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Cooperar para ganhar

Vem este título a propósito do seminário que o Cenestap promoveu sobre o seu projecto «Rede Têxtil, Cooperar para Ganhar», tendo como tema a cooperação entre as empresas do sector têxtil e do vestuário. Não irei referir aqui os testemunhos e as conclusões deste importante seminário, pois é um assunto a ser tratado na próxima edição do JT. O tema é, no entanto, tão abrangente e tão pertinente que não posso, em consciência, deixar de assumir a responsabilidade de aproveitar este pequeno espaço do JT para referir, como empresário, que é chegado o momento (e um momento é um espaço de tempo muito curto) de decidirmos se queremos dar o salto qualitativo para o sucesso do nosso sector.

É por demais evidente a relativa fragilidade da maioria do nosso tecido empresarial puxado por empresas de vestuário, essencialmente PMEs, esmagadas numa terrível tenaz entre os fortes grupos distribuidores que absorvem as grandes margens e onde o preço continua a ser a variável critica. Num País onde algumas inteligências políticas acharam que o STV estava condenado a ser substituído pelas empresas de novas tecnologias, prejudicando seriamente a nossa imagem, mesmo assim o sector mostrou que tem força e futuro. Continuamos a deter o maior número de empresas da industria transformadora (mais de 10.000), representando 28% do emprego, 17% do respectivo VAB e 20% das exportações, números que nos dão força. Temos empresários com grande experiência e com qualidades que nos asseguraram sucesso no passado mas que não chegam para assegurarem o futuro. É preciso mudança! E essa mudança temos de ser nós empresários a promovê-la.

É neste contexto que surge como um grande desafio a frase cooperar para ganhar, como a base de construção urgente e inevitável da estratégia de sucesso para o nosso sector. E cooperar significa conseguirmos com poucos recursos grandes resultados, sinergias, somando projectos e actividades, sem sobreposições absurdas. A globalidade do mercado obriga a essa atitude, ou seja, cooperar. E esta atitude tem de ser abrangente. Terá de se suportar nos empresários e nas associações, passando pelas universidades e centros tecnológicos e terminando nas instituições publicas, sobretudo DGI, IAPMEI e ICEP, as quais, pelos elevados recursos de que dispõem têm uma acrescida responsabilidade na forma como os utilizam.

Propositadamente deixei para o fim os intervenientes mais importantes: as empresas e as associações que as representam. Começarei pelas associações. Também aqui se vislumbram avanços importantes através do Movimento Têxtil e do Vestuário e pela recém criada Federação. Torna-se urgente e de vital importância uma aproximação entre estas duas entidades e faço um apelo para que os seus dirigentes assumam as responsabilidades de as conduzirem no sentido da cooperação. É motivo de grande satisfação verificar a coincidência de pontos de vista que ressalta nas duas entrevistas apresentadas neste número do JT, cuja importância justifica a sua leitura atenta.

Finalmente referirei as empresas. É fundamental aparecer um novo espirito de grande abertura à cooperação. Tanto vertical, entre empresas complementares no processo produtivo, como horizontal, mesmo entre empresas da mesma área de negócios. E não há que ter medo das grandes empresas, sobretudo das que têm sucesso. Elas deverão constituir as molas dinamizadoras do sector, cooperando com as mais frágeis e mais pequenas mas que lhes darão certamente a dimensão necessária à sustentabilidade do seu sucesso. Quem dita as regras é o mercado.

E finalmente um apelo à participação dos empresários. Não deixem o futuro do sector nas mãos de quem, muitas vezes, nada tem a ver com ele mas ocupa os espaços deixados pela nossa falta de participação.

É chegado o momento da mudança. É preciso agir.

Gaspar Sousa Coutinho