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Corrida ao algodão abranda

O algodão impõe-se em território positivo, desafiando as tendências decrescente do sector dos produtos de origem primária. Mais especificamente, os futuros do algodão negociados no Serviço de Imigração e Controlo Aduaneiro dos Estados Unidos (ICE). O valor de referência aumentou 5,2% desde o início do ano.

Neste contexto, coloca-se a questão sobre os motivos que impulsionaram a subida do valor dos contratos futuros de algodão americanos este ano. A China, o maior importador de algodão, reduziu drasticamente as suas aquisições este ano, ao mesmo tempo que anuncia vendas massivas dos seus stocks estatais, os maiores do mundo.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o monitor de algodão mais consultado, elevou a sua estimativa para os stocks globais de algodão e diminuiu a sua previsão para a procura na China, o maior consumidor do mundo. Em acréscimo, a concorrência das fibras sintéticas, como o poliéster, está a aumentar, à medida que o preço do petróleo, matéria-prima essencial ao fabrico de diversos têxteis sintéticos, diminui e parece destinado a permanecer assim no médio prazo.

As importações de algodão da China caíram 26%, para 161.775 toneladas em junho, em relação ao mesmo mês do ano anterior, de acordo com dados alfandegários. Isto conduziu a um declínio de 33% até ao momento, com 933.779 toneladas importadas no primeiro semestre do ano. As perspetivas para as importações chinesas no segundo semestre do ano aparentam uma baixa semelhante, com os preços internacionais ainda demasiado elevados em relação ao aprovisionamento interno e a maior parte da sua quota de importação já consumida.

As unidades chinesas estão autorizadas a importar 894 mil toneladas de algodão por ano. As compras que excedem esse valor ou as importações exteriores ao sistema de quotas estão sujeitas a um imposto de importação de 40%. As ações governamentais que procuram incentivar o consumo de algodão do país através da venda de reservas do estado impõem-se como um sinal da diminuição das importações chinesas. Pequim planeia vender 1 milhão de toneladas de stocks estatais até ao final de agosto, com o objetivo de reduzir gradualmente as enormes reservas de cerca de 11 milhões de toneladas, que foram constituídas através da compra de até 80% da produção nacional, entre 2011 e 2013, como medida de apoio aos agricultores.Porém, a primeira semana de vendas atraiu compradores para apenas 8,8% do algodão em oferta, com a fibra mais barata, da temporada de 2011, a apresentar uma procura superior.

Início frio
O mau resultado das primeiras vendas, na semana encerrada a 17 de julho, poderá conduzir a uma diminuição dos preços, a fim de impulsionar o volume de vendas, ou poderá significar que a procura é de tal forma fraca que até mesmo o algodão barato não atrai os fabricantes. Em ambos os casos, é um sinal negativo para a procura de algodão chinês, que se tem refletido no principal contrato de futuros domésticos da Zhengzhou Commodity Exchange (ZCE).

O valor de referência caiu 4% desde o início do ano, para perto de 2.026 dólares a tonelada. Embora este valor esteja 50% acima do contrato ICE equivalente, o diferencial é reduzido quando os custos fiscais e de transporte de importação são adicionados ao preço americano. Com os preços chineses tendencialmente baixos devido às vendas de stocks, o algodão internacional deverá ser pouco competitivo face ao abastecimento interno no segundo semestre do ano. As estimativas do USDA preveem que as importações chinesas deverão cair para 5,75 milhões de fardos (1,25 milhões de toneladas) na temporada 2015/16, os valores mais baixos desde a temporada 2002/03, representando uma diminuição de 30% face a 2014/15.

Dado que a China engloba mais do que os três maiores importadores combinados, um declínio de tal magnitude, quando os stocks globais continuam fortes, terá, certamente, um impacto negativo sobre os preços. Os futuros de algodão da ICE têm-se apresentado mais robustos até ao momento, face aos preços praticados no resto do mundo, devido às exportações dos EUA para a China, que têm desafiado a tendência global decrescente, com um aumento de 11%, para 436.542 toneladas, nos primeiros seis meses de 2015. Contudo, se as importações chinesas continuarem a cair no segundo semestre de 2015 e os exportadores americanos não forem poupados – como têm sido até agora –, pelo que os contratos futuros de algodão da ICE deverão ser tendencialmente mais fracos.