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Corrupção vs.desenvolvimento

Existe um consenso crescente entre os profissionais do sector, académicos, governos e instituições internacionais que a corrupção é o maior impedimento ao desenvolvimento económico. Francamente, pode-se ir ainda mais longe: a corrupção é o único impedimento ao desenvolvimento económico. Não existe nenhuma fórmula secreta para o desenvolvimento económico. No entanto, o oposto é verdadeiro. O desenvolvimento económico é um processo natural, exigindo muito pouco apoio externo. Cada país tem a sua parcela de empreendedores naturais, indivíduos que vêem um nicho rentável e têm a habilidade, coragem e capital para desenvolverem esse nicho num negócio viável. Cada nova operação cria um nicho para outras empresas. Por si só, o crescimento económico é um processo natural exponencial. Infelizmente o crescimento económico é raramente justo. Os benefícios do desenvolvimento económico são raramente ou nunca distribuídos igualmente. Inevitavelmente, alguns beneficiam mais do que outros. Paralelamente, a velocidade do desenvolvimento económico pode diferir dramaticamente de uma região para outra e de um grupo étnico para outro. Alguns locais e algumas pessoas são melhores que outros. Por exemplo, a China tem-se desenvolvido rapidamente, porque a China está repleta de chineses. No entanto, apesar das desigualdades, todos beneficiam pelo menos em algum grau. A riqueza é criada. As receitas nacionais crescem. E a economia avança. Não devemos desperdiçar o nosso tempo tentando determinar como fazer avançar o desenvolvimento económico, porque o desenvolvimento económico não é um processo mecânico que deva ser construído. Pelo contrário, devemos tentar determinar onde e porquê o desenvolvimento não está a ocorrer – o que está a impedir o desenvolvimento – porque o desenvolvimento económico é um processo orgânico que, se permitido, ocorrerá naturalmente. Esse obstáculo é, invariavelmente, a corrupção. Por exemplo, houve uma altura em que a importação de um contentor de mercadorias através de Tanjug Priok (o porto de Jacarta) exigia um formulário com 37 assinaturas que custava cerca de 250 dólares e que demorava cerca de duas semanas. Em 1985, o problema desapareceu quando o Governo da Indonésia entregou o processo de desalfandegamento à SGS, que rapidamente transformou o Serviço de Alfândegas da Indonésia numa das operações mais eficientes do mundo, aumentando significativamente as receitas legítimas do Governo da Indonésia. Este estado de coisas continuou até 1997, quando o director geral de Alfândegas e Impostos se casou com uma parente distante do presidente Suharto, resultando no despedimento da SGS. O caso dos serviços aduaneiros da Indonésia não é de modo algum excepcional, particularmente quando a governação é um negócio de família. No entanto, a corrupção é mais do que apenas passar dinheiro. A corrupção é a apropriação indevida de recursos para obter ganhos pessoais. As palavras de ordem são apropriação indevida e recursos. A apropriação indevida não precisa ser o roubo e os recursos não precisam de ser tangíveis. Em muitos países tão distantes e tão diferentes como a Índia e a República Dominicana, o roubo de energia é endémico, chegando muitas vezes a representar 50% do consumo total. Os ladrões não são os proprietários de empresas nem políticos desonestos. Na verdade, eles vêm do nível mais baixo da sociedade: são pessoas que simplesmente não têm dinheiro para pagar a electricidade. Porque permite o governo que isto continue? Esta é outra situação em que o roubo se torna corrupção. Ambos os países têm governos eleitos democraticamente. Os ladrões de electricidade não têm nem influência nem poder. No entanto, eles votam e nenhum governo eleito democraticamente quer alienar um grande bloco de eleitores, particularmente quando o custo do benefício é suportado por outrem. Quem perde? A resposta é: quase toda a gente. Não é por acaso que o custo da energia eléctrica na Índia e na República Dominicana – pelo menos para aqueles que a pagam – está entre os mais altos do mundo. E não é coincidência que ambos estes países se encontram com dificuldades para atrair investimentos estrangeiros no sector da energia eléctrica. Quanto maior a corrupção, maior o custo e maior o número de pessoas que têm de pagar a conta por esse custo. Na nossa indústria, os dois países que aparecem com mais frequência no fundo da lista da corrupção são o Bangladesh (139.º) e o Camboja (158.º). Ambos são fornecedores de vestuário muito importantes. Os clientes trabalham no Bangladesh e no Camboja, porque o custo adicional da corrupção é mais do que compensado pelos baixos salários pagos aos trabalhadores. Não é por acaso que o Bangladesh e o Camboja, dois países com o maior índice de corrupção, são também os dois países que pagam salários mais baixos. A corrupção é simplesmente uma transferência de riqueza de muitos, no fundo, para poucos, no topo. A triste realidade é que despejar ajuda externa em grande escala ou empréstimos de dinheiro em condições favoráveis numa sociedade corrupta, na esperança de encorajar o desenvolvimento económico, é o equivalente a apoiar o vício de um toxicodependente. Em ambos os casos só ganham os traficantes, enquanto os utilizadores ficam cada vez mais presos ao seu vício.