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Da Rússia com amor

A desvalorização da moeda russa não esmoreceu o desejo dos consumidores nacionais por produtos estrangeiros. Os consumidores russos tendem, agora, para os retalhistas online, conferindo um impulso inesperado aos gigantes do comércio eletrónico chinês.

A plataforma AliExpress, pertencente ao grupo Alibaba, assinalou um aumento de 40% do número de visitantes originários da Rússia, num total de 22 milhões em julho, face ao ano anterior. A plataforma JD.com, cuja maioria das vendas é proveniente do segmento de eletrónica e eletrodomésticos, introduziu recentemente o seu primeiro site internacional, escolhendo a Rússia como destino de estreia. Nesta plataforma disponibiliza exclusivamente dispositivos eletrónicos por metade do preço praticado pelas principais marcas internacionais, como Apple e Samsung, que apresentam, no entanto, especificações técnicas semelhantes.

«No contexto da recessão, os consumidores russos tendem cada vez mais para a web, onde procuram as melhores ofertas», afirma Maria Gracheva, diretora de pagamentos on-line da operadora Yandex.Money, que colabora simultaneamente com a AliExpress e a JD.com. «As lojas on-line chinesas disponibilizam uma oferta de preços acessível», destaca.

Os cidadãos russos estão a ser afetados pelo colapso dos preços do petróleo, que perturba severamente a economia do maior exportador de energia do mundo, agravando a volatilidade do rublo e conduzindo a uma diminuição da receita do governo. Em agosto, os salários caíram 9,8%, em termos reais e o rendimento disponível dos cidadãos é atualmente muito menor face ao ano anterior.

«A carteira do consumidor encolheu em cerca de metade, mas os russos continuam a procurar produtos de boa qualidade a preços acessíveis», revela Victor Xu, diretor de negócios internacionais da JD.com.

Apesar da recessão económica, os russos estão, agora, a privilegiar os produtos provenientes da China. Cerca de 80 milhões de pessoas estão online na Rússia, fazendo deste o maior mercado de internet da Europa, segundo o número de utilizadores. No entanto, o número de compradores em plataformas de comércio eletrónico representa apenas um terço do total, em comparação com 70% a 90% assinalados nos EUA e Europa Ocidental.

«Na China, temos 3 milhões de pedidos todos os dias», afirma Xu. «A Rússia corresponde, aproximadamente, a 10% do mercado chinês, pelo que poderemos ter, potencialmente, até 300.000 encomendas diárias».

Este ano, o número de expedições provenientes do exterior poderá exceder o número de encomendas de comércio eletrónico operadas no mercado russo, impulsionadas pela procura de produtos chineses. Em 2014, foram entregues 235 milhões de encomendas, incluindo 75 milhões de encomendas transfronteiriças. Este ano, as encomendas deverão fixar-se em 220 milhões, das quais 120 milhões são provenientes de importação.

A AliExpress testemunhou um aumento consistente das vendas de itens domésticos nos últimos meses, a par de uma contínua procura por vestuário, acessórios e dispositivos eletrónicos.

Apesar do crescimento testemunhado em território russo, a dependência face à despesa do consumidor chinês expôs a empresa à desaceleração doméstica. O grupo Alibaba cedeu a posição de maior empresa de Internet do continente asiático à Tencent Holdings Ltd. no mês anterior, em consequência de uma derrapagem assinalada nos 10 meses anteriores, que subtraiu 140 mil milhões de dólares ao seu valor de mercado.

Pequenos, grandes luxos

Enquanto os fornecedores chineses, incluindo Alibaba, TinyDeal e JD.com, têm apresentado um bom desempenho em solo russo, o eBay Inc. perdeu 16% dos seus visitantes russos desde julho, somando 6,9 milhões. Diversos retalhistas chineses utilizam o eBay como intermediário de acesso aos consumidores russos.

O dólar valorizou 55% em relação ao rublo no último ano. Uma consequência adicional desta depreciação é o embaratecimento da fabricação russa, que torna os produtos mais atrativos no exterior. O grupo Alibaba pretende introduzir a oferta de comida russa, como chocolate e leite condensado, aos clientes chineses já a partir de novembro, enquanto a JD.com pondera a venda de marisco russo, vodka, joias e peles em território chinês, refere Xu.

Embora muitos russos, residentes em Moscovo e São Petersburgo, tenham aderido amplamente às compras online, no extremo oriente do país, o comércio eletrónico cresce mais lentamente. Na cidade de Blagoveshchensk, próxima à fronteira chinesa, o fluxo de turistas mudou de direção com a desvalorização do rublo. Um yuan equivale a 10 rublos, em comparação com 5,4 no início de 2014, pelo que o poder de compra dos visitantes chineses é agora superior.

«Costumávamos ir a Heihe [cidade chinesa oposta a Blagoveshchensk] para passear, comer fora e fazer compras», revela Maria Kobysh, diretora de uma loja de joalharia da cidade. «Agora não nos podemos permitir a isso e, simultaneamente, vários compradores chineses começaram a visitar Blagoveshchensk». Os itens de ouro, pedras preciosas e doces figuram entre os produtos mais procurados, aponta.

Diversas lojas com presença física poderão, agora, optar por se deslocar para o segmento digital. A TradeEase, apoiada pelo Banco da China, iniciou a construção de um site russo no mês anterior, que pretende deslocar o comércio fronteiriço para o segmento on-line, em resultado da diminuição das deslocações dos consumidores russos através da fronteira.