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Cotec quer empresas a liderar Indústria 4.0

Na 16.ª Cotec Innovation Summit, o apelo foi direcionado para a liderança da revolução 4.0. A somar às intervenções de especialistas, Marcelo Rebelo de Sousa deu conta, no encerramento, de seis grandes desafios para a sociedade portuguesa e elogiou Paulo Nunes de Almeida como um dos visionários neste caminho.

Isabel Furtado

Liderar, e não seguir, a Indústria 4.0 esteve no centro das comunicações na 16.ª Cotec Innovation Summit, que decorreu hoje em Vila Nova de Famalicão. «Temos empresas portuguesas que poderão liderar nesta área. Fizemos um estudo que mostra que um quarto das empresas já está a trabalhar, e bem, na indústria 4.0. Temos que fazer com que Portugal saia de uma situação moderada em inovação e pormo-nos no pelotão da frente da Europa. Temos uma indústria excelente e passamos a ser uns fortes inovadores. Temos as condições todas para que Portugal seja um exemplo. Portanto, a liderança faz todo o sentido na indústria portuguesa», afirmou Isabel Furtado, presidente da Cotec, ao Portugal Têxtil.

A liderança, contudo, implica a preparação de todas as empresas e da própria sociedade. «A mudança vai acontecer mais depressa e afeta todos os sectores e todas as funções profissionais. Está em causa a adaptação da sociedade», sublinhou Isabel Furtado no seu discurso, que se focou na necessidade de adaptar a educação e aproximar a escola das empresas.

Foi também este um dos desafios apontados pelo Presidente da República e presidente honorário da Cotec, Marcelo Rebelo de Sousa, que antes, contudo, homenageou Paulo Nunes de Almeida, presidente da fundação AEP, que faleceu na semana passada. «Antes ainda de se falar na indústria 4.0 e no aguilhão da inovação permanente, exercitava essa e preparava aquela no reviver do têxtil em Portugal», afirmou, passando em revista o percurso do empresário e dirigente associativo. «Promovia convergências, aplanava suscetibilidades, moderava egocentrismos, estabelecia pontes, valorizava instituições», destacou.

Quanto aos desafios da Indústria 4.0, Marcelo Rebelo de Sousa escolheu seis, incluindo a necessidade de reconhecer as mudanças no país. «O desafio é varrermos ideias feitas sobre localizações de criação de riqueza e reconhecermos os novos polos e o que se pode potenciar daqueles já existentes com novas valências produtivas», referiu.

Marcelo Rebelo de Sousa

Novas qualificações, um sistema educativo e uma administração central, regional e local que acompanhe o tecido empresarial, a criação de convergências e a necessidade de não parar os processos com mudanças de governo ou legislatura foram outros dos reptos lançados por Marcelo Rebelo de Sousa, que acredita que «dispomos hoje de condições para que a nossa indústria possa ter um sucesso inimaginável há poucos anos».

Como liderar a indústria 4.0?

Durante o dia, diversas sessões paralelas contaram com especialistas internacionais que abordaram temas como a transformação do mercado de trabalho, o ultrapassar do chamado “vale da morte” da inovação e os diversos aspetos sobre a indústria 4.0.

Anand Vergulekar, professor na Insead e com um vasto currículo em empresas como a Lego, a Sony e a Samsung, fez uma apresentação convincente sobre as vantagens do digital para vender mais, para mais geografias e com maior valor acrescentado. E deu o exemplo do Japão, que falhou a primeira revolução industrial mas dedicou-se a estar na frente a partir daí, para mostrar como liderar a transformação digital é fundamental para as empresas e os países que querem, mais do que sobreviver, prosperar. «A não ser que Portugal tenha em conta o que é preciso fazer, vai haver uma divergência digital – há empresas e países que vão avançar e países e empresas que vão desaparecer», apontou, dando como exemplo a Kodak.

