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Da Jordânia com amor – Parte 1

Apesar das tensões e proximidade aos conflitos que minam a região, a Jordânia continua a produzir têxteis e vestuário para algumas das mais reconhecidas marcas de moda globais, superando os desafios impostos pelas contingências contemporâneas.

A antiga cidade de Petra, os 70 anos de turbulência regional e a espiral de crise dos refugiados da Síria, são apenas alguns dos estereótipos comummente associados à Jordânia, a nação do Médio Oriente que partilha uma fronteira com o Iraque e a Síria. Poucos imaginariam, no entanto, que este país detém uma indústria de fabricação de vestuário vibrante.

Porém, basta observar cuidadosamente as etiquetas costuradas em roupas da Gap, Victoria’s Secret, Hanes, Eddie Bauer, Lands ‘End ou Macy’s: todas elas indicam «Made in Jordan». As exportações de vestuário representam cerca de 20% do produto interno bruto do país.

Nos arredores áridos de diversas cidades jordanas, surge um número crescente de parques industriais, que alojam fábricas de vestuário, que produzem para algumas das marcas mais conhecidas do mundo.

Atualmente existem 75 fábricas que fabricam diversos produtos têxteis. Elas respondem por 95% da força de trabalho industrial e pela mesma percentagem das exportações de vestuário.

Apesar da sua reputação como o lugar mais seguro no Médio Oriente, a instabilidade na Jordânia atingiu um ponto máximo. Mais de um milhão de refugiados sírios procuram abrigo e emprego. A Jordânia é o único país árabe que está, ainda, ativo na coligação contra o ISIS e a ameaça de desestabilização proveniente da Síria e do Iraque tem obrigado a um reforço da segurança das fronteiras norte e leste do país.

A oposição política da Jordânia, a Irmandade Muçulmana, está a desintegrar-se, permitindo que os dissidentes passem despercebidos. O governante do país, o rei Abdullah, tem cada vez mais invocado a necessidade de apoio financeiro e operacional dos seus aliados, como os Estados Unidos, não só ao seu povo, mas também aos requerentes de asilo provenientes da Síria, Iraque, Sudão e Iémen. Diversos diplomatas em Amman admitem, reservadamente, que consideram a eventualidade de um ataque terrorista em termos de “quando” e não “se”.

No entanto, de alguma forma, a indústria está a crescer, contrariando os indicadores de senso comum.

«Quando chega à Jordânia, nunca se sente o tumulto regional», disse Radhakrishnan Putharikkal, presidente da fábrica da Classic Fashion, localizada  nos 118 hectares da propriedade industrial de Al-Hassan, a norte de Irbid. A Classic é, atualmente, o principal fabricante de vestuário do Reino. As suas exportações responderam por quase 13% dos mil milhões de dólares de exportações de vestuário jordanas para os Estados Unidos da América, no decorrer do ano passado, segundo o Ministério do Comércio da Jordânia. Fundada em 2003, cresceu de uma operação de pequena escala (300 funcionários, 130 máquinas e um volume de negócios de 2 milhões de dólares por ano) para 15.000 funcionários, 7.500 máquinas, produzindo cerca de 200.000 peças de vestuário por dia e um volume de negócios anual de mais de 250 milhões de dólares.

«A estabilidade e localização da Jordânia fez-nos privilegiá-la face a Marrocos ou à Tunísia, e as nossas estimativas resultaram 100% corretas», disse Putharikkal.

As origens
Em contraste com os seus vizinhos, Israel e Arábia Saudita, a Jordânia é um país pobre, devastadoramente seco e com poucos recursos: potássio, fosfatos e o turismo lideram a lista. O petróleo é importado, assim como quase metade dos bens alimentares e produtos manufaturados do país. Apesar da economia, a forma como a Jordânia se tornou uma potência de fabricação é essencialmente política.

Quando o acordo de paz de 1994 foi estabelecido entre a Jordânia e Israel, foi simultaneamente introduzido um elemento-chave da economia: a Zona Industrial de Qualificação (QIZ, na sigla inglesa). De acordo com esta legislação, os bens produzidos em colaboração com Israel poderiam desfrutar de acesso livre ao mercado dos EUA. Estas áreas foram incluídas como um «dividendo de paz», disse Sean Yom, estudioso da região e professor de ciência política na Universidade de Temple, em Filadélfia.

«Isto foi-lhes apresentado desta forma, procurando convencer os jordanos de que o acordo de paz de 1994 com Israel iria beneficiá-los. Tinha como objetivo impulsionar o sector de exportação, aumentar o emprego e atrair investimento estrangeiro».

Isso aconteceu, mas só até certo ponto: o grupo que mais beneficiou do investimento estrangeiro era constituído por comerciantes e empresários, indivíduos que já detinham capital financeiro e puderam alavancar as suas conexões de modo a garantir novos contratos.

«A maioria dos postos de trabalho foram alocados, inicialmente, a mão-de-obra estrangeira, até que um retrocesso obrigou os gestores a contratar localmente», disse Yom.

Alguns especialistas dizem que o potencial de exportação do projeto tornou-se discutível, em 2000, quando os EUA estabeleceu o seu acordo de livre comércio com a Jordânia, eliminando a necessidade de uma conexão a Israel. Mas outros dizem que estas áreas de qualificação serviram outro propósito: acelerar a criação de um acordo de livre comércio com os EUA.

«Sem as fábricas nas QIZ, nunca poderíamos ter iniciado o processo de atrair esses fabricantes de Hong Kong e da China e o comércio americano», disse Halim Salfiti, antigo diretor-executivo da Al Tajamouat Industrial City.

«Decorreu um processo no qual os fabricantes estrangeiros educaram os locais, mostrando-lhes como fazer isto. Os fabricantes estrangeiros começaram por trabalhar aqui e depois iniciaram a negociação. E eles beneficiavam de relações com os compradores, por isso, para os fabricantes jordanos estreantes, isso foi um elemento facilitador», disse Salfiti.

Com o crescimento das antigas fábricas QIZ e o aparecimento de novas áreas industriais, na sequência do acordo de livre comércio entre o país e os  EUA, o sector floresceu. Em 2006 e 2007, o sector de exportação de bens manufaturados (principalmente vestuário), avaliado em milhares de milhões de dólares, respondeu pela maioria das exportações da Jordânia.

Na segunda parte deste artigo serão abordados alguns dos desafios ainda enfrentados, localmente, pela indústria têxtil e do vestuário, nomeadamente relativos à contratação de mão-de-obra local e feminina, assim como as mudanças eminentes decorrentes da tensão vivida na região.