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Costurar o terror

Há peças de vestuário com o branding do Estado Islâmico à venda em países como a Turquia, contrabandeadas nos EUA e à venda online. Segundo os analistas, este merchandising do terrorismo está a alimentar a máquina de morte do grupo, encaminhando jovens simpatizantes para as fileiras da jihad violenta.

O design é simples. Uma bandeira preta com uma linha de texto em árabe e, em baixo, um círculo com mais texto no seu interior. Todavia, o que poderá ser um emblema sem sentido para alguns, para outros está imbuído de significado.

As palavras são a declaração de fé no Islão. Nos últimos dois anos, este símbolo religioso foi pirateado e politizado por um grupo terrorista que tem como missão propagar o horror em t-shirts, camisolas encapuzadas, jumpsuits e outras peças de vestuário.

Em termos de reconhecimento da marca, a Shahada (o texto) e o selo do profeta (o design circular) foram praticamente apropriados como bandeira pelo Estado Islâmico. Uma bandeira que assinala checkpoints do ISIS, presente em vídeos de propaganda e até mesmo em alguns dos seus equipamentos militares.

Este design, como qualquer logótipo, visa também o alcance de um público mais vasto. As variações podem ser encontradas no vestuário das crianças nos vídeos de propaganda ou nos uniformes militares numa revista escrita em inglês, a Dabiq.

Os homens e (com menos frequência) mulheres que cometem atos terroristas em nome do ISIS são frequentemente encontrados depois de terem posado para fotografias com o mesmo tipo de bandanas, bandeiras e roupas. A propagação da mensagem e a capacidade de recrutamento de jovens para a causa tem vindo a levantar questões sobre como estes novos elementos poderão passar da curiosidade à ação. O desenvolvimento e alcance da “marca” ISIS é uma parte central da problemática.

Um logótipo num posto de controlo serve para um propósito militar, mas um logótipo usado num comunicado tem que ver com o branding. E, como acontece com a maioria das marcas, mais cedo ou mais tarde, alguém vai acabar por estampá-lo numa t-shirt.

Ao longo dos últimos dois anos, as peças encapuzadas e as t-shirts com o logo do ISIS surgiram em lojas em Istambul e no sul da Turquia, num mercado libanês e em várias lojas online.

Em agosto, um homem foi preso por acusações de terrorismo em Espanha, na sequência da comercialização de vestuário infantil com o branding do ISIS e camisolas estampadas que descreviam o assassinato do britânico Alan Henning pelo “Jihadi John”. Anéis com o mesmo logótipo foram encontrados no Médio Oriente e roupas e acessórios podem ser vistos e encomendados em websites de fãs do ISIS.

Todavia, este não é o primeiro caso do género. O Ku Klux Klan, o IRA, o Hezbollah, a Al-Qaeda e vários grupos neonazis fizeram a sua estreia na moda muito antes do ISIS. Mas desta vez, dizem os especialistas, o cenário é diferente.

“Jihadista cool”

Os analistas falam do impacto da imagem de um “jihadista cool”, com homens jovens de barba grossa, guerreiros destemidos vestidos com igual indumentária, em preto, que lutam contra o opressor. «Há uma problemática em torno do designado “jihadista cool”», que pode ser agravada por este tipo de vestuário, que pode ser um fator que contribua para as decisões de pessoas mais jovens, em particular, para se envolverem em atividades terroristas», explicou a especialista em antiterrorismo Fiona de Londras ao The Business of Fashion (BoF).

Não obstante, nem todos têm acesso à indumentária do Estado Islâmico. «A roupa que se vê na Síria é feita para o pessoal do ISIS, portanto, ou as linhas de produção estão a ser assumidas pelo Estado Islâmico ou há um acordo com uma fábrica de vestuário», afirmou o investigador de extremismo Aymenn Jawad Al-Tamimi. Algo que acabou por criar uma lacuna no mercado para empreendedores que procuram explorar o interesse de um aspirante com peças de inspiração jihadista.

