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Crónica de um inverno anunciado

Santo António da Conceição, frade do Convento de Santo António de Xabregas, ganhou fama de santidade e o povo tratava-o por beato – designação que se estendeu ao convento, dele, a todo o território e, muito depois, ao calendário do Portugal Fashion. Juntar-se-iam à corrida o CEIIA - Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel e o Museu do Carro Elétrico. Mas foi pelas portas da Alfândega do Porto que mais vezes se entrou e saiu na edição que anunciou o outono-inverno 2016/2017.

Foram dias de viúva branca nos Storytailors, de L’étrangère para Pedro Pedro, de nómadas em Katty Xiomara, mas também da vizinha de Anabela Baldaque. «A vizinha é misteriosa, nunca se sabe tudo sobre ela», confessou ao Portugal Têxtil a criadora sobre a coleção que recorreu ao preto para «transmitir esse mistério», em coordenados onde os brocados, os pelos e os impermeáveis procuravam contar uma história de libertação da rigidez normativa.

Aconteceu o regresso de Alexandra Moura, com uma coleção “agender” inspirada na vocalista de Antony and the Johnsons, Anohni, nascida Antony Hegarty, que já foi apresentada além-fronteiras. «A coleção foi bem recebida internacionalmente. Em Paris já tivemos encomendas», revelou a designer ao Portugal Têxtil.

Assistiu-se ainda à estreia ligeira da Pé de Chumbo e contemplou-se a intemporalidade da Ana Sousa, numa estreia muito aguardada. «Acontece na altura certa, depois de ter internacionalizado a marca», afirmou a designer, que na passerelle revelou uma mulher forte, feminina e elegante. «É uma espécie de presente para as minhas clientes», acrescentou Ana Sousa. Susana Bettencourt regressou às origens e os Alves/Gonçalves, que se voltaram para os confrontos de oversized e longilíneo, apagaram as luzes à passerelle num primeiro dia em Lisboa.

Houve, oficialmente, mulher em Júlio Torcato e cor declarada em Miguel Vieira. «Quando se fala em Miguel Vieira geralmente fala-se sempre no preto e no branco. E eu queria mostrar aos meus clientes e ao público em geral que a coleção tem cor. Daí pôr o nome da coleção “Cor”. A ideia são as sensações que cada uma das cores transmite», explicou Miguel Vieira sobre uma coleção onde «a palavra-chave é “caxemira”».

Nos bastidores estava uma Fátima Lopes e coleção apaixonadas e nos pés das modelos de Luís Onofre ia o Coração de Viana. «É realmente um pormenor interessante, a ideia de uma joalharia portuguesa típica que representa Portugal. E, sem dúvida, faz uma pequena diferença. É algo tão feminino, tão sensual, que achei bem colocá-lo nos sapatos», revelou o designer de calçado sobre a inclusão do Coração de Viana na coleção marcada pelo preto, verde bosque, burgundi, mel e rosa claro.

Carla Pontes amadureceu em passerelle e Mafalda Fonseca quis que os seus rapazes continuassem a ser… rapazes, na estreia das duas designers na passerelle principal num desfile coletivo. «A realidade é que sendo tudo novo, alguma coisa já se conhece», afirmou Carla Pontes sobre estar a jogar em casa num evento que lhe é familiar, numa passerelle pintada de verdes e pisada por modelos em saltos altos. «Fui apanhada de surpresa, não estava a contar! Foi um desafio», contrapôs Mafalda Fonseca, que apresentou uma coleção que se «mantém num determinado ponto da história» dos seus rapazes com peças que ganham 3D com texturas.

Já Hugo Costa e Daniela Barros desfilaram a solo. «Acho que correu bem, agora é continuar a trabalhar, é quase como os jogares de futebol “amanhã há treino”», brincou Hugo Costa sobre a coleção que caiu muito «em tecidos clássicos». «É o fechar de um ciclo», resumiu Daniela Barros, que considera ter apresentado uma coleção «mais madura».

Estelita Mendonça uniu a moda à arquitetura e Diogo Miranda andou às voltas com uma cadeira do arquiteto Josef Hoffmann. Regressado de Paris, onde o «feedback não podia ter sido melhor» e «muito contente com o sucesso a nível internacional», o designer explicou o ponto de partida para a coleção de pretos, brancos, mas visitada pelo azul. «Andava à procura de mobiliário para a minha casa. E então encontrei peças de Josef Hoffmann, que era um designer de produto austríaco e que mais tarde acaba por ser arquiteto e então toda a coleção foi inspirada nos trabalhos dele. Inclusive, este azul reviera, é por causa de uma cadeira de veludo dele que eu adoro», acrescentou o designer.

Carlos Gil foi nerd numa «mulher feliz, descontraída, bem-disposta, com imensa vontade de se autenticar e com muita energia». E Elsa Barreto revelou mais maturidade neste segundo calcorrear da passerelle, não isento de “Drama”, como batizou esta coleção para a próxima estação fria. «Esta coleção foi muito mais pensada, comecei muito mais cedo. Consegui fazer uma coleção bastante mais trabalhada, claro que a primeira me deu muito prazer, mas esta já foi mais madura», reconheceu a criadora de moda.