Anand Vengurlekas

E, prosseguiu, apesar dos desafios, as oportunidades promovidas pela globalização também se amontoam. «Antes havia certos produtos que vinham de certos países e culturas. Essa já não é a realidade», assegurou, dando como exemplo a Spotify, que vem da Suécia, um país onde não há grande reconhecimento da cultura da música, pelo que «há o potencial para todos vocês de liderarem a indústria 4.0». Desde que «não pensem no que os outros estão a fazer, vocês têm a oportunidade de criarem o vosso próprio Spotify», desafiou. E isso é válido também para quem trabalha no B2B, desde que não esteja alheado do consumidor. «O desafio não é pegar num projeto e passar para o digital, mas encontrar uma forma de adicionar valor», indicou. E exemplificou: «mudar o menu de um restaurante para um iPad não é revolucionar, é gastar dinheiro a mudar um processo que é eficiente em papel».

Entre os conselhos que deixou, o primeiro foi a utilização do Design Thinking para evitar ser uma commodity, usando o mapeamento da “jornada do consumidor” para ser capaz de criar valor e inovar de forma disruptiva. Mas, acima de tudo, «se não tiverem uma presença online, nem sequer estão na corrida», garantiu.

Neste debate da indústria 4.0, o painel dedicado ao mercado único digital foi crítico da aplicação da legislação – segundo Stefan Moritz, diretor-geral da European Entrepeneurs CEA-PME, «a regulamentação é necessária, mas o lançamento desta regulamentação não foi bem feito» –, mas avançou com diversas iniciativas que estão a decorrer em diferentes países para levar as PME mais longe. Jerome Finlayson, diretor do projeto de indústria 4.0 no Scottish Manufacturing Advisory Service, deu o exemplo escocês, que está a fazer diagnósticos e planos de desenvolvimento individuais para a indústria 4.0 para as PMEs. «Hoje temos 73 diagnósticos e no final do ano teremos 200», indicou. Já Maria Boquete, diretora de programa da Agência Galega de Inovação, revelou a existência de um espaço próprio para as empresas tirarem dúvidas. «As PME’s querem digitalizar o seu modelo de negócio, mas não sabem como o fazer», justificou.

E para Portugal, a indústria 4.0 é uma oportunidade ou um desafio? Entrevistas realizadas por Roland Kupers, investigador no Instituto de Estudos Avançados na Universidade de Amesterdão, a empresas portuguesas revelaram que muitos sentem ainda que têm de implementar os princípios da terceira revolução industrial antes de avançar para a quarta. «Uma das empresas afirmou “eu estaria contente se estivesse na terceira revolução industrial”», contou. Kupers apontou como pontos essenciais a requalificação das pessoas e a necessidade de trabalhar em rede, mas também a meta de que a inovação responda aos problemas do mundo, sendo que muitos empresários portugueses se referiram aos objetivos de sustentabilidade das Nações Unidas. «A indústria 4.0 é sobre tecnologia, mas o que a pode tornar um sucesso é um foco sistémico no desenvolvimento humano, nos objetivos ambientais e o apoio político», resumiu.

Rui Borrego, Jerome Finlayson, Maria Boquete e Stefan Mortitz

Já José Carlos Caldeira, administrador do Inesc-Tec, destacou os avanços que Portugal teve nos índices de inovação, apesar das diferenças regionais, dando conta que este avanço foi impulsionado pela necessidade. «Houve uma crise e as empresas tiveram de lutar pelo seu futuro», sublinhou.

Mas para garantirem um lugar na frente da corrida, a qualificação dos recursos humanos é uma obrigatoriedade. «O paradoxo da automação é que quanto mais automação existe, mais pessoas são necessárias para analisar os dados», reconheceu Francisco Almada Lobo, CEO da Critical Manufacturing.

Inovação pelos dados

Foi precisamente nesta área que a Cotec lançou um desafio aos jovens, organizando uma hackathon que contou com cerca de 70 jovens a trabalhar dados e a encontrar novas estratégias para as empresas. «Os dados são o petróleo do futuro. Estes jovens receberam uma série de dados de empresas reais e tiveram que, a partir desses dados, utilizando o software da nossa parceira SaS, extrair valor para o negócio da empresa em questão. Tiveram que trabalhar os dados e no fim extrair diretrizes de estratégia para serem aplicados no ambiente operacional da empresa», explicou, ao Portugal Têxtil, Armindo Carvalho, gestor de projeto na Cotec.

A vencedora foi a equipa Ramiroquai, composta por três estudantes de engenharia do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e um da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que vão em outubro integrar a comitiva da Cotec e participar naquela que é considerada a maior feira mundial de Internet das Coisas, a IOT Solutions World Congress.