Início Notícias Mercados

Cuba contemporânea

A facilitação das transações comerciais e o alívio das restrições de circulação aproximam Cuba da modernização, fomentando um convívio inusitado entre o revivalismo do passado e o modernismo do presente.

Cuba não é alheia às dificuldades económicas: o embargo comercial, económico e financeiro imposto pelos Estados Unidos em 1960 (conhecido em Cuba como El Bloqueio, “o bloqueio”) e a retirada da então União Soviética em 1993 resultou numa estagnação do crescimento económico, carência de oportunidades laborais e períodos de extrema pobreza.

Durante este período, o resto do mundo continuou e a pequena ilha do Caribe, localizada a 145 km ao largo da costa do estado americano da Flórida, transformou-se numa não-entidade política, sustentada por charutos e rum.

Em dezembro de 2014, o estado americano aliviou as restrições ao comércio com Cuba, permitindo transações maiores e estimulando a expansão do comércio de um pequeno número de bens e serviços entre os dois países. De repente, o país figura nas manchetes globais, tornando-se uma tendência de pesquisas de destaque no Google semanalmente, atingindo massa crítica em janeiro de 2015, quando os EUA expandiram as categorias de viagens autorizadas a Cuba.

Da noite para o dia, Cuba regressou à ribalta. As pesquisas na categoria de viagem provenientes dos EUA e que tinham como destino Cuba aumentaram 360% e as pesquisas com origem no Reino Unido aumentaram 42%, 24 horas após as novas categorias de viagem terem sido autorizadas. O Airbnb estreou-se em Cuba em abril, as empresas de viagens on-line, incluindo Kayak e Expedia, adicionaram pacotes de férias cubanos e a Carnival Cruise Lines irá zarpar para Cuba em maio de 2016.

Os excluídos
Para os cidadãos cubanos, a reação à influência social e económica ocidental iminente varia de acordo com a demografia.

A maioria dos Baby Boomers estão esperançosos. Tendo criado famílias e vivido durante o bloqueio e a saída soviética, eles procuram oportunidades de emprego para as suas famílias e as conveniências modernas que salários mais elevados podem oferecer (ar condicionado, mais transportes públicos e, surpreendentemente, novos media, incluindo programas de televisão e filmes). A maioria dos entrevistados da Geração X, mais jovens, é crítica da ocidentalização e teme que a cultura cubana seja substituída pela influência corporativa.

«Eu entendo que temos de fazer algumas grandes mudanças para que o meu país possa sobreviver. Precisamos de internet, precisamos de empregos, precisamos que as pessoas se sintam conectadas. Nós [os cubanos] não precisamos de nos perder enquanto procuramos melhorar-nos», afirma Rudolfo, um vendedor de cachorros-quentes de 44 anos, residente em Havana.

Para a Geração Milénio e a Geração Z, a influência ocidental é o único caminho para um futuro melhor, proporcionando um crescimento económico que supera a indústria do turismo. Maria, de 18 anos, acredita que «se as empresas puderem fazer negócios aqui, eu e os meus amigos poderemos começar o trabalho em algo que diferente de guia de turismo. Se recebermos mais dinheiro, poderemos fazer coisas como viajar, comprar uma casa. Chamam-no de sonho americano».

A revolução dos smarphones
A internet em Cuba é rigidamente controlada pelo governo e, embora as autoridades do país afirmem que 25% do território tem acesso à internet, o número é inferior a 5%, de acordo com uma pesquisa compilada pela Freedom House, um grupo de controlo da liberdade na internet.

Se, e quando, o acesso à Internet está disponível, é caro para os padrões locais (6 a 10 dólares por hora), extremamente lento e utilizado com precaução, uma vez que muitos cidadãos acreditam que o governo monitoriza toda a conectividade online.

Apesar da proibição da posse de computadores pessoais ter sido levantada em 2008, os smartphones (muitas vezes trazidos por amigos estrangeiros e família ou vendidos nos mercados de contrabando) são uma fonte confiável de conectividade on-line, resultando num país repleto de hackers. «Se eu o conectar, será à sua [do governo] rede. Eles podem vigiar-me», revela um estudante universitário, que pediu o anonimato. «Mas como me poderão observar através de uma rede que não sabem que existe?».

Routers ilegais proliferam, escondidos entre as paredes em parques populares e áreas comerciais e por 1 dólar por hora são vendidas senhas de concessionários wi-fi, para acesso à internet ilegal. Por um valor superior, não revelado, os concessionários dão aulas particulares sobre VPN global de pirataria, com a procura a superar a oferta. «Eu esperei dois meses pela minha lição! Isso demonstra o quão requisitados eles são», acrescenta o mesmo estudante..