No adeus à edição 38.ª do Portugal Fashion, faltou uma peça no puzzle de Luís Buchinho e Jessica Lange fechou “Circus” em Nuno Baltazar, que fez regressar os coordenados masculinos à sua marca. «Acho que é a altura certa», indicou o designer, que responde assim a uma procura sentida «junto das minhas clientes e dos maridos das minhas clientes». Um homem sério, masculino, mas que procura «alguma coisa de diferente, como nas cores», referiu Nuno Baltazar.

A indústria, o calçado e as marcas continuam a ter o seu lugar de destaque no calendário. No desfile coletivo da indústria, a Mad Dragon Seeker destacou-se por um casual-chic que começa a ser a sua imagem de marca, enquanto a Cheyenne apresentou denim mas também vestidos em renda preta. Na Concreto, Hélder Baptista manteve as malhas no centro das propostas da marca, embora mais finas, a acompanhar o aquecimento global do planeta. «O ADN da marca mantém-se. As malhas são mais finas simplesmente devido ao aumento das temperaturas – o inverno passado foi bastante quente», explica o designer. Ainda assim, capas mais grossas desfilaram, para proteger as mulheres quando o termómetro descer.

No calçado, a Nobrand celebrou 25 anos de história com propostas que vão das botas militares aos ténis, para eles e para elas, a J. Reinaldo aprimorou os clássicos, a Dkode fez um “remake” e um “remix” com recurso a técnicas artesanais, a JJ Heitor mostrou botas com pelo, a Fly London “pintalgou” os sapatos para homem e voltou a afirmar a sua irreverência e a Ambitious apostou forte nos ténis. «Há uma tendência para esta estação de ténis. Mas a marca Ambitious é mais do que isso: abrange um homem muito moderno que quer calçar confortável mas estar sempre na moda e na vanguarda», afirmou o diretor comercial da marca, presente pela segunda vez no Portugal Fashion.

A indústria teve ainda a honra de encerrar esta edição do Portugal, com um trio de ouro: a Dielmar, com nova direção criativa, trouxe um homem elegante e mais jovem para a ribalta. Na Lion of Porches, o conceito familiar afirmou-se, mas com um toque rock no melhor da cena britânica nos anos 70, com minissaias e botas bastante acima do joelho, e a Vicri encerrou com chave de ouro, com um desfile acompanhado com música ao vivo, pela cantora Deolinda Kinzimba. «Tentamos trabalhar o look formal de uma forma um bocadinho mais descontraída. Continuamos a ter fatos muito clássicos mas tentamos dar um toque diferente. A imagem do fato completo não está agora muito bem vista e então tentamos quebrar um bocadinho essa barreira», explicou Jorge Ferreira, responsável criativo da Vicri sobre a nova coleção da marca da Riopele.

After school no Bloom

O alinhamento do Portugal Fashion integrou ainda nove desfiles do projeto Bloom. A Hibu, marca de Marta Gonçalves e Gonçalo Páscoa, abriu novamente o calendário do Bloom, com a apresentação da sua terceira impressão, no Convento do Beato, em Lisboa. Já no Porto decorreram mais oito desfiles, incluindo o do Concurso Bloom, dos jovens designers Eduardo Amorim, Inês Marques, Maria Kobrock, Pedro Neto e Sara Maia e das marcas Klar e [Un]t. «Usei 21 tecidos diferentes que resultaram em 21 tons de rosa», contou a designer luso-alemã Maria Kobrock ao Portugal Têxtil nos bastidores do espaço Bloom, onde se estreou nesta edição, a par de Sara Maia, que, numa temporada em Londres, passou pela marca Marques’Almeida.

Na 38.ª edição do evento de moda, a passerelle palmilhada de jovens talentos capitaneados por Miguel Flor, sempre pautada pela experimentação, voltou à sala de aulas, graças ao contributo do artista plástico Paulo Mendes, com a peça “After School”. «A instalação aconteceu na sucessão de conversas entre mim e o Miguel, devido a este tipo de materiais que eu já tinha usado noutro tipo de instalação. E o Miguel considerou que poderia funcionar em termos deste contexto», explicou Paulo Mendes, artista que também já trabalhou com a criadora Alexandra Moura, sobre a passerelle marcada por antigas cadeiras e mesas escolares. «Obviamente não foi ao acaso. Isto é o verdadeiro “After School”», rematou Miguel Flor.

Além dos desfiles, soou ainda a campainha para a apresentação das coleções dos oito finalistas do Concurso Bloom 2015 – Amorphous, Beatriz Bettencourt, David Catalan, Fii, Inês Maia, KDI, Patrícia Shim e Sara Marques. Foram eleitos quatro vencedores – Amorphous (Carla Alves), Inês Maia, Sara Marques e David Catalan – que irão voltar a ao Bloom para apresentar seu trabalho na passerelle do Portugal Fashion em outubro de 2016 e março de 2017 e usufruem ainda de um incentivo financeiro para o desenvolvimento das coleções.