Início Notícias Mercados

Crescer em tempos de crise

As exportações de vestuário estão em crescimento no Bangladesh, desafiando o medo de que a violência recente perpetrada por islamitas pudesse incitar as marcas ocidentais a baterem em retirada, levando a produção das suas roupas para outros destinos.

Apesar da sensação de alívio entre os fabricantes, que são o catalisador da economia da nação sul-asiática, as margens de lucro, já reduzidas, estão cada vez mais estreitas, à medida que a pressão para a redução de custos e melhoria da segurança se vai intensificando. «Está a transformar-se rapidamente num negócio onde apenas os mais aptos podem sobreviver», afirmou Atiqul Islam, um dos maiores exportadores de vestuário do Bangladesh, cujos clientes incluem a H&M, à agência Reuters.

Poderia ter sido pior. Durante meses, os retalhistas ocidentais que adquirem roupas baratas no Bangladesh evitaram visitar o país, preocupados com o aumento da violência, incluindo o assassinato de dois estrangeiros. As reuniões com os fornecedores foram realizadas no Dubai, Nova Deli e Singapura. Shafiqul Azim, diretor-geral de uma exportadora de vestuário, viu-se obrigado a contratar seguranças particulares para convencer um técnico italiano a viajar para Dacca no ano passado.

O Banco Mundial alertou que o clima poderia atrapalhar o caminho percorrido pelo Bangladesh para se apresentar como um país de rendimento médio. Por enquanto, porém, as preocupações parecem estar controladas e os números recentes mostram que o sector de exportação de vestuário de 26 mil milhões de dólares (aproximadamente 26,7 mil milhões de euros) está a crescer mais rápido do que muitos haviam ousado prever. «Foi um revés temporário», referiu Islam à Reuters. «Depois de dois/três meses, as visitas foram retomadas», acrescentou.

Um diplomata ocidental na capital Dacca atribuiu a mudança a uma resposta rápida do governo e ao apoio prestado pela polícia local.

Margens magras

Entre outubro e janeiro, as fábricas do Bangladesh exportaram peças de vestuário no valor de 9,3 mil milhões de dólares, uma subida de 14% em relação ao ano anterior, de acordo com os dados do governo. As exportações para os EUA assistiram a um salto anual de 16%, no ano terminado a dezembro.

Shafiqul Azim, que fornece a Walmart, refere que a sua carteira de encomendas subiu em cerca de 15%. Estimulada pela forte procura, a sua empresa, a r-pac, está a investir 10 milhões de dólares numa nova fábrica.

A resiliência do Bangladesh resume-se a uma combinação de ingredientes que incluem os salários mais baixos do mundo, depois do Myanmar e Sri Lanka, as competências certas e o facto de a China se ter mostrado menos competitiva nos últimos anos.

O salário mínimo mensal para os trabalhadores da indústria do vestuário no Bangladesh é de 68 dólares, em comparação com cerca de 280 dólares na China continental, que, no entanto, continua a ser o maior exportador de vestuário do mundo.

Numa pesquisa global dos principais produtores de vestuário, a consultora McKinsey previu um crescimento anual entre 7 e 9% para o sector nos próximos cinco anos. Ainda assim, os exportadores de vestuário estão preocupados com as margens de lucro, que têm vindo a encolher com o aumento dos custos de conformidade em questões de segurança, na sequência do colapso do Rana Plaza. Atiqul Islam estima que a maioria dos exportadores de vestuário do Bangladesh terá uma margem de lucro de apenas três%.

Islam revelou ainda que empresas como a dele estão a gastar uma média de 700 mil dólares na modernização das instalações para atender às normas de segurança, mas os compradores não estão dispostos a suportar os custos. Os exportadores de vestuário estão até sob pressão para reduzirem ainda mais os seus preços a fim de conseguirem manter os clientes. «Todos os anos nos pedem um corte de preço entre 2 e 3%», explicou Islam.

Para proteger as margens, alguns fabricantes têm investido em automação. Na fábrica de Shafiqul Azim, por exemplo, as máquinas já estão a fazer a maior parte do trabalho, enquanto Atiqul Islam acaba de investir 500 mil dólares para importar 70 novas máquinas de Itália.