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Da energia do presente à bioeconomia do futuro

Responsáveis da ATB, Somelos e Sonix juntaram-se, na última das Talks by Citeve na recente edição do Modtissimo, para debater os desafios do momento atual, nomeadamente os custos energéticos, mas também perspetivar o futuro da indústria têxtil e vestuário portuguesa, onde a bioeconomia tem um papel fulcral.

Alberta Marimba, Samuel Costa, Miguel Domingues e António Braz Costa

No último painel das Talks by Citeve, moderado pelo diretor-geral do centro tecnológico têxtil, António Braz Costa, que foram realizadas sob a égide do Modtissimo, Alberta Marimba, diretora comercial da Somelos, Samuel Costa, administrador da Sonix, e Miguel Domingues, diretor comercial e de I&D na ATB, debateram os vários desafios atuais, como a questão energética, e futuros, com foco na bioeconomia.

«O preço da energia e do gás tem afetado enormemente a nossa produção e a nossa rentabilidade, o que nos coloca desafios muitíssimo elevados para aquilo que vem para a frente», assumiu Alberta Marimba, que revelou, no entanto, que a nível comercial, «estamos a ter um dos melhores anos desde há cerca de uma década».

Numa tentativa de contrariar estes aumentos, a empresa, que tem fiação e acabamentos, duas das áreas mais consumidoras de energia, tem acelerado alguns investimentos no âmbito das energias renováveis. «No nosso caso, [a questão energética] veio acelerar todas as medidas que tínhamos previstas num espaço de três anos, para termos os resultados o quanto antes», explicou a diretora comercial, salientando, no entanto, que «claro que todo o investimento que tem sido feito nas renováveis, no solar, não é o suficiente para acompanhar esta subida vertiginosa do preço de base da energia».

Numa perspetiva mais positiva, indicou Alberta Marimba, «porque trabalhamos muito com mercados para quem a sustentabilidade é muito importante, isto veio vincar a nossa posição como uma empresa que tenta o mais possível trabalhar com materiais sustentáveis, com uma produção e energias limpas, portanto, vai potenciar o nosso posicionamento perante os nossos clientes».

Uma visão diferente tem o administrador da Sonix, que tinha já realizado investimentos em energia solar. Samuel Costa admitiu que esta situação está a fazer com que, na gestão da empresa, estejam «mais cautelosos e a analisar de forma diferente os investimentos – coisas que em 2021 já teriam acontecido, estão a acontecer». Além disso, referiu, «acho que esta aceleração [nos investimentos em sustentabilidade] não é vista do lado do cliente como um valor acrescentado».

Repercutir os custos nos preços

Alberta Marimba

O que levanta um outro problema: o da subida dos preços junto dos clientes. A Somelos tem feito repercutir o aumento dos custos no preço dos artigos, mas o processo nunca é fácil. «Como prestador de serviço ou como private label, somos reféns daquilo que os nossos clientes querem fazer e o que eles querem fazer, e é esse o feedback que conseguimos recolher, é serem os últimos a aumentar preços. E enquanto conseguirem recuperar essas margens na cadeia de valor deles, vão falar connosco e tentar que sejamos nós a absorver isso. Temo-lo feito, obviamente que não poderemos fazer durante muito mais tempo, mas há aqui um benefício que é entregue aos nossos clientes que não passa para o consumidor final», sublinhou Samuel Costa, acrescentando que, apesar dos custos produtivos mais elevados, «na realidade, se formos a analisar o têxtil, as coisas não subiram de preço ainda, pelo menos genericamente».

Para a diretora comercial da Somelos Tecidos seria importante que a indústria portuguesa se unisse no sentido de um certo posicionamento ao nível dos preços. «Não é normal, com o que estamos a viver – a subida das matérias-primas, do custo de transporte, escassez de mão de obra, que estão a fazer com que tenhamos que pagar horas extra e outras coisas, para conseguir cumprir com os nossos compromissos – que os nossos clientes venham pedir redução de preços. E isso tem acontecido», revelou. «Estamos há 20 anos a fugir de nos juntarmos a tudo que é o grupo que faz o produto indiferenciado e estamos, neste momento, a ser pressionados para voltar a esse grupo. Por isso, tem que haver uma posição concertada, porque se a Somelos subiu cerca de 30% os preços dos seus produtos no último ano, muitas outras empresas no mercado não o fizeram», acrescentou Alberta Marimba.

O problema dos recursos humanos

A escassez de recursos humanos não é uma questão nova para o sector, mas continua a ser premente e a pôr em causa o futuro. «Eu digo que a culpa é nossa, que não conseguimos captar recursos, não conseguimos convencê-los que também conseguimos dar-lhes aquilo que eles querem, o ânimo e o projeto para serem mais», afirmou Miguel Domingues.

Samuel Costa

Também Samuel Costa admitiu que «o nosso sector têxtil não é atrativo, ninguém vê valor nem se sente realizado e com algum estatuto perante outros sectores, alguns de menor importância, porque realmente o têxtil é muito cinzento ainda, é muito desconhecido. Foi muito fechado, as fábricas são feias, não são espaços agradáveis, por vezes não têm as condições que deviam ter e é difícil captar pessoas e mantê-las motivadas», pelo que «o desafio das pessoas não é só agora a captação», mas olhar para os jovens de hoje e tentar cativá-los para o futuro e, depois, retê-los na indústria têxtil e vestuário.

No caminho para a bioeconomia

Apesar destes desafios, «esta vai ser mais uma crise que vamos passar», acredita Alberta Marimba. «Tem de haver inovação comportamental, temos que inovar, a atitude tem que ser diferente e nós temos feito por isso e vamos todos fazer por isso. Depois, a inovação do processo, que tem a ver com rentabilidade, com a forma de fazer, é fundamental e, por último, obrigatoriamente decidir bio», enumerou Miguel Domingues, que destacou que olhar para a sustentabilidade, nomeadamente a social, é essencial para garantir o futuro. «Tivemos dois fatores exógenos que nos estão a pôr à prova: a pandemia, por um lado, e esta guerra tão próxima, que nos faz ver que o ser humano não é aquilo que achamos que deve ser, mas é aquilo que é. A ambição humana faz com que se destruam recursos humanos e recursos materiais rapidamente. E isto traduz-se em carreiras destruídas, em famílias destruídas, em vidas destruídas e na morte biológica e na biodiversidade que desaparece dia a dia, porque o ser humano acha que há a hipótese de ir viver para Marte e de viver na Lua. E realmente há essa hipótese, mas porque não preservarmos recursos que tão dificilmente e tanto tempo demoram a repor e nós tão rapidamente gastamos? A chave está na bioeconomia, na transformação da economia fóssil para a regenerativa, a biodegradável e a reciclável como tanto falamos», concluiu o diretor comercial e de I&D na ATB.

Miguel Domingues