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Custo Barcelona, a receita do sucesso

Os irmãos Custodio e David Dalmau abriram a sua primeira empresa nos anos 80. De imediato decidiram criar uma marca com um nome que se identificasse com um estilo inovador, distinto e original. A experiência que ganharam no design e confecção, assim como na produção e direcção, foram a sua melhor base para a aventura que teve início em 1996 com a criação da sua marca Custo Barcelona. Inicialmente, decidiram apostar no mercado americano, numa altura em que este era muito receptivo a novas ideias. A sua intuição esta certa e pouco tempo depois as suas roupas chamaram a atenção dos directores de estilismo e dos designers de guarda-roupa de Hollywood, quer do grande ecrã quer na televisão. Mas, a chave do sucesso destes dois irmãos é o seu produto distinto que colocou a Custo Barcelona entre as marcas mais conhecidas a nível internacional. As roupas são vendidas em lojas multimarca e em lojas próprias nos cinco continentes. Actualmente com cerca de 15 lojas, a Custo Barcelona pretende ainda abrir mais lojas próprias nas cidades mais importantes do mundo, entre elas Nova Iorque. Camisas originais que misturam cores, ilustrações e tecidos são a imagem de marca dos irmãos Dalmau. O Jornal Têxtil publica uma entrevista realizada a Custodio Dalmau um dos designers da marca.

 

– És a Custo Barcelona, ou fazes parte de uma equipa?

– A equipa de design é fundamentalmente o meu irmão e eu mas, temos assistentes e colaboradores a nível de grafismo, porque é uma parte muito importante do nosso trabalho. Em cada colecção há mais de mil grafismos, e logicamente dá muito trabalho.

 

– As ideias são tuas?

– Há uma directiva que vem de nós.

 

– De onde são os vossos assistentes?

– Os assistentes são espanhóis, e no grafismo temos colaboradores de Espanha, Itália, Japão, América e também França.

 

– Têm grafismo e ilustração?

– Sim, grafismo e ilustração. A ilustração já é um clássico para nós, mas estamos a avançar para um grafismo mais linear. Na ilustração temos bons colaboradores espanhóis, franceses, mas a direcção do grafismo passa um pouco por todos.

 

– São jovens os vossos colaboradores?

– Sim, o mais velho sou eu, que tenho 45 anos.

 

– Vamos recuar um pouco no tempo. Como recordas os tempos da Custo Line?

– Recordo que tinha muito mais energia do que agora, por que era muito mais jovem (risos). Recordo como começámos, e se chegámos onde chegámos agora, foi porque começámos precisamente aí. Estamos muito contentes com o passado que tivemos, foi uma época em que as coisas funcionavam muito bem.

 

– A Custo Line morreu ou vocês mataram-na?

– Não. Nós criámos as primeiras camisas com o nome Custo Line, funcionou muito bem porque éramos os primeiros a fazer camisas estampadas, dado que há vinte anos não existiam. Havia apenas as da Coca-Cola ou American Express, e não eram um veículo de moda. Fizemos umas camisas que, seguramente, não eram nada do outro mundo, mas eram únicas. Há vinte anos uma camisa estampada era muito exótico e portanto, funcionou muito bem. Associámo-nos a uma empresa muito grande que havia em Barcelona, para que eles ficassem com a gestão e nós nos pudéssemos dedicar ao desenvolvimento do produto, e o que parecia um casamento funcionou muito bem e estivemos juntos 11 anos.

 

– Como é que se desenvolveu?

– O processo foi muito simples… Em 85 fechámos contrato com a Meyba. Estivemos 10 anos a fazer um trabalho intenso, mas não se desenvolvia por nenhum lado, porque o mercado espanhol era cada vez mais pequeno e com mais concorrência externa, e com o fenómeno Zara e Mango era cada vez mais difícil. Na altura esta empresa não sabia o que era exportar… não sabiam nem como se fazia, e não sabiam o que era vender para França. Estavam acostumados a que os clientes lhes batessem à porta, não estavam acostumados a pegar numa mala e irem convencer alguém. E de repente tudo mudou… vêm pessoas bem preparadas para o seu mercado, há um fenómeno local que se chama Zara e Mango que começou a crescer e eles não sabiam o que era bater às portas de Paris, Nova Iorque ou Londres e oferecer o seu produto. Assim, em 95 decidiram encerrar. Foi assim que começámos do zero outra vez. Montámos uma empresa, voltámos a ser empresários e a desenvolver o que havíamos feito inicialmente.

