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Cuba depois do adeus a Fidel

A morte de Fidel Castro, eternamente cético nas relações com os EUA, pode abrir portas a uma maior abertura da economia cubana, mas a eleição de Donald Trump está a inquietar os empresários do país, que temem alguma fricção nas relações diplomáticas e económicas.

O acordo de Cuba com os EUA no final de 2014 trouxe uma lufada de ar fresco à ilha caribenha, com novas e melhores perspetivas de negócios para os empresários locais e internacionais (ver Cuba contemporânea). O turismo floresceu e nem as marcas de moda passaram ao lado do colorido e da alegria do país, com insígnias de luxo, como a Chanel, a voltarem-se para o mercado (ver Moda ao ritmo cubano).

O governo comunista de Cuba aliviou as restrições aos pequenos negócios há seis meses e os restaurantes – chamados de “paladares” ou “palatos” – floresceram desde então, ajudados por um aumento dos dólares dos turistas desde o acordo com os EUA.

As reformas económicas foram ordenadas pelo Presidente Raul Castro, que assumiu a posição de líder de Cuba após o irmão Fidel Castro ter ficado gravemente doente em 2006. Fidel Castro, um ícone do comunismo e da Guerra Fria que morreu no passado dia 25 de novembro aos 90 anos, era mais cético do que o irmão à abertura da economia e mais desconfiado em relação aos EUA.

A maior parte dos cubanos acredita que as suas reservas encorajaram a linha mais dura da liderança do Partido Comunista e a burocracia do governo a abrandar o ritmo das reformas nos últimos anos.

Empresários como Niuris Higueras, que tem um restaurante, esperam que o impulso reformista que avançou a um ritmo muito lento acelere de forma mais permanente agora que Fidel Castro morreu. «Para mim significou crescimento, estabilidade, uma abertura», afirma Higueras à Reuters em relação às reformas do mercado. «Ser empresária é ótimo. Carrega-nos de adrenalina», acrescenta. O prato de assinatura no seu restaurant Atelier é um confit de pato com frutos secos por 13 dólares (cerca de 12,2 euros) – num país onde o salário médio mensal é de 25 dólares.

Numa altura em que os cubanos olham para o futuro sem o homem que definiu o percurso do país desde que assumiu o poder na revolução de 1959, muitos estão preocupados com as ameaças de Trump de riscar um acordo forjado pelo Presidente Barack Obama. Se concretizar as ameaças, Trump pode acabar com os laços comerciais e de turismo que promoveram um aumento no número de visitantes americanos e que permitiram a realização do primeiro voo comercial americano para Havana em mais de meio século, no passado mês de agosto.

Collin Laverty, que detém a Cuban Educational Travel Agency e também patrocina visitas de empresários cubanos aos EUA, afirma que alguns planeiam apresentar os seus argumentos junto de Trump. «Um grupo de 50 ou mais dos principais restaurantes privados de Cuba, empresas de tecnologia, serviços automóveis, bed & breakfast e outros estão a trabalhar numa carta para Trump a pedir que continue a abrir espaço para melhores relações comerciais», revela.

Tal como muitos dos seus conterrâneos, Niuris Higueras, de 42 anos, confessa que sente uma profunda perda com o último adeus a Castro, que percorreu a ilha até à sua morada final, no leste de Cuba, local de nascimento da revolução. «É um vazio que não se consegue explicar», afirma.

Mas a empresária está cautelosamente otimista em relação ao futuro. «Penso que a economia irá continuar a avançar, as reformas terão de acontecer», acrescenta.

Os observadores de Cuba têm visões diferentes em relação à rapidez com que Raul Castro pode acelerar o ritmo de mudança e há riscos de retração se Donald Trump assumir uma abordagem mais dura. Mas os que favorecem mais o envolvimento dos EUA esperam que a morte de Fidel Castro remova obstáculos. «Ele era o líder da velha guarda que suspeita dos mecanismos do mercado e de um sector privado visto por conservadores… como corrupto, antipatriótico e demasiado aberto às influências estrangeiras», aponta Richard Feinberg, ex-conselheiro de segurança nacional do Presidente Bill Clinton e autor de um livro sobre a economia cubana.

Até agora o progresso tem sido lento. Cuba resistiu à abertura dos mercados grossistas para pequenos negócios, por exemplo, tornando difícil aprovisionar de forma legítima os ingredientes.

Higueras é uma entre vários empresários da restauração chamados a reuniões em setembro, onde foram advertidos para não quebrar os regulamentos – como a proibição de sentar mais de 50 clientes de cada vez e uma exigência de que comprem ingredientes em lojas detidas pelo estado com preços bastante acima do praticado no mercado.

O governo também voltou atrás em algumas reformas depois de terem levado a mais desigualdades visíveis e descontentamento entre os pobres, que dependem de salários e pensões do Estado.

Num recente Congresso do Partido Comunista, onde Fidel Castro fez uma das últimas aparições públicas, o plano de reformas de 2010 foi atualizado, passando de proibir a acumulação de «propriedades» para proibir a acumulação de «propriedades e riqueza».

No entanto, Trump continua a ser o principal ponto de interrogação para muitos cubanos. O presidente-eleito dos EUA afirmou recentemente que vai pôr fim ao «acordo» de Obama com Cuba se o governo comunista não oferecer melhorias para os cubanos, para os cubanos-americanos e para os EUA. Trump ofendeu ainda muitos cubanos com o tweet quase em tom de celebração da morte de Fidel.

Theodore Piccone, outro ex-conselheiro de Bill Clinton para a política externa, acredita que a linha dura do Partido Comunista irá provavelmente solidificar se o governo americano responder à morte de Fidel Castro com uma tentativa de «apertar os parafusos» do embargo económico americano a Cuba.

Erick Carballo, de 27 anos, abriu um salão de beleza em Havana no ano passado batizado Kerabana. O empresário, que trabalhava anteriormente para uma empresa de contabilidade do Estado com um salário equivalente a 20 dólares por mês, vê um possível ponto de inflexão nas relações com os EUA depois de Fidel Castro e espera que Trump se foque nos negócios.

«Honestamente, para o meu negócio, preciso que os EUA façam um pouco mais de comércio com Cuba», declara à Reuters, acrescentando que gostaria de comprar produtos estrangeiros para cabelo a preços razoáveis. Carballo acredita que Raul Castro está certo em abrir a economia apenas de forma gradual, temendo que a rapidez cause o caos. «É importante que esta abertura seja controlada», acrescenta.

Se Trump cumprir as suas ameaças, tal só irá empurrar os empresários cubanos para negócios com concorrentes dos EUA, aponta Niuris Higueras. «Será um grande golpe para muitos», refere. «Mas há outras fontes de turismo: Canadá, Alemanha, França, muitos outros países. Não vamos morrer à fome», garante.