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Das salas de aula aos corredores da indústria

Numa viagem entre Guimarães e Lisboa, com paragem em Castelo Branco, podem conhecer-se não só as salas de aula das escolas de moda nacionais, mas também as pontes que as ligam à indústria têxtil. De longa data ou ainda a dar os primeiros passos, o diálogo entre a escola e a fábrica tem dado frutos.

ESAD, Ana Sarmento

Na recente edição do Portugal Fashion, o Bloom deixou espreitar as salas de aula da Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco (ESART), da Escola Profissional Cenatex (Guimarães) e do curso de Design de Moda da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (FAUL), que se juntaram às veteranas Modatex Porto, Escola de Moda do Porto (EMP) e Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos (ESAD) para os desfiles da plataforma dedicada ao talento emergente.

ESART, Edgar Silva

A partir dos bastidores, os coordenadores dos cursos representados no calendário acompanharam os seus alunos e ex-alunos nos primeiros passos em passerelle (ver Dia de aulas começa de elétrico).

Depois dos desfiles, o Portugal Têxtil procurou fazer uma revisão à matéria dada ao longo dos anos de formação com Alexandra Cruchinho (ESART), Luís Carvalho (Cenatex), Maria José Sacchetti (FAUL), Vânia Santos (EMP), Luís Parada (Modatex) e Maria Gambina (ESAD), com a importância da ligação à indústria têxtil lecionada por todos os coordenadores.

A geografia

«Na ESART reforçamos mesmo a componente de design de moda e têxtil, apesar de ser uma redundância, porque para nós é importante incidir na questão do têxtil», começa por destacar Alexandra Cruchinho, coordenadora da licenciatura em design de moda e têxtil da ESART, que depois pode seguir para o mestrado.

ESART, Edgar Silva

Reconhecendo a generosidade da geografia, considerando que a ESART se situa num distrito reconhecido pela sua história nos lanifícios – o Museu Têxtil, que abriu portas em Cebolais de Cima este ano, procura precisamente preservar esse legado –, desde cedo que a escola tem estabelecido frutíferas parcerias com a indústria.

«Temos alunos que ainda não acabaram o curso e já estão a ser colocados nas empresas. As empresas vão assistir às defesas, acompanham todo o nosso trabalho, dada a proximidade geográfica que temos», revela a coordenadora, citando exemplos como o de Edgar Silva, um dos alunos que se estreou na passerelle do Bloom e que já foi integrado nas fileiras da indústria têxtil, mais precisamente na Rafael & Filhos, gerida pela família fundadora da Dielmar, outra das empresas do distrito.

«A minha experiência profissional ainda é curta, estou lá há cerca de um mês, mas basicamente estou a trabalhar mais roupa clássica e ligado à parte de produção», explica Edgar Silva, que se prepara para ingressar no mestrado e foi um dos alunos participantes na iniciativa “Cobertor de Papa é moda”, promovida pelo município da Guarda em 2016 e que, entre os dias 18 a 22 de outubro, levou os produtos manufaturados por artesãos do Museu de Tecelagem dos Meios e pelos alunos da ESART ao Lisboa Design Show – LXD, na FIL.

Os estágios

Por vezes, são os próprios coordenadores as pontes entre a escola e a fábrica.

Cenatex, Catarina Lemos

«Os meus módulos são mais ligados à indústria, um deles é a coleção de jeanswear, e eu também tenho esse background com o meu trabalho na Salsa», sublinha o designer Luís Carvalho, que assumiu o papel de coordenador do curso profissional de técnico de design de moda do Cenatex no ano passado, ressalvando a importância dos estágios curriculares para a progressão profissional dos alunos.

«Temos estágios no 11.º e 12.º anos, com uma duração de cerca de dois meses, e há esse contacto direto com a indústria. É uma realidade completamente diferente daquilo que os alunos aprendem nas aulas. Eles aprendem mais em dois meses de estágio do que num ano de escola», considera.

