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Crocodilo pródigo

Serve a usurpação da parábola para enquadrar o último desfile da Lacoste, que depois de 14 anos a pisar a passerelle de Nova Iorque, regressou a casa, não só para desvendar a coleção primavera-verão 2018, mas também para comemorar o seu 85.º aniversário.

As memórias de estilo da casa fundada pelo crocodilo original, René Lacoste, têm tido a visita constante do designer português Felipe Oliveira Baptista, que há sete anos assumiu o papel de diretor criativo da marca francesa. Nesta coleção, porém, a visita foi mais demorada do que o habitual, não se tratasse da celebração dos 85 anos da Lacoste, pelo que, numa coleção, evocaram-se oito décadas.

O desfile aconteceu na quarta-feira e teve lugar no Jardin des Tuileries, onde se ergueu uma estrutura branca para um campo com as linhas de diferentes modalidades desportivas.

Para a ocasião, a primeira fila incluiu uma grande parte da família Lacoste, bem como o atual embaixador da marca, Novak Djokovic.

«É uma coleção que reescreve com humor e inventividade a herança da marca, sem a santificar ou cristalizar, muito pelo contrário, será sempre mantida em constante movimento», destacou a marca em comunicado.

Os artistas Mathias Augustyniak e Michael Amzalag da M/M (Paris) foram convidados por Felipe Oliveira Baptista para desenvolver um padrão para a coleção, dando continuidade às várias alianças criativas estabelecidas pela Lacoste na era de Baptista.

A inspiração veio do cinema francês, uma das primeiras janelas que o diretor criativo abriu para a cultura francesa.

A coleção primavera-verão de 2018 foi particularmente motivada por dois filmes antagónicos de meados dos anos 1990, combinando de forma livre os códigos de rua do “Ódio” de Mathieu Kassovitz com os burgueses do “Conto de Verão” de Eric Rohmer.

A paleta icónica da Lacoste –  Navy 166, Vermelho 240, Verde 132 e Branco 001 – foi explorada, recuperando-se ainda o azul nevoeiro, o rosa flamingo e o amarelo, clássicos Lacoste dos anos 1980.

Os crocodilos dourados nas fivelas dos mocassins, os botões dourados de um casaco canelado e um blazer cortado a partir de uma sweatshirt sublinharam a interseção do formal e informal na coleção.

«Todos os limites entre o que é sportswear e o que usamos para o trabalho estão a cair. Como designer, é um momento muito interessante para impulsionar ainda mais essas reflexões», comentou o diretor criativo nos bastidores.

O blazer para homem e mulher, um favorito de René Lacoste, e as lendárias calças de cintura subida dos anos 1930 destacaram-se entre os coordenados.

Para agitar as águas, os materiais técnicos e nobres também se encontraram na primavera-verão 2018 da Lacoste, como demonstrou o corta-vento em poliamida e camurça.

No centro do bolo esteve o polo branco, a “obra-prima” criada há 85 anos, que serviu de vela a esta comemoração.

A peça voltou para uma vida fora dos courts de ténis e prestou-se a propostas ousadas. Para os homens, é oversized e surge em cima de uns jeans ou, então, ganha a visão de um clássico subvertido. Para as mulheres, envolve o corpo, descobre o ombro e torna-se num vestido de noite.

No final da apresentação, Felipe Oliveira Baptista falou de uma coleção entre «o passado, o presente e o futuro».