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Da prisão para a passerelle

O projeto brasileiro Ponto Firme levou o crochet para dentro das paredes do estabelecimento prisional Adriano Marrey e, de lá, para a passerelle da semana de moda de São Paulo, transformando os presidiários em designers.

O projeto Ponto Firme, lançado pelo designer e artesão Gustavo Silvestre, inaugurou a 45.ª edição da semana de moda de São Paulo, que decorreu entre os dias 21 e 26 de abril no Parque do Ibirapuera.

A coleção apresentada já vem a ser trabalhada há mais de dois anos, quando o crochet chegou ao estabelecimento prisional Adriano Marrey. Atualmente, estão envolvidos no Ponto Firme mais de 120 presidiários. A participação no projeto garante certificado final e possibilidade de redução de pena.

«O fio e as agulhas de crochet são as minhas armas», afirmou Honorato Bezerra, sentenciado a quatro anos de prisão, à agência noticiosa AFP. «O crochet ajuda-nos a reduzir a ansiedade e a passar o tempo», acrescentou.

Tal como muitos outros no Brasil, o estabelecimento prisional Adriano Marrey está completamente sobrelotado – com 2.100 presidiários e capacidade para 1.200. Ainda assim, a prisão é limpa e orgulha-se da sua oferta cultural, que inclui o projeto de moda Ponto Firme e uma visita, em 2016, do tenor italiano Andrea Bocelli. «Acreditamos que a arte pode mudar vidas», explicou Igor Rocha, que supervisiona os programas culturais da prisão desde 2010.

No calendário da semana de moda foram apresentados coordenados masculinos e femininos. Vestidos longos, quimonos e diferentes acessórios, incluindo beachwear – todos coloridos – cruzaram a passerelle. Rica em elementos sensuais e descontraídos, a coleção deixou claro à assistência que os seus criativos não vinham de escolas de moda, com a banda sonora a incluir o som do abrir e fechar de portas de celas, entre outros ruídos que só no interior das prisões se escutam.

«A semana de moda de São Paulo tem como premissa transformação, educação e formação. Ter este projeto dentro do evento reafirma o nosso compromisso com a sociedade de mostrar que a moda, o design, o fazer criativo podem realmente mudar a vida das pessoas», destacou Paulo Borges, diretor criativo da semana de moda de São Paulo, em declarações ao FFW.

Gustavo Silvestre, um veterano que tem vindo a aprimorar a arte do crochet desde 2008, visita duas vezes por semana a prisão de alta segurança masculina.

Gustavo Silvestre

«O primeiro desafio com que me deparei foi o preconceito: homem a fazer crochet. O segundo: criminosos – as pessoas usam muito essa palavra. “É perigoso você entrar lá”, diziam. Ao chegar lá, a primeira pergunta que fiz foi: “quem da família tem alguém que faz crochet?” 99% da sala de aula levantou a mão. Fui por esse caminho do afeto», contou Gustavo Silvestre ao FFW.

Numa legenda de uma fotografia publicada na rede social Instagram, ao lado de alguns dos presidiários envolvidos no projeto Ponto Firme, o mentor Gustavo Silvestre reconhece que «o poder de transformação está nas nossas mãos».