As sinergias

A FAUL, que se encontra mais afastada da indústria têxtil e vestuário, muito concentrada a Norte do país, acredita que as distâncias se encurtam com as sinergias, tendo vindo a estabelecer parcerias com instituições de ensino como a Universidade da Beira Interior (UBI) e o Instituto Politécnico de Castelo Branco.

FAUL, Marta Santa Marta

«Temos algumas parcerias, não só com a indústria têxtil, como com algumas escolas. Juntamente com essas escolas fazemos depois outras parcerias», refere a coordenadora Maria José Sacchetti ao Portugal Têxtil.

Já a relação do curso de design de moda da FAUL com a indústria têxtil assenta na permuta de valências – afinal, a indústria não avança sem o design e o design não se concretiza sem a indústria.

No ano passado, a indústria têxtil e vestuário exportou 5.063 mil milhões de euros, garantindo a melhor performance dos últimos 14 anos, sendo que, lado a lado com a rapidez de resposta, a inovação tecnológica e a subida na cadeia de valor, o design e a moda muito contribuíram para esses números.

«Temos contactado algumas empresas têxteis, nomeadamente para materiais, que é um dos aspetos que nos faz imensa falta, mas também temos sido contactados a nível de serviços de design por algumas empresas», revela Maria José Sacchetti. Em busca de figurinos ou de fardamento, também as companhias de teatro e as empresas de vestuário de trabalho têm contactado a FAUL.

A vizinhança

Modatex, EMP e ESAD já são veteranas nos desfiles do Bloom e, sediadas na cidade do Porto, beneficiam da proximidade à indústria têxtil e vestuário.

Modatex, Patrícia Brito

«Estamos a tentar cobrir todas as vertentes possíveis e perceber quais são as necessidades das empresas. É possível porque existe uma proximidade com as empresas, porque há muito feedback, vamos conversando, vamos trocando ideias, vamos tentando perceber o que faz falta», esclarece Luís Parada, coordenador do curso de design de moda do Modatex Porto, realçando que, nos últimos seis anos, foram feitas várias alterações a nível do plano curricular nesse sentido, resultando num acréscimo de horas técnicas.

Patrícia Brito, que acabou o curso profissional de design de moda e desfilou no Bloom, é uma das ex-formandas do Modatex Porto e vai começar brevemente um estágio na marca de surfwear Deeply, detida pelo grupo Sonae.

«O nosso curso é muito direcionado para a indústria e foi-me sugerido ir para a indústria, neste caso para a Deeply, porque a marca trabalha mais a parte gráfica, algo de que gosto», confessa a jovem designer.

EMP, Patrícia Shim e Mariana Serra

Este ano, a Têxtil Cães de Pedra, detentora das marcas Decenio e Lion of Porches, foi uma das empresas que recebeu alunos estagiários da EMP, mas os planos passam por fomentar projetos «que possam aproximar cada vez mais o ambiente escolar do ambiente laboral», nas palavras de Vânia Santos, coordenadora do curso de design de moda da EMP.

A coordenadora considera o contacto com a indústria «fundamental para que os alunos possam ter uma noção da realidade», focando as várias parcerias firmadas ao longo dos anos pela escola.

A ESAD é novata nas parcerias com a indústria têxtil e vestuário, mas começou com o pé direito, este ano, em Frankfurt (ver ESAD arrecada prémios em Frankfurt).

ESAD, Ana Sousa

As empresas Tintex, Lipaco, Heliotêxtil e ERT apoiaram o talento emergente da ESAD no concurso Innovative Apparel Show do salão internacional Techtextil, que distinguiu, duplamente, a aluna Mariana Almeida. A jovem designer ficou com 2.º lugar no prémio do público e foi a grande vencedora do prémio único atribuído pelos leitores da TextilWirtschaft.com.

«Foi a nossa primeira aproximação, mas correu muito bem e como correu muito bem e as empresas perceberam que embora estivessem a trabalhar com uma escola há um grande profissionalismo, respeito e cedências, acredito que foi um pontapé de saída para próximas parcerias, até porque teve bastante visibilidade», reconhece Maria Gambina, coordenadora do curso de design de moda da ESAD.