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Coronavírus põe ITV em risco

A economia mundial e particularmente a indústria têxtil e de vestuário (ITV) dependem de uma rede complexa e globalizada de cadeias de aprovisionamento. Contudo, estas interações parecem agora estar na corda bamba, face ao surto de coronavírus, cujo prejuízo para o crescimento global poderá atingir os 145 mil milhões de euros.

No dia 2 de janeiro, foi anunciada a presença de 41 pacientes no hospital da cidade chinesa de Wuhan, infetados com um novo tipo de coronavírus. Este número ascendeu, ao dia de hoje, a mais de 40 mil infetados e cerca de 910 mortos. Atualmente, já foram reportados casos de infeção na Tailândia, Hong Kong, EUA, Taiwan, Austrália, Macau, Singapura, Coreia do Sul, Malásia, Japão, França, Espanha, Reino Unido, Canadá, Vietname, Nepal, Camboja, Alemanha e Emirados Árabes Unidos.

Os coronavírus causam infeções respiratórias em seres humanos e animais e são transmitidos através da tosse, espirro ou contacto físico. Alguns destes vírus resultam apenas numa constipação, enquanto outros podem gerar doenças respiratórias mais graves, como a pneumonia atípica, ou síndrome respiratória aguda grave (SARS), que entre 2002 e 2003 matou mais de 800 pessoas.

Nos seus esforços para travar a expansão do surto, as autoridades chinesas puseram Wuhan, na província de Hubei – a mais populosa cidade da China central – sob quarentena, impedindo que os cidadãos abandonem a região. Outras medidas de precaução incluem o encerramento do transporte em algumas cidades e a realização de exames nos principais centros de transporte, assim como o prolongamento do feriado do Ano Novo Lunar (25 de janeiro) até ao dia 10 de fevereiro, o que significa que algumas produtoras de vestuário permanecem encerradas. Por outro lado, a British Airways tornou-se a primeira companhia aérea a suspender todos os voos de e para a China, acompanhando um alerta do Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha e dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, na sigla original) contra todas as viagens não essenciais à China.

O país é um dos maiores mercados de automóveis e semicondutores, o maior impulsionador do turismo internacional e, acima de tudo, exportador líder de têxteis e vestuário. De acordo com as estimativas de Warwick McKibbin, professor de economia da Universidade Nacional da Austrália, o impacto global deste novo surto pode tornar-se três a quatro vezes maior do que a epidemia de SARS, que resultou em perdas de 40 mil milhões de dólares (36,36 mil milhões de euros) a nível mundial – o que significa que agora a economia global poderá estar prestes a sofrer um prejuízo de 160 mil milhões de dólares (145 mil milhões de euros).

Poliéster em alerta

Susan Anderson, analista do banco de investimentos B. Riley, acredita que os retalhistas de calçado e vestuário irão suportar um impacto mais negativo, comparativamente às empresas de viagens e restauração. A tendência mantém-se nas previsões da Moody’s, antecipando que «o surto também terá um efeito perturbador nas cadeias de aprovisionamento globais. As empresas internacionais que operam na área afetada poderão enfrentar perdas de faturação em resultado da evacuação dos trabalhadores». Por outro lado, «aquelas que operam fora da China, mas que mantém uma forte dependência da produção do país, irão estar sob pressão devido às possíveis disrupções na cadeia de aprovisionamento, provocando atrasos temporários», acrescenta.

Apesar de Wuhan não estar ocupada com empresas de fiação, tecelagem ou confeção, a província de Hubei tem um papel primordial na ligação da China às regiões de produção ocidentais. «Uma paragem prolongada do transporte significa que não serão enviadas para o interior fibras ou tecidos produzidos nas principais bases de produção das províncias costeiras chinesas», da mesma forma que «a entrega de vestuário ou produtos têxteis acabados para outras partes da China, bem como as exportações, poderão parar», argumenta Salmon Lee, consultor principal da Wood Mackenzie.

Entre as fibras têxteis em estado de alerta está o poliéster. «A produção de poliéster provavelmente cairá este mês. Este efeito poderá prolongar-se ainda mais se a epidemia não for controlada em breve. A crise de SARS em 2003 derrubou a indústria de poliéster chinesa durante três meses», explica Lee. Em contrapartida, o aumento da procura por artigos de saúde e equipamentos de proteção provavelmente beneficiará os produtores de fibras de polipropileno.

Marcas emigram da China

Face ao déjà vu económico pelo qual atravessa a China atualmente, várias marcas e retalhistas já começaram a encerrar lojas e a procurar outros mercados de aprovisionamento, como o Vietname, Myanmar e Turquia. Aliás, Mustafa Gultepe, presidente da Associação de Exportadores de Vestuário de Istambul (IHKIB, na sigla original) admite que «as expectativas para um aumento da procura [pela Turquia] são elevadas. Os pedidos de abril e maio irão registar uma subida significativa».

Neste sentido, a Nike já fechou temporariamente metade das suas lojas e reduziu o horário de atividade daquelas que continuam abertas. «No curto prazo, esperamos que a situação tenha um impacto material nas nossas operações na Grande China», refere a empresa em comunicado.

O anúncio segue-se à notícia de que a Ralph Lauren continua a monitorizar o impacto do encerramento de metade das suas lojas sediadas na China, devido ao surto do coronavírus. Também a Levi Strauss adotou a mesma postura, depois do diretor financeiro, Harmit Singh, confirmar que as previsões de vendas para o primeiro trimestre de 2020 provavelmente não corresponderão à realidade. «Apesar de anteciparmos um trimestre forte para o total de vendas da empresa, prevemos que o crescimento das receitas se situe abaixo da nossa orientação para o ano inteiro, refletindo um declínio previsível do mercado grossista dos EUA, assim como o risco provocado pelo coronavírus».