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Coreia do Norte: o próximo destino de sourcing?

Seja legalmente ou não, a Coreia do Norte poderá ter um papel mais visível na produção de vestuário na Ásia. Com o avanço das conversações entre Coreia do Norte e EUA, cada vez mais empresas olham para o país asiático como possível destino alternativo à China.

Nos bastidores dos vários encontros entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, alguns produtores começam a olhar para o país asiático como próximo destino de sourcing de baixo custo. Conversas sobre a desnuclearização da Coreia do Norte e a sua possível reunificação com a Coreia do Sul têm uma profunda importância histórica, ainda que os especialistas afirmem que esta última esteja longe de acontecer.

Porém, o possível levantamento de algumas sanções económicas contra a Coreia de Norte parece estar mais próximo de se tornar realidade. As sanções forem o principal ponto de fricção no encontro de março, em Hanói, entre Donald Trump e Kim Jong-un. Em conferência de imprensa, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Norte, Ri Yong Ho, apelou a uma remoção parcial das sanções «que prejudicam os cidadãos e as condições de vida da nossa população».

A ITV da Coreia do Norte

Colocar um ponto final no bloqueio comercial na indústria têxtil e vestuário teria um impacto imediato na Coreia do Norte, resultando no na sua abertura à indústria e à comercialização. A ITV norte-coreana valia, em 2016, 725 milhões de dólares (aproximadamente 628 milhões de euros), uma parte significativa da economia do país. Mesmo com as sanções em vigor, o sector emprega um número significativo de norte-coreanos, distribuídos por empresas estatais.

Donald Trump e Kim Jong-un

Apesar dos indiscutíveis riscos associados a um possível investimento na Coreia do Norte, trata-se de uma proposta atrativa para muitas empresas, particularmente para as que têm como principais mercados de venda a China, o Japão e a Coreia do Sul. Produzir na Coreia do Norte permitiria seguir a tendência mundial de aproximar o sourcing dos países de venda e simultaneamente fabricar num dos países mais baratos do mundo. «Não podemos negar que há aqui uma grande oportunidade», afirma Gerhard Flatz, diretor-geral da produtora de sportswear KTC, ao Sourcing Journal. «A Coreia do Norte é a África Oriental do futuro, mas com melhor posicionamento, e poderá ter um papel significativo na produção na Ásia, numa altura em que as marcas começam a deslocar a produção», explica.

Na Coreia do Norte, os trabalhadores recebem cerca de metade do valor auferido pela mão de obra chinesa e alguns asseguram que os trabalhadores norte-coreanos produzem mais 30% de vestuário diariamente do que os seus homólogos chineses, maioritariamente devido ao maior número de horas de trabalho, às fracas condições laborais e ao trabalho forçado. Numa altura em que a China se foca na produção de vestuário mais técnico e a escassez de mão de obra aumenta noutros países asiáticos, a Coreia do Norte pode ser a solução para vários problemas da região.

Apesar de quão eticamente questionável possa soar, há uma grande probabilidade de circularem mais artigos produzidos na Coreia do Norte do que é estimado. A cidade chinesa de Dandong, situada na fronteira com a Coreia do Norte, funciona como uma espécie armazém para os produtores chineses de vestuário, que enviam têxteis para fabricas clandestinas na Coreia do Norte, etiquetando os produtos como “made in China” quando estes regressam. Desta forma, economizam cerca de 75% nos custos na produção. «Os chineses usam a mão de obra norte-coreana há vários anos», garante Gerhard Flatz. «Dos relatórios que já li, também a mão de obra passa a fronteira. Os trabalhadores norte-coreanos vão para a China, mas recebem salários significativamente mais baixos do que os chineses e vivem em condições que se assemelham a prisões», revela.

Menos clandestinas são as instalações localizadas na fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, onde empresas de Seoul produzem artigos de vestuário a custos mais reduzidos e os etiquetam como “Made in South Corea”. Contudo, instalações como estas são afetadas pelas tensões entre os dois países.

Estas estruturas – algumas legais, outras não – sugerem que quaisquer empresas norte-coreanas que trabalhassem abertamente com grandes marcas internacionais seriam geridas por produtoras da Coreia do Sul ou da China e, primeiramente, tornar-se-iam parte das suas cadeias de aprovisionamento. «Acho que serão os chineses, e não os sul-coreanos, a tirar proveito da Coreia do Norte. Já existe uma ligação entre a China e a Coreia do Norte. Vamos facilmente ver o aparecimento de uma série de instalações chinesas de propriedade privada com ligações ao governo norte-coreano», admite Gerhard Flatz.

Apesar da constante ameaça da instabilidade política, a maioria das marcas internacionais seria prudente em relação a trabalhar abertamente com empresas da Coreia do Norte, devido ao facto de este ser um país onde as condições de trabalho foram abertamente designadas como de trabalho escravo por organizações humanitárias.  Um relatório da Human Rights Watch, publicado em 2017, refere que o governo norte-coreano aposta sistematicamente em trabalho forçado para manter a sua economia e enquanto os cidadãos são obrigados a trabalhar em empresas definidas pelo governo e teoricamente com direito a um salário, normalmente não são remunerados. «O tratamento de trabalhadores da Coreia do Norte carece do cumprimento de normas internacionais. [Não existe] direito à liberdade de associação ou expressão, há um grande controlo por parte de membros do governo, que limitam a liberdade de movimento e o acesso a informação e os trabalhadores não têm direito a recusar horas extra», indica o diretor geral da KTC.

O único fator potencialmente positivo nesta realidade sombria é que as marcas internacionais poderão dar ao governo norte-coreano o impulso necessário para melhorar condições laborais, já que a maioria das marcas ocidentais apenas trabalha com empresas que vão de encontro a certas normas internacionais.

Outra solução para ultrapassar o estigma em relação ao país é mudar a imagem de todos os produtos fabricados nas duas Coreias, etiquetando-os como “Made in Coreia”, ainda que esta solução pareça uma forma de esconder os problemas relacionados com os direitos dos trabalhadores. Além disso, poderia prejudicar a imagem positiva da produção na Coreia do Sul.