Início Notícias Gerais

Crise deverá ser estrutural

Executivo e economistas têm visões diferentes sobre a crise provocada pela pandemia. Os economistas olham com muitas dúvidas para as previsões do Governo dando conta de uma retoma rápida. Economistas acreditam que a crise será longa e estrutural.

João Leão (Jornal de Negócios)

Os economistas não concordam com o Governo e esperam uma crise de longa duração e com características estruturais.  A explicação passa pela crise num dos setores mais importantes para a atividade económica portuguesa, o turismo, e o consequente impacto noutras áreas de atividade, como o imobiliário, restauração e cultura.

Para os economistas, citados pelos Jornal de Negócios, só uma solução para a crise sanitária imediata podia fazer com que a retoma económica fosse rápida, tal com prevê o executivo de António Costa e o novo ministro das Finanças, João Leão.

«Estou convicto, precisamente por ter sido um advento súbito da pandemia, de que quando esta estiver ultrapassada, se seguirmos políticas adequadas, vamos mais rapidamente do que na anterior crise conduzir de novo o país para um caminho de confiança, crescimento e sustentabilidade», admitiu João Leão, no seu primeiro debate na Assembleia da República como ministro das Finanças.

As afirmações de João Leão estão em linha com as do seu antecessor na pasta das Finanças, Mário Centeno, mas são, no entender dos economistas, bastante otimistas.

Miguel Ferreira, economista da SBE, concorda que «a recuperação vai ser mais rápida do que a saída da crise anterior, mas essa demorou cinco anos». «Dois a três anos será o tempo expetável», aponta o economista da SBE.

Para Portugal viver uma recuperação rápida seria necessária uma retoma em “V” para que, no próximo ano, a economia crescesse ao nível pré-Covid. Mas o futuro está cheio de incertezas, nomeadamente se vai existir, ou não, uma segunda vaga, como sublinha Carlos Marinheiro, vogal não-executivo do Conselho das Finanças Públicas. «Ninguém sabe se vai ou não haver uma segunda vaga, isso faz com que seja muito difícil saber que recuperação vamos ter», frisa.

Outro fator que prejudica a rápida recuperação é o turismo. Com grande parte das fronteiras ainda encerradas e, sobretudo, com o receio das pessoas em viajar, o turismo tem o futuro muito incerto, o que numa economia tão dependente desta atividade, como é a portuguesa, pode ser problemático.

Fernando Alexandre, economista e professor na Universidade do Minho, refere ainda outra razão: «desde logo, a capacidade dos espaços estará reduzida, isso trará uma baixa de rentabilidade brutal».

Essa quebra de atividade permanente tem consequências estruturais e implica que haja uma reconversão de pessoas que perdem o emprego neste setor para outros, como por exemplo a «saúde e a educação», explica Miguel Ferreira. Isso, porém, acrescenta o economista, exige «tempo e investimento».