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Denim em transformação

A crescente consciência da necessidade de uma cadeia de aprovisionamento sustentada surge aliada à inovação e apresentação de novos desenvolvimentos tecnológicos, cujas funcionalidades permitem uma abordagem diferenciadora dos produtos e aplicação de processos de produção mais sustentáveis.

«É muito claro na mente de todos que a forma como fabricamos um produto representa o ADN da marca», afirma Enrique Silla, CEO da empresa de tecnologia sustentável espanhola Jeanologia. «Atualmente, não importa apenas a estética mas também a tecnologia de produção. (…) E a eficiência de custo está especialmente relacionada com a forma como produzimos», acrescenta.

Os desenvolvimentos tecnológicos têm contribuído de forma determinante para a diferenciação dos produtos desenvolvidos pelas empresas de vestuário, proporcionando as ferramentas necessárias à eficiência e rentabilidade das cadeias de aprovisionamento.

«A tecnologia é a única forma de evoluir», acredita Silla. «E é muito claro que a tecnologia [no sector do vestuário] deve primar pela sustentabilidade», defende.

O futuro da tecnologia
O CEO da Jeanologia destaca a «grande evolução» da indústria dos jeans. «Nos últimos 10 anos, três tecnologias mudaram completamente as possibilidades e a forma como produzimos os nossos jeans», aponta. Essas técnicas, revela, são o laser, o ozono e o eFlow, que permitem restringir os impactos ambientais do sector.

O uso da tecnologia a laser na criação de um denim de aspeto usado foi divulgado em 1999, em Itália. Atualmente, de acordo com a empresa espanhola, cerca de 25% da produção de jeans globais utiliza esta tecnologia e deverá atingir os 50% nos próximos dois anos.

A tecnologia Light Scraper da Jeanologia, lançada em fevereiro, confere diferentes efeitos a um tecido de denim através do simples pressionar de um botão e pode reduzir o tempo de lançamento do produto no mercado em cerca de quatro semanas. Esta tecnologia incorpora uma lixa virtual que substitui o processo manual, causadora de tendinite crónica, problemas musculares e dificuldades respiratórias nos trabalhadores, que é ainda extensamente usado na Ásia.

«O Light Scraper será um marco na indústria têxtil», sublinha Silla. A sua utilização permitirá alcançar uma «produção totalmente automatizada, eficiente, ecológica e ética, sem perder a autenticidade e aparência natural das peças de vestuário».

A tecnologia G2 Dynamic Ozone permite o branqueamento de jeans sem recurso a químicos. Criada na década de 1990, foi adotada pela indústria de denim apenas em 2005 e é utilizada em 5% da produção de jeans.

Esta tecnologia permite ultrapassar os obstáculos frequentemente associados às técnicas de branqueamento mediante a utilização de ozono. «A aplicação de ozono tornar-se-á massiva e a forma como produzimos jeans irá mudar», antecipa o CEO da Jeanologia.

A terceira, e «maior revolução», defende Silla, é o eFlow. Este processo transforma ar atmosférico em nanobolhas. Os químicos e a água distribuem-se naturalmente na superfície das bolhas, formando uma camada de nanobolhas. O eFlow atua como um veículo de transmissão das nanobolhas para o tecido ou peça de vestuário através de um método definido como «mais otimizado e eficiente», que utiliza uma quantidade ínfima de água.

A Jeanologia desenvolveu esta técnica há três anos e é atualmente aplicada em 3% dos processos de produção de jeans. «Sabemos que podemos aplicar qualquer propriedade à peça sem utilizar muita água. Acredito que a tecnologia irá evoluir no futuro e outras empresas irão investir nela e integrá-la [nos seus processos]. O nosso sonho de eliminar a utilização de água irá tornar-se uma realidade. Isto não é o futuro, é o presente», refere Silla.

A empresa italiana Tonello Technologies desenvolveu, também, mecanismos de eficiência energética e de poupança de água a aplicar na lavagem de jeans. Flavio Tonello, diretor administrativo da organização, afirma que o sistema de lavagem ECOfree combina as vantagens da tecnologia de ozono com «consideráveis poupanças» em termos de água, energia e químicos.

As peças de vestuário são tratadas com ozono, em detrimento do uso de químicos prejudiciais, que é de seguida neutralizado, permitindo o tratamento manual das peças por parte dos operadores, anulando a exposição a substâncias nocivas. Este processo permite a poupança de 50% a 80% de água e energia face ao processo tradicional.

A perspetiva do consumidor
Embora uma parte significativa desta tecnologia tenha como foco o benefício do fabricante, uma empresa investiu no desenvolvimento de uma técnica inovadora que pretende responder às necessidades do consumidor. A Polygiene AB concebeu uma tecnologia de controlo de odor que limite a necessidade de lavagem do produto aos casos de sujidade visível.

«Todos procuram poupar água durante o processo de produção de denim», reconhece Ronald Gladon, diretor de marketing e vendas da empresa sueca na região do Benelux. «Nós procuramos poupar do lado do consumidor porque um terço do consumo de água do ciclo de vida de um produto ocorre na produção e dois terços do desperdício de água ocorrem do lado do consumidor», explica.

O efeito de proteção contra o odor é garantido no decorrer do ciclo de vida normal do produto e a tecnologia neutraliza o odor impedindo a propagação de bactérias e fungos causadores. A técnica Polygiene é certificada pela Bluesign e integra a lista de produtos aprovados pelo OekoTex.

Atualmente, a tecnologia está a ser utilizada por marcas como Adidas, Patagonia, Jack Wolfskin e Hugo Boss e a empresa sueca espera agora atrair outras marcas de moda.

«[A sua implementação] no denim é difícil devido aos tratamentos utilizados na criação dos diferentes efeitos. Já realizámos vários testes para a Lee, e uma marca holandesa, a Mud Jeans, começou a usar Polygiene», revela Gladon. A empresa está também em contacto com a G-Star, Jesus, Diesel Japão e Denham, e foi recentemente abordada pela Levi Strauss nos EUA.

«O Japão é um mercado em crescimento, assim como os EUA. Temos estado em contacto com a Abercrombie & Fitch, Polo Ralph Lauren e a Victoria’s Secret. Temos também um contrato com a Calvin Klein», acrescenta.

Incorporar a sustentabilidade
«É necessário produzir peças de vestuário sem afetar o planeta e as pessoas», defende Enrique Silla. «A única forma de o fazer é através da tecnologia», destaca.

O CEO da Jeanologia acredita que no espaço de cinco anos a indústria têxtil e do vestuário irá integrar robôs. «Vamos transformar completamente a indústria com recurso à inovação. Isto significa eliminar a mão humana do processo de fabricação de jeans e usar o cérebro humano em sua vez», explica. «Existem muitas coisas que podemos fazer usando a tecnologia. É necessário pensar sobre como a tecnologia pode transformar os nossos produtos e como podemos usar a tecnologia não só para melhor criar um produto, mas também como ser mais criativo. Esta é a nossa visão», conclui.