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Covid-19 acelera mudança inevitável das feiras

O ano de 2020 foi sinónimo de adversidades para as feiras que sentiram fortemente o impacto da pandemia. O digital revelou-se a única opção para alimentar as sinergias entre os vários sectores, mas os especialistas afirmam que o novo coronavírus não causou a mudança, mas simplesmente a acelerou.

Pitti Immagine [©Pitti Immagine]

Durante todos estes meses, as feiras como até então estávamos habituados sofreram muitas mudanças, devido à pandemia, que impossibilitou a realização de numerosos certames, nomeadamente face às restrições nas deslocações entre países.

As organizações dos eventos viram-se obrigadas a restruturem-se para chegar a novos modelos de negócios sustentáveis, perante a situação de pandemia, adotando normas de segurança sem precedentes durante as feiras ou, no caso destas não serem concretizáveis, criar outras soluções através, sobretudo, do canal digital. São vários os exemplos que sustentam esta afirmação como a Kingpins, que apresentou o Kingpins24, um complemento online ao evento físico, a Informa Markets Fashion, que estabeleceu uma parceria com a plataforma de comércio eletrónico NuOrder e que resultou naquilo a que a organização chamou de «maior feira digital», e ainda a Liberty Fairs, que estreou o primeiro marketplace virtual em colaboração com a plataforma de retalho Joor.

Muitas das estratégias virtuais foram tão bem-sucedidas como o evento digital da Informa, com 1.200 marcas e um total de 20 mil compradores, que os organizadores das feiras se questionaram sobre o futuro dos certames obrigados a cancelar as edições físicas. Segundo os especialistas, a pandemia não causou, todavia, a mudança que se viveu ao longo de 2020 nas feiras, tendo simplesmente acelerado o que mais tarde acabaria por acontecer.

Kingpins24 [©Kingpins Show]
De acordo com esta perspetiva está o CEO da feira de vestuário infantil Playtime, Sebastien de Hutten, que refere que a indústria estava à procura de modernizar o conceito de negócio tradicional muito antes de 2020. «Temos tendência a esquecer quando estamos no meio de uma crise que havia já problemas antes da crise chegar. Não foi fácil para as feiras de negócios nos últimos anos. Acho que estávamos a viver um período de transição que atingiu uma grande aceleração agora com a pandemia. Toda a gente está a perceber que existem benefícios extraordinários no digital, benefícios extraordinários no físico, e o verdadeiro desafio é, de facto, juntá-los», explica o CEO, citado Sourcing Journal. Sebastien de Hutten revela ainda que a equipa da Playtime está a tentar afastar-se da «obsessão» das marcas para a colocação de pedidos pessoalmente, pois «não faz sentido» para os compradores colocar pedidos na feira em que têm tempo limitado para considerar os expositores aos quais pretendem fazer encomendas.

Melhorar experiências

«Há anos que todos nós sonhávamos que os expositores e os compradores viessem para a feira sem necessariamente quererem escrever os pedidos de imediato», admite o CEO da Playtime, que acredita que, uma vez que as pessoas adquiriram o hábito de usar o digital, a experiência física vai melhorar assim que chegar a altura de se realizar novamente as feiras.

Neste sentido, os especialistas consideram que esta aceleração da mudança desencadeada pela pandemia pode ser uma oportunidade para que as feiras surjam mais fortes do que nunca, desde que optem por uma estratégia que inclua também um website para o evento se tornar numa plataforma digital com presença física.

Liberty Fairs [©Liberty Fairs]
A comprovar as análises dos especialistas foram desenvolvidas várias iniciativas como a Kingpins que, em parceria com a Materials Exchange, lançou a Kingpins Exchange, um mercado de denim online e também plataforma de showroom digital, que foi designada como a «Netflix do sourcing de materiais». Também a feira italiana Pitti Immagine desenvolveu a Pitti Connect, uma plataforma digital que oferece oportunidades formativas e de networking para os expositores e participantes antes dos eventos físicos.

Assim como a Pitti Immagine, o certame masculino Liberty Fairs também se focou no conteúdo didático, tendo em conta que a organização encarou a pandemia como uma oportunidade para «recuar e ter conversas significativas». A Liberty Fairs lançou, de resto, duas séries de webinars mensais focadas em tópicos como o redimensionamento do retalho e a otimização de financiamento nos períodos mais desafiantes. «Tivemos conversas muito difíceis sobre dinheiro. Nós quisemos concentrar-nos realmente no que as marcas necessitam neste preciso momento. A componente educacional foi importante para nós», garante Edwina Kulego, vice-presidente da Liberty Fairs, que adiantou que o certame vai prosseguir com os webinars com o objetivo de providenciar recursos úteis para a indústria.

«Vamos continuar a conversar com as nossas marcas, com nossos retalhistas e descobrir somente qual será o próximo passo para fazer com que todos voltem a fazer negócios», conclui.