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Covid-19 muda indústria do vestuário

A pandemia veio trazer mudanças na forma de trabalhar da indústria de vestuário, impulsionando tendências e exigindo a capacidade de adaptação a alterações nos padrões de sourcing, com os consequentes impactos nas condições de trabalho, salários e níveis de emprego.

[©ILO/Crozet M.]

Em 2020, investigadores do projeto New Conversation da Universidade de Cornell, nos EUA, e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) fizeram um pequeno estudo sobre os impactos do covid-19 que destacou impactos a curto prazo para trabalhadores, fornecedores e compradores de vestuário e assinalou os danos provocados pelo colapso do comércio mundial de vestuário na primeira metade de 2020.

Agora, os mesmos investigadores produziram o estudo “Repeat, Repair or Renegotiate? The Post-Covid Future of the Apparel Industry?” onde distinguem entre mudanças na indústria que parecem ser novas direções trazidas pela pandemia e aquelas que representam a aceleração de trajetórias de longo prazo para marcas e retalhistas, os seus fornecedores e trabalhadores, incluindo a concentração e consolidação do sector, automatização e digitalização e comércio eletrónico.

[©ILO/Crozet M.]
«Depois de muitas análises aos impactos a curto prazo do covid, estávamos determinados a ter uma visão mais longínqua», explica Jason Judd, diretor-executivo da New Conversations e coautor do estudo. «Usando duas décadas de dados, encontrámos algumas mudanças na direção das práticas laborais na cadeia de aprovisionamento do vestuário mas grandes acelerações nas curvas que a indústria tem seguido há anos – consolidação de fornecedores, concentração de mercado, uma mania por salários sempre mais baixos e por aí adiante», acrescenta.

O estudo inclui entrevistas, realizadas de agosto de 2020 a março de 2021, a 29 especialistas da indústria de vestuário, de marcas e retalhistas a jornalistas, sindicatos e empresários.

Três cenários

Com base na informação recolhida, que tem em conta diversos elementos, desde a questão laboral às tendências de sourcing, os investigadores chegaram a três cenários progressivamente otimistas – Repetir, Reparar e Renegociar – para o futuro da indústria da moda na Ásia e mundialmente.

«A indústria da moda tem muito a acontecer», afirma Jason Judd. «Ao longo de três décadas, colocou-se no centro de crises mundiais de excesso de consumo, danos ambientais, desigualdades salariais, direitos laborais, falhas na regulação privada e mais. Os três cenários que o nosso estudo descreve refletem as grandes escolhas que a indústria tem de confrontar. Repetir é, obviamente, a escolha por defeito, mas não é uma com a qual os fornecedores e trabalhadores da indústria possam viver», considera o coautor do estudo.

O primeiro cenário, Repetir, aponta para o retorno às trajetórias pré-pandemia para a estrutura da indústria, sourcing e governance, sendo apenas uma extensão, dentro do possível, das tendências de longo prazo que se fizeram sentir nas últimas décadas. Aqui, os padrões de sourcing continuam a mudar em direção a centros de produção de salários e custos baixos na Ásia e em África e a fast fashion mantém o seu domínio, com pressão acrescida sobre fornecedores e trabalhadores para ciclos de desenvolvimento mais curtos.

[©ILO/Crozet M.]
O segundo cenário, Reparar, é semelhante a uma versão acelerada das previsões delineadas em estudos sobre o futuro do trabalho, em que a indústria da moda se divide mais acentuadamente do que no cenário Repetir. Fornecedores mais inovadores e integrados serão capazes de fazer atualizações tecnológicas, aumentar a produtividade e proporcionar condições de trabalho decentes, embora muitos outros se mantenham no cenário Repetir. Embora as marcas da fast fashion continuem a dominar, há potencial para mais esforços proativos de sustentabilidade por parte dos líderes da indústria e a produção low-cost vai coexistir com núcleos de produção automatizados em países mais perto dos mercados de consumo.

O último cenário, Renegociar, é o mais ambicioso e esperançoso dos três e integra as mudanças mais desejadas, de uma perspetiva laboral, e duráveis na estrutura da indústria, sourcing e governance. Segundo Jason Judd, «este cenário depende de uma abordagem colaborativa e em parceria aos desafios da indústria, que não só reflete os interesses dos “outsiders” da indústria – fornecedores, trabalhadores e os seus sindicatos, reguladores e consumidores –, mas escreve os seus termos negociados em contratos e fórmulas pelas quais a indústria opera. Isto, em contrapartida, depende de mudanças importantes nas relações de poder da indústria e o foco aqui está em grande parte no sourcing e na governance».