No final de 2013, Al-Tamimi encontrou roupa com o branding do ISIS nos mercados de Trípoli, no Líbia. Desapareceram quando as autoridades as confiscaram, mas novos artigos foram descobertos recentemente no sul da Turquia. Ali, as peças tinham um ponto de preço baixo seriam destinadas ao mercado local e, possivelmente, a estamparia teria sido feita localmente.

Neste tipo de vestuário politicamente motivado, a localização tem particular peso. O BoF encontrou com facilidade t-shirts em Beirute, mas os mesmos artigos são também contrabandeados nos EUA. No entanto, para os apoiantes e aspirantes a combatentes do ISIS, as operações online são a chave – tal como acontece com a maior parte da propaganda do Estado Islâmico.

A loja online da jihad

Abdullah, um jovem com apenas 21 anos, desempenhou um papel central na propagação da mensagem do grupo online. Apesar de já não ser um extremista, no auge do seu percurso transviado tinha perto de 11.000 seguidores no Twitter e, embora esteja impedido de viajar para a Síria, pregou a mensagem da jihad violenta do ISIS no Twitter, na televisão e em t-shirts.

Abdullah revelou ao BoF que ele e outros três “irmãos” – entre eles o jovem americano Ali Shukri Amin, que está atualmente preso sob a acusação de terrorismo – abriram, no final de 2013, uma loja online de streetwear de estilo jihadista, a “Islamica Online”. As contas do site e PayPal foram, entretanto, fechadas, mas algumas das peças ainda circulam no Twitter e no Facebook. «Quando começámos a fazer isto em 2013, o ISIS ainda não era um grupo terrorista. Por isso estávamos a apoiar a insurgência», disse Abdullah.

A conexão que os quatro adolescentes crescidos no Ocidente têm com a insurgência violenta é ténue, mas os jovens em busca de identidade são presas fáceis para as organizações de culto, consideram os investigadores.

Questões legais

A legalidade de fazer, vender e usar roupas com branding do ISIS está dependente das leis locais e o enquadramento legal para os conteúdos digitais não é um tema de trato fácil em muitas regiões.

No caso do vestuário vendido via Facebook, por exemplo, a rede social consegue fechar as páginas. No Reino Unido, o Terrorism Act 2000 proíbe o uso de vestuário que desperte a suspeita de que alguém seja membro ou apoiante de uma organização assinalada. «A nossa abordagem é intervir mais cedo nesses processos de radicalização ou atividade, a fim de dissipá-los», explicou um perito legal de Londres. «O governo argumenta que, embora esta seja uma interferência com a liberdade de expressão, é justificável e não excede os limites do que é necessário, pois a polícia age com discrição», acrescentou.

Não obstante, em alguns casos, as pessoas conhecem a lei e os seus direitos tão bem que são capazes de atuar nestes territórios e ainda assim respeitar todas as leis. Abdullah advoga que na Islamica Online soube manter esse equilíbrio na roupa que produzia e na forma como a publicitava. «Quisemos ser discretos sobre o assunto. Não quisemos ser demasiado explícitos ou iriamos acabar na prisão. Fomos cautelosos», referiu.

Os caminhos para a jihad violenta na Síria e no Iraque, ou nas cidades onde as células do Estado Islâmico tenham cometido atos terroristas nos últimos meses, como Paris e Bruxelas, provavelmente não começaram com uma t-shirt. «Nunca vi roupas a surgir com frases do género “foi assim que tudo começou”», reonhece Al-Tamimi, que entretanto se recordou de um incidente de junho de 2014, em Cardiff, País de Gales. À data, um grupo de simpatizantes do ISIS e alguns membros levantaram bandeiras e hambúrgueres num parque, embainhando camisolas com o logotipo. «Cardiff foi um desses epicentros de grupos de pessoas na Grã-Bretanha que realmente se juntaram ao Estado Islâmico», observa o investigador.

Os analistas sugerem que a viagem para a jihad motivada pela moda do ISIS normalmente começa ao nível social, com um sentimento de pertença. E as t-shirts, bandanas ou emblemas podem assumir-se como expressão dessa pertença.