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Dar o corpo às balas

O projeto AuxDefense, que envolve a Universidade do Minho, a Latino, a LMA e a Sciencentris, está a investigar a utilização de materiais auxéticos no desenvolvimento de uma nova geração de fardas mais resistentes ao impacto, corte e perfuração para o exército português.

Iniciado em 2016 e com uma duração de dois anos, o projeto tem como objetivo desenvolver produtos para a defesa com base em materiais fibrosos e conta com o envolvimento da Universidade do Minho, a Força Aérea, o Exército, as empresas Fibrauto, IDT Consulting, Latino, LMA e Sciencentris e ainda a Universidade de Plymouth e a Universidade Politécnica de Hong Kong.

A primeira fase está em curso e inclui o levantamento do estado da arte, a conceptualização e identificação de requisitos para coletes e capacetes balísticos, joelheiras e cotoveleiras, assim como o desenvolvimento de estruturas e materiais auxéticos fibrosos.

«Atualmente estamos a levar a cabo um trabalho bastante experimental que concerne a caraterização de estruturas e materiais auxéticos fibrosos e o desenvolvimento técnico-científico de protótipos para cada um dos produtos mencionados», explicou Fernando Cunha, CEO da Sciencentris, uma spinoff da Universidade do Minho, ao Jornal Têxtil, num artigo publicado na edição de janeiro (ver Em nome do pai).

O projeto prevê a utilização de estruturas fibrosas avançadas, resistentes ao corte, à perfuração, absorção de energia, respiráveis e leves, assim como a utilização de nanotecnologia, nomeadamente nanotubos de carbono para incrementar as propriedades mecânicas dos materiais, e de compósitos reforçados com fibras de elevado desempenho mecânico, como carbono.

Embora os materiais sejam já conhecidos e aplicados noutras áreas, «a ciência associada à colocação dos materiais certos, orientados de forma a tirar o maior partido da sua aplicação, e a criação de novos conceitos de desenvolvimento para melhorar o desempenho de um produto sem incrementar peso ou reduzir o seu peso mantendo as suas propriedades, é, com certeza, um conhecimento criado de raiz à volta desse produto, que contempla um conjunto de requisitos e limitações muito especificas», destacou Fernando Cunha.

Segundo o CEO da Sciencentrics, «o efeito auxético confere aos materiais propriedades espetaculares, como elevada absorção de energia de impacto, capacidade de amortecimento, elevada rigidez e elevada tenacidade», pelo que as «estruturas fibrosas auxéticas são potencialmente atrativas para a comercialização de vestuário e componentes de proteção, por exemplo, para fins militares».

Embora estejam voltados para a utilização no campo militar, os resultados do projeto AuxDefense, que conta com um investimento de 782 mil euros, 89% proveniente do Ministério da Defesa, podem eventualmente ser aplicados no mercado civil.

«As necessidades do mercado ditarão a sua utilização, mas quando se fala em profissões em que o risco de impacto é levado, é sempre importante considerar que a utilização de alguns desenvolvimentos faz sentido», referiu Fernando Cunha, que menciona aplicações na área do desporto radical, automóvel, do calçado e dos edifícios.