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Cortadoria põe pele de coelho na moda

Depois de oito anos de investigação, a Cortadoria Nacional de Pêlo criou um novo processo que permite aproveitar a pele de coelho e daí produzir um material alternativo e sustentável ao couro tradicional, que está agora a chegar ao mercado.

Nuno Oliveira Figueiredo

O conceito é completamente novo, garante Nuno Oliveira Figueiredo, administrador da Cortadoria Nacional de Pêlo. «A pele de coelho que existe é com pelo. Nós usamos o pelo para os chapéus e produzimos couro de coelho, que não existia», explica ao Jornal Têxtil.

O objetivo primordial era encontrar uma forma de aproveitar a pele do coelho, que era um desperdício decorrente da atividade da empresa, que produz o pelo usado para fazer o feltro aplicado nos chapéus – dois terços da produção da Cortadoria têm como destino a Fepsa, que faz parte do grupo, sendo a restante encaminhada para mercados como os EUA, Austrália e países da América do Sul. «Juntámos pessoas de áreas diferentes e a pergunta foi esta: venham cá, vejam connosco o que estamos a fazer e digam-nos se não há aqui qualquer coisa que possamos mudar, se não há uma maneira mais inteligente de fazer a mesma coisa. Começaram a surgir ideias e aproveitar a pele e o pelo era uma ideia espetacular», revela Nuno Oliveira Figueiredo.

O primeiro passo neste processo de desenvolvimento, que envolveu outras entidades, incluindo o CTIC – Centro Tecnológico das Indústrias do Couro e o INEGI – Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial, foi mudar o processo produtivo da Cortadoria para conseguir obter o pelo sem danificar a pele.

[©Cortadoria Nacional de Pêlo]
«Achámos que tínhamos de dar o passo a seguir, que era curtir a pele, e estamos a utilizar os processos mais inovadores, mais sustentáveis e ecologicamente mais limpos», salienta o administrador, que acrescenta que «desde o início não temos sulfuretos nem crómio». As vantagens ecológicas, além de implicar o aproveitamento do que seria um subproduto do pelo, somam ainda a biodegradabilidade do material final. «Tem uma carga poluente bastante reduzida comparado com aquilo que é o tradicional da indústria», sublinha.

Aplicações diversas

A avançar na comercialização, este novo material, pela sua dimensão mais reduzida, pode ser aplicado em pequena marroquinaria, relojoaria e também na moda, em apontamentos ou com recurso a técnicas como o patchwork. «Há inserções que podem ser feitas em couro, como cotoveleiras, e pode ser lavável num programa de lãs numa máquina de lavar normal, como as que temos em casa», afirma Nuno Oliveira Figueiredo. O material destaca-se ainda pela sua resistência. «Temos a grande vantagem de ser uma pele que tem uma espessura fina, mas que é bastante resistente», assegura.

[©Cortadoria Nacional de Pêlo]
E numa altura em que a escassez de matérias-primas é um tema muito debatido, a pele de coelho pode ter ainda outra mais-valia, lembra o administrador. «Toda a cadeia de valor do produto está na Europa, porque o coelho é um ícone da gastronomia mediterrânica. Todos os criadores de coelho estão cá, o consumo é feito cá, a produção que sobra da pele é utilizada também cá. É uma utilização completa por parte da Cortadoria do pelo e da pele – até chegar ao couro, é tudo valor acrescentado que fica na Europa», realça.

Argumentos que têm convencido os clientes, sobretudo os que atuam em segmentos mais altos. «Temos tido uma ótima recetividade por parte das pessoas com quem falamos, gostam do projeto», reconhece Nuno Oliveira Figueiredo, embora a Cortadoria Leather seja atualmente o equivalente a «uma start-up, enxertada numa empresa de 78 anos, que está naquela fase em que tem que potenciar vendas» e, por isso, está a colocar «um grande esforço na área comercial».

Regresso do chapéu alimenta crescimento

Com quase oito décadas de atividade, a Cortadoria Nacional de Pêlo não pretende, de resto, deixar a inovação de lado. «Além das operações, os próprios equipamentos são objeto de iniciativas de inovação», aponta Nuno Oliveira Figueiredo. «Temos sido nós, com engenharia portuguesa, a desenvolver os nossos próprios equipamentos. Agora que temos essa parte estabilizada, temos liderança no mercado, temos qualidade sustentada e bastante acima dos nossos concorrentes, entrámos numa nova fase de inovação, um bocadinho mais disruptiva e fora daquilo que já tínhamos, num estádio de maturidade já bastante interessante» acrescenta. «A inovação é o caminho, não há dúvida. É com inovação que conseguimos melhorias, produtos novos, evoluir», resume.

[©Cortadoria Nacional de Pêlo]
Depois de uma queda nas vendas em 2020 face a 2019 (cerca de 20% a 25% no volume de negócios conjunto da Fepsa e da Cortadoria Nacional de Pêlo, que em 2019 tinha rondado os 30 milhões de euros), 2021 tem sido um ano de recuperação para os níveis de há dois anos. «Estamos sobrecarregados de encomendas desde o início deste ano», admite o administrador da Cortadoria Nacional de Pêlo, que atribui este dinamismo à tendência do mercado. «Noto um otimismo no mercado. O regresso do chapéu de feltro acho que é notório, por exemplo nos Estados Unidos, em gente mais nova, com 20 e tal anos, que começam outra vez a usar chapéu de feltro. Cria identidade nas pessoas, nas culturas, nas religiões. É um adereço que as pessoas valorizam e vejo crescimento no mercado e otimismo nos players», confessa.