Democracia digital
O historial de smartphones entre os jovens cubanos é surpreendentemente semelhante ao da maioria dos restantes países: uma combinação variada de vídeos de YouTube, plataformas de media sociais e aplicativos de mensagens instantâneas. Os aplicativos mais populares são o Facebook, Viber, WhatsApp e Skype. Quase todos os entrevistados citaram a comunicação com o mundo exterior como a prioridade cimeira. A segunda preferência passa por assistir a vídeos de música no YouTube.

Estilos de música ocidentais, como o Rap e o Hip Hop são cada vez mais populares e as criações musicais de Wiz Khalifa, Common, Kendrick Lamar, Kanye West e o grupo de reggaeton cubano Gente De Zona são os artistas não oficiais das ruas e vida noturna de Havana. Em contraste com a juventude ocidental, o interesse on-line por marcas e tendências da moda é quase inexistente. Marcas ativas, como Billabong, Converse e Adidas são as exceções e são mais reconhecidas pelos eventos de parcerias das empresas – X Games, FIFA, Pipemasters – do que pelo produto.

«Os meus amigos e eu transmitimos eventos desportivos, mas é muito lento. Mas é assim que vemos calçado e moda. Eu gosto dos X Games, porque eles mostram as multidões, para que todos possamos ver o que o público está a usar», explica Rodney, 27 anos, skater e DJ.

A falta de interesse em marcas estrangeiras é evidente, com as marcas Mango, Adidas, United Colors of Benetton e Converse a destacarem-se como os únicos nomes populares – especialmente situadas na área elitista de Havana.

Arte cubana conquista além fronteiras
«Penso que nós, como membros da comunidade de arte cubana, apercebemo-nos de que uma grande mudança estava a acontecer quando a Bienal [de Havana] esgotou. Mas creio que nenhum de nós antecipou o quão rápido os colecionadores iriam aderir e a rapidez com que o peças iriam esgotar», refere Mytil, um consultor de arte proeminente de Havana. «É como a primeira chuva depois de um longo período de seca. Nós [artistas cubanos] estamos com sede, mas procuramos preservar a água».

Alberto Magnan, proprietário da galeria nova-iorquina Magnan Metz, que é especializada em arte cubana, acredita que a afluência de amantes de arte cubanos continuará a crescer. revelou, ao New York Times, ter recebido «25 chamadas de colecionadores a 17 de Dezembro» – o dia em que o presidente Obama anunciou as novas reformas cubanas – e tem reservas até três meses para visitas de colecionadores a Cuba.

É difícil apontar a exata motivação dos colecionadores, mas as duas teorias mais fortes são de que menos burocracia governamental está a facilitar as transações de arte e que os artistas cubanos estão a tornar-se mais experimentais com os seus meios – as instalações e fotografia de arte estão a aumentar – e mais controversos nas suas mensagens. Entre os artistas a seguir incluem-se Lisandra Ramírez (um escultor e pintor dos novos media), Glenda León (artista plástica conhecida por instalações imersivas em grande escala), David Beltrán (um fotógrafo urbano que recorre a diferentes plataformas de media) e Osmeivy Ortega Pacheco (um artista que se especializou em esculturas em madeira detalhadas e estampados).

Cozinha cubana contemporânea
Os críticos gastronómicos que descartam a cozinha cubana como uma mera combinação de feijão, arroz e sanduíches estão na iminência de um despertar culinário. Ainda que os restaurantes privados tenham sido autorizados pela primeira vez em 1993, o plano de reforma do governo do presidente Raul Castro, aplicado em 2011, incentivou o livre mercado, resultando na emergência de uma nova era para a cozinha cubana.

Inspirando-se em diferentes tipos de cozinha do Caribe, os menus de fusão cubanos são abundantes em frutos do mar locais – o polvo fresco é a estrela na maioria dos restaurantes – e saladas com especiarias cubanas e queijos locais, frequentemente servidos com molho de mel, pão e tomate. A malanga é o prato de destaque, uma raiz vegetal, deliciosa e picante, frequentemente servida frita, em puré ou em conserva.

Interiores caribenhos
Apesar de Cuba ser amplamente reconhecida pela preservação da sua arquitetura mourisca, barroca, Art Deco e estilo tradicional caribenho, os designers cubanos estreiam-se, agora, na inclusão de elementos de design modernos, como cimento, metal e superfícies de granito. A preservação de mobiliário antigo e edifícios históricos continua a ser uma prioridade fundamental para a comunidade de design, mas as peças que não podem ser preservadas, devido aos efeitos nefastos do clima, são aproveitadas e convertidas em peças industriais, conferindo uma estética relativamente nova à ilha.

As paletas de cores foram atualizadas, incluindo a utilização de cores contemporâneas ousadas, como amarelos brilhantes e vermelhos profundos, substituindo os tons suaves frequentemente associados com Havana.