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Coroa da moda africana

A indústria da moda da Nigéria está em transformação e posiciona-se, cada vez mais, como candidata destacada à liderança do sector da moda em África.

Decorreram cinco anos desde que os primeiros designers nigerianos percorreram o palco mundial da moda, na Semana da Moda e Design de Lagos (LFDW). Nessa altura, o mundo começava, lentamente, a aperceber-se do papel importante da Nigéria, a par da África do Sul, cuja dimensão é, ainda, infinitamente superior. No entanto, é a resistência da indústria nigeriana que está a atrair a atenção global – um facto destacado na última edição da semana da moda do país.

Tendo-se focado, inicialmente, no talento doméstico, a LFDW atraiu alguns dos mais prestigiados designers, provenientes de países vizinhos da África Ocidental, como o Senegal e a Costa do Marfim, bem como talentos da diáspora, residentes em Londres, Paris e Nova Iorque. Uma crescente internacionalização do evento que surge num momento interessante.

O cancelamento do evento pan-africano Mercedes Benz Fashion Week Africa, que teria lugar na África do Sul em novembro, aumentou a incerteza face ao calendário do sector da moda do país, criando oportunidades para os rivais do continente. Num contexto mais amplo, a economia da Nigéria superou a da África do Sul no ano passado, auferindo um PIB de 510 mil milhões de dólares (476,15 mil milhões de euros), face a 354 mil milhões de dólares. E, apesar do mercado de vestuário da África do Sul ser 30% a 50% superior ao da Nigéria, o potencial do mercado nigeriano é muito maior, uma vez que a sua população é, pelo menos, três vezes maior.

Paralelamente, o estilo de celebridades de “Nollywood” tem um impacto crescente em todo o continente, com o amadurecimento da indústria cinematográfica nigeriana e a emergência de estrelas pop nacionais, que estão a influenciar o panorama da música africana. Isso tem alimentado as ambições da Nigéria de conquistar uma maior percentagem no florescente mercado de moda africano.

As semanas da moda estão a surgir em diversas partes do continente, desenvolvendo-se, principalmente, nas grandes cidades. Entre os eventos do sector já estabelecidos destacam-se a Swahili Fashion Week, em Dar es Salaam, a Ghana Fashion and Design Week do Gana, em Acra, e a Dakar Fashion Week, a par do Festival International de la Mode Africaine, em Níger. Porém, poucos beneficiam do apelo comercial e criativo da LFDW.

Quase 70 estilistas mostraram as coleções para a primavera-verão 2016, em Lagos, a frenética capital comercial da Nigéria, que alberga 20 milhões de habitantes. O evento anual, que decorre ao longo de quatro dias, atraiu mais de 3.000 pessoas, incluindo imprensa e compradores provenientes de todo o continente africano e europeu. Acolhendo em simultâneo um showroom e várias conferências, o evento está a tornar-se numa força centrífuga num mercado que pretende desenvolver o talento local e o empreendedorismo.

«É ótimo testemunhar este ímpeto de desenvolvimento na indústria local. É um passo importante para sermos reconhecidos como um concorrente relevante da indústria de moda internacional, mas ainda necessitamos de uma força de trabalho mais qualificada, de reabrir as nossas fábricas têxteis [que encerraram na década de 90], e garantir um maior acesso à produção e a financiamento», considera Amaka Osakwe, a designer por trás da marca Maki Oh.

Como finalista do Prémio LVMH em 2014, Osakwe tem atraído as atenções internacionais, com a sua reinvenção sensual dos têxteis tradicionais e uma clientela invejável de celebridades, nas quais se incluem Lupita Nyong’o, Solange Knowles e Michelle Obama, que convidou Osakwe para o evento “Celebração do Design”, organizado na Casa Branca, no ano passado.

Este tem sido um ano difícil para a Nigéria, devido às controversas eleições presidenciais, oscilações do preço do petróleo e ameaça terrorista contínua do grupo extremista Boko Haram. No entanto, o mercado de consumo do país continua a crescer, com a classe média e os cidadãos mais afluentes do país a estimularem o sector de luxo nacional. De acordo com a New World Wealth, em apenas duas das várias cidades nigerianas com mais de um milhão de habitantes – Lagos e a capital Abuja – residem mais de 10.000 milionários.

Para muitos designers nigerianos, o desenvolvimento de infraestruturas é tão importante como a exploração do mercado local. Omoyemi Akerele, fundador da LFDW, acredita que existe, finalmente, uma mudança na mentalidade das entidades governamentais, que até então privilegiavam a indústria do petróleo, começando, gradualmente, a abrir-se a uma economia mais diversificada.

«No ano passado, a Política de Têxteis e Vestuário de Algodão foi aprovada, tendo em vista o reposicionamento dos sectores de algodão, têxteis, vestuário e moda do país. O Banco da Indústria lançou, recentemente, um fundo de 5 milhões de dólares para o sector da moda, que coexiste com um maior compromisso para a criação de polos de produção, tão necessários para o sector», afirma.