 

– O teu irmão ficou com a gestão ou gerem em conjunto?

–Com a experiência passada aprendemos que tudo aquilo que não podemos fazer não fazemos, não arriscamos. Aprendemos uma lição importante, e supervisionamos tudo. O nosso trabalho principal é desenvolver o nosso produto, mas gostamos de “meter o nariz” em tudo e saber o que se passa. Acho que neste negócio quanto mais conheces, quanto mais informação tiveres sobre o que se passa em casa, melhor te irão correr as coisas. Em 95 pensámos: para onde vamos? Vamos para a América, porque nessa altura a economia em Espanha não estava muito bem e o nosso produto já não constituía nenhuma novidade, assim fomos para os Estados Unidos e tivemos sorte. Fomos para Los Angeles e começámos a vender em algumas lojas…

 

– Que tipo de lojas? Rodeo Drive, por exemplo?

– Sim, nas melhores lojas de Los Angeles e nas mais conhecidas. Que para além disso, muitas serviam de referência para vários estilistas de Hollywood, e esse foi o melhor marketing espontâneo que tivemos até aqui. De repente as primeiras camisas estavam a ser usadas pela Julia Roberts, na série Friends, Sex and the City, Beverly Hills, em todas as séries e vídeos musicais…  

– Eram só camisas?

– Sim, apenas camisas.

 

– Isto para vocês foi o melhor que podia ter acontecido?

– Sim, é verdade. Eu estive um ano a viver nos Estados Unidos, e não entendia o que se estava a passar, todos os dias alguém me ligava a dizer que tinha visto uma camisa minha na Drew Barrymore… e era verdade… de cada vez que tinha tempo de ver televisão via sempre alguma… Nós chegámos quando a moda aqui era minimalista ao máximo, preto, bege… E alguém disse que estas camisas de cores eram excelentes… e diferentes do que se via nas lojas, e nos Estados Unidos quando há uma tendência há mesmo uma tendência. Se a tendência é vestir-se de uma forma romântica, toda a gente se veste assim, se se usa anos 80, toda a gente se veste assim… o mercado é muito de tendências. Nós não fazemos tendências, mas alguém as fez em Hollywood, e é o melhor marketing que podíamos ter.

 

– Que influências tiveste para conseguir o estilo Custo? Foi influência de algum colega, a rua ou os afroamericanos?

– Foi por muitas razões. Sempre viajámos muito e de tanto viajar de algum modo, convertes-te num mestiço. E o nosso estilo é uma mestiçagem.

 

– Para ti a palavra mestiçagem é totalmente a tua filosofia?

– É verdade, nós gostamos de misturar e a isso chama-se mestiçagem… a influência real… nós gostamos de dar como exemplo a mistura do orientalismo com uma referência do Caribe. Isto é um trabalho de mistura. Há que saber dosear os ingredientes adquiridos.

 

– Estudaste design?

– Não, eu estudei arquitectura e depois de dar algumas voltas, vi que não ia chegar a lugar nenhum… pois não ia fazer nenhuma casa…

 

– Não te identificavas?

– Não.  

– Na minha opinião há um antes e um depois da moda, desde o fenómeno Custo. Estás consciente da influência de Custo nos grandes criadores internacionais de moda?

– Bem… o que eu vejo é que há muita gente conhecida que tem uma referência.

 

– Que recordações tens da Pasarela Gaudi Hombre?

– Boas. Eu creio que a Gaudi nessa época estava muito bem. Realmente tinha uma projecção internacional. Agora já não a tem. Eu recordo-me que as Pasarelas Gaudi estavam cheias de gente. Nos anos 80 movimentava muita gente, e gente importante.  

