encorajamento das marcas para que reduzam a sua utilização de químicos. A mesma ideia foi destacada pela diretora de relações corporativas da WWF, Laila Petri, que, em relação à utilização de água, acredita que dar a conhecer aos investidores as práticas da empresa em relação à água significa mostrar a sua capacidade de funcionar no futuro.