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Cuba livre – Parte 2

Decorridos mais de 50 anos do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos da América a Cuba, o país caribenho prepara-se para abrir as portar ao investimento americano, mas são ainda muitos os desafios a enfrentar.

As perspetivas e os resultados desse esforço são ainda contraditórios, sendo reconhecíveis vantagens de desvantagens da presença no país, que se transforma lentamente e com reveses, mas que é cada vez mais encarado como uma oportunidade pelas entidades americanas. (ver Cuba livre – Parte 1)

Ouvir e adaptar
Aqueles que têm sido bem-sucedidos na sua presença em solo cubano deixam conselhos simples: ser flexível e escutar os funcionários cubanos, porque eles vão dizer exatamente o que pretendem. «Alguns estrangeiros chegam aqui com uma atitude de superioridade. Por outras palavras: “Vimos para mostrar aos cubanos como se faz”. Em geral, esses são os que falham espetacularmente», afirma Alexandre Carpenter, copresidente da empresa fabricante de cigarros Brascuba, uma joint-venture entre Cuba e a subsidiária brasileira da British American Tobacco.

Não há como escapar ao planeamento central do Estado. As empresas estrangeiras em joint-venture devem encomendar as matérias-primas necessárias com um ano de antecedência. Os imóveis são arrendados ao Estado e não estão para venda. Cuba concebe regularmente um portefólio de projetos no âmbito dos quais pretende colaboração de entidades estrangeiras. O mais recente, emitido em novembro, inclui 246, a maioria deles em regime de joint-venture, que necessitam de investimento, totalizando 8,7 mil milhões de dólares. Num dos sectores mais atraentes, o do turismo, o portefólio enumera cinco projetos de construção de hotéis, o desenvolvimento de dois resorts de golfe e contratos de gestão de 33 hotéis já existentes. No entanto, o governo raramente impinge a sua ideologia marxista aos parceiros estrangeiros. «Pelo contrário. Eles exigem que a empresa cresça e gere lucros a cada ano», explica Carpenter. Uma das maiores empresas estrangeiras em Cuba é a brasileira Odebrecht, que construiu um porto de 900 milhões de dólares em Mariel, a peça central de uma zona de desenvolvimento económico projetado para atrair investimento de capital com um regime mais liberal de importação e exportação.

A Odebrecht pretende, simultaneamente, construir uma fábrica de plásticos, assim como expandir o aeroporto internacional de Havana, operar uma refinaria de açúcar e construir dois hotéis. Mauro Hueb, diretor de operações da Odebrecht em Cuba, indica que as vantagens de operar em solo cubano incluem uma força de trabalho especializada de baixo custo e reduzidos custos de logística, acrescentando que para singrar uma empresa deve aprender e respeitar os costumes locais. «Deve ter a capacidade de se adaptar», destaca Hueb. «Aqui em Cuba, consideramo-nos uma empresa cubana», acrescenta. Outros empreendimentos bem-sucedidos, alguns com acionistas norte-americanos, incluem a Sherritt e a francesa Bouygues. O conglomerado suíço Nestlé tem um negócio de água engarrafada e refrigerantes. Os hoteleiros espanhóis Melia Hotels International, Iberostar e NH estabeleceram-se no sector do turismo e o gigante mundial de cerveja Anheuser-Busch InBev fabrica cerveja cubana.

Colapso soviético
O governo comunista de Cuba abriu pela primeira vez as portas a empresas internacionais na década de 1990, na sequência da crise económica causada pelo colapso da União Soviética, o seu principal aliado e patrono. Os resultados têm sido contraditórios. O governo cubano afirma que cerca de 60% dos projetos de investimento estrangeiro iniciados na década de 1990 foram forçados a encerrar. Por vezes, expulsa parceiros estrangeiros, alegando incumprimentos. Simultaneamente, outras empresas abandonam o país por vontade própria.

O panorama corporativo é ainda escasso, com apenas cerca de 100 projetos de investimento direto e um número similar de acordos, nos quais os estrangeiros gerem empresas cubanas sem deterem uma participação acionista. E, se por um lado, as empresas norte-americanas esperam que a normalização das relações e das reformas económicas em curso em território cubano venham a melhorar as condições de investimento, os especialistas referem que essa mudança será gradual. Durante vários anos, os maiores queixas dos estrangeiros têm sido a falta de controlo sobre o trabalho, o ambiente jurídico incerto e a complexa burocracia inerente à aprovação de um projeto. «Esqueça a possibilidade de possuir uma parte.

O máximo que pode esperar é uma venture de 50%-50% com um parceiro estatal», revela um membro do corpo diplomático europeu, responsável pelo segmento económico. «E isso será uma exceção. A regra continua a ser uma participação minoritária», acrescenta. O gigante de bens de consumo anglo-holandês Unilever tornou-se a primeira grande empresa a entrar em Cuba após a queda do comunismo soviético. Necessitados de dinheiro e produtos de consumo, Cuba aceitou uma venture de 50%-50% relativa a um complexo fabril, mas no momento da renovação, após 15 anos de presença no país, o governo insistiu numa participação maioritária.

A Unilever abandonou Cuba, embora esteja agora a discutir a possibilidade de regresso. Quando um negócio corre mal, pode ser terrível. Um exemplo extremo é o do empresário canadiano Cy Tokmakjian, que passou três anos na prisão por suborno e outras acusações antes de ser libertado em fevereiro. Tokmakjian fazia negócios em Cuba há 20 anos, tendo sido detido em 2011 e a sua empresa encerrada, acusado de subornar funcionários estatais e as suas famílias. Stephen Purvis, ex-diretor de desenvolvimento do fundo de investimento britânico Coral Capital, que construiu hotéis e projetou um campo de golfe em Cuba, foi preso em 2011 no âmbito de uma operação que visava combater a corrupção. Purvis afirma ter sido falsamente acusado por um rival, interrogado por cinco dias e viu o seu direito a um advogado recusado durante um mês. Acabou por ser deportado depois de condenado por uma acusação menor. «Existe uma taxa de condenação virtual de 100%», afirma Purvis. «Uma vez detido, será acusado e considerado culpado. É apenas uma questão de pelo quê», explica.