As entidades esperam que estas formas de apoio institucional possam ajudar os designers e os empreendedores do sector a progredirem. Embora muitos tenham já investido arduamente na transformação do panorama local e tenham até alcançado notoriedade mundial, as entidades do sector consideram que o reconhecimento da comunidade de negócios nigeriana poderá impulsionar o seu crescimento.

«Sermos capazes de nos mostrarmos e envolvermos no mercado internacional providenciou-nos uma base de clientes e significa que somos mais apreciados em território doméstico. Agora estamos a concentrar-nos na Nigéria e em África», refere Lisa Folawiyo, a designer que lançou a Jewel by Lisa, há uma década, especializada em têxteis Ankara, os tecidos encerados característicos da África Ocidental, amplamente utilizados em todo o continente.

Folawiyo, como outros grandes nomes da LFDW, detém uma loja flagship na cidade. Porém, um desafio enfrentado por todos os designers da Nigéria, independentemente da sua presença no retalho, prende-se com os hábitos de consumo dos seus compatriotas afluentes, que preferem fazer compras no exterior. No Reino Unido, um dos destinos mais procurados, o serviço de devolução de impostos Global Blue destaca os consumidores nigerianos entre os que mais gastam em território britânico. No ano passado, ocupavam o sexto lugar, atrás da China e quatro estados árabes do Golfo, superando a percentagem de compradores provenientes da Rússia e EUA.

Porém, de acordo com Tope Edu, que detém o franchise da loja Ermenegildo Zegna em Lagos, a natureza viajante dos consumidores nigerianos não é um impedimento ao sucesso do retalho local. «Existe aqui uma oportunidade para o serviço ao cliente. No Selfridges, ninguém irá sequer pestanejar se comprar uma peça de 5.000 dólares. Em Lagos, vamos trata-lo como um rei», garante.

«Somos pioneiros do retalho [na Nigéria], pelo que exigirá tempo», afirma Reni Folawiyo, fundadora da Alara, uma concept store de luxo, que vende artigos concebidos por designers nigerianos, como Maki Oh, a par de nomes internacionais, como Stella McCartney, Marni e Self Portrait. «Trata-se de educar os nossos consumidores face à possibilidade de oferecermos paridade de preços com lojas sediadas noutros lugares, ao mesmo tempo que oferecemos uma experiência de compra que não pode ser obtida em nenhum outro destino», acrescenta.

A designer Lanre da Silva Ajayi concorda. «Temos muitos talentos que são apaixonados pela indústria e as marcas de luxo estão a estabelecer espaços comerciais nas nossas áreas de negócios. Necessitamos de tempo e consistência de forma a efetuar uma integração plena», acredita a veterano da LFDW.

Os irmãos Avinash e Kabir Wadhwani inauguraram a loja de lifestyle de luxo Temple Muse em 2008, disponibilizando marcas africanas e internacionais, um mix que atualmente inclui a Carven, Alexander Wang e Givenchy. «Apesar de todos os desafios, existe uma oportunidade e a Nigéria não é exceção», refere Avinash Wadhwani. «A cultura de retalho ainda está a dar os primeiros passos e deve ser cultivada, mas a recompensa será colhida nos próximos anos», sustenta.

Para além do retalho de luxo, os centros comerciais são um destino importante para as marcas de gama média da Nigéria e um ambiente seguro para aquelas de origem mundial, como a Mango, a MAC Cosmetics e a Nike, no acesso ao país. Ao longo dos últimos anos, Ayo e Tayo Amusan do Persianas Group, inauguraram empreendimentos em todo o país, incluindo o The Palms em Lagos, assim como espaços em franchise para a Puma, Hugo Boss e Lacoste.

«Num país de quase 200 milhões de habitantes, apesar das dificuldades da economia, os retalhistas testemunham um crescimento significativo das vendas ano após ano», afirma Ayo. «A Max Fashion, a Mr Price e a Pep Stores disponibilizam artigos de moda a um preço acessível e a população jovem e vibrante do país adora moda, que vai desde o aspiracional ao super-luxo», acrescenta.

Porém, para alguns dos designers mais pequenos da Nigéria, abrir uma loja num qualquer centro comercial é uma hipótese remota – uma realidade que faz do comércio eletrónico um canal cada vez mais importante. No vazio deixado pelos retalhistas online de grande dimensão, como Jumia, Konga e Payporte, encontram-se empresários nigerianos, como Kolade Adeyemo, sediado em Nova Iorque, que lançou o Oxosi.com, uma plataforma que tem como objetivo conectar as marcas africanas contemporâneas, como Maki Oh, Lisa Folawiyo e o design de bolsas Zashadu, disponibilizando-as junto do consumidor global.

«No futuro, a Nigéria irá tornar-se o principal mercado de comércio eletrónico de África», considera Mel Ogundeyi, um consultor de gestão que lançou o FashPa.com em 2013, no qual concentra marcas europeias e nigerianas de luxo. E, acrescenta, «antecipo que uma percentagem significativa desse crescimento seja impulsionado pela categoria de moda».