– Falas da assistência?

– Sim, da assistência, da imprensa, de compradores, todos…

 

– Quando é passaram da camisa para a linha integral?

– Ampliámos a nossa linha desde há alguns anos, começando por fazer calças mas, para nós o conceito é o mesmo, e é muito fácil na hora de desenvolver as colecções seguintes, temos uma linha marcada e temos consciência de que não queremos sair dela. Tão pouco nos preocupam muito as tendências de moda, ou a tendência que tens que seguir porque estás na indústria.

 

-Segues as tendências da moda?

– Não… mas tenho que saber o que se passa. Temos de ter alguma referência. Mas, para nós umas calças é uma camisa que se usa nas pernas. O conceito é o mesmo, os materiais é que são outros, a linguagem talvez seja outra, mas o conceito é o mesmo. Um casaco, é algo que vestes por cima de outra coisa, uma carteira é uma camisa onde podes colocar coisas dentro. Para nós, tudo são camisas.

 

– Pretendem ser mais camiseiros? Não achas que a marca Custo, que tem um elevado valor acrescentado, deveria ter outras linhas? Não vos interessa fazer outras coisas? Por exemplo uma colecção de couro… que acho que ficaria muito bem para acompanhar as camisas, e também botas Custo…

– Estamos muito orgulhosos de ser camiseiros. Para nós o conceito de fazer umas botas ou fazer Couro by Custo seria o mesmo. Não apostámos nesses produtos, porque não encontrámos o industrial que o possa fazer. Mas não descartámos essa possibilidade.

 

– As lojas que estão a montar são próprias? Não custa muito dinheiro?

– Sim, são próprias, mas mais dinheiro custa não vender… A moda é um sector em que dependes de muitos caprichos e quem te compra nesta temporada, na próxima prefere outro tipo de produtos. No fundo eu sou um industrial e tenho uma estrutura e o que tenho de fazer, é um planeamento para continuar no dia-a-dia, e que isto continue a ser uma realidade. Não podes planear uma indústria apoiando-te em pessoas… que num momento te venderam toda a colecção, mas no seguinte preferem as riscas, por exemplo…

 

– É preciso ter muito capital para abrir as lojas…

– Há que o conseguir…

 

– Porque juntaste a palavra Barcelona a Custo? Foi marketing ou foi por amor à cidade?

– Eu acho que foi por tudo um pouco. Houve algo de marketing, porque Barcelona está muito bem cotada, portanto há que aproveitar… E também porque toda a gente nos pergunta de onde somos, porque pensam sempre que somos italianos ou franceses… e não… somos de Barcelona… é também um pouco de orgulho.

 

– De que designers gostas mais, de homem ou de mulher?

-Para mim, ainda que não siga muito o que se passa, arrisco em dizer que gosto muito de Miyake, mais do que como designer, gosto como investigador, porque o que ele faz é um trabalho de investigação, laboratório puro, um senhor que verdadeiramente aborda novos temas para a indústria da moda. Gosto também de Yves Saint Laurent como mestre.

 

– A Custo vai continuar a apresentar-se em Nova Iorque?

– Estamo-nos a dar muito bem a desfilar em Nova Iorque, primeiro porque, o mercado americano é um mercado importante para nós, e projecta muito bem para fora o que se passa.  

– Quando chegaram aos Estados unidos e pediram para desfilar, como é que vos receberam?

– O primeiro desfile que fizemos foi uma coisa que se montou apenas numa edição de novos designers em Soho, e desfilamos num ginásio de colégio, onde tivemos uma crítica muito positiva. A edição seguinte já não aconteceu, e então fomos “bater à porta” do “Seven on Sixth” e disseram-nos que sim. Perguntaram a quem vendíamos, inspeccionaram a colecção e de seguida aceitaram-nos, e desde então que não parámos. Começámos numa altura em que havia muita facilidade em entrar neste mundo, agora está muito mais complicado.

 

– Para terminar, gostas de moda?

Sim… gosto do trabalho que fazemos, porque temos a sorte de ser a nossa forma de viver, divertimo-nos imenso a fazer o que